Água em boas mãos

Jovens mulheres mergulham com força na luta pelo futuro do nosso planeta

Por Manuel Vitart Aguiar 

“O velho pensava sempre no mar e como sendo la mar, que é como lhe chamam em espanhol quando verdadeiramente o querem bem … o velho pensava sempre no mar no feminino …”.  Era assim que o personagem da mais conhecida obra de Ernest Hemingway interpretava as águas caribenhas que lhe permitiam exercer seu ofício de pescador.

Em espanhol a palavra mar é ambígua, admite o gênero masculino (el mar) e  feminino (la mar). Já o vocábulo el agua, apesar de ser grafado com “el” é feminino. Aqueles que vivem do el mar, la mar ou el agua o compreendem sempre como uma mulher. Talvez estejam certos pois mãos femininas estão mergulhadas no futuro da água em nosso planeta.

O World Youth Parliament for Water (WYPW), ou Parlamento Mundial Jovem para Água, é uma instituição de prestígio internacional fundada na França em 1998, dirigida e coordenada por muitas mulheres. A presidente é Asma Bachikh do Marrocos e as vices são a argentina Antonella Vagliente e a holandesa Sussane Reitsma.

EUROPA

A vice-presidente do WYPW, Susanne Reistma, tem apenas 19 anos. A holandesa, estudante de Relações Internacionais na Universidade de Leiden em Haia, explica que o objetivo do WYPW é o acesso universal da água e do saneamento básico a todos povos. Os Países Baixos detêm níveis de excelência no tratamento de água e esgoto, mas possuem dois dos maiores portos do mundo – Amsterdam e Roterdam. Os rios holandeses também servem de caminho para uma potência em gêneros alimentícios, produtos químicos, refino de petróleo e metalurgia que abastecem boa parte da Europa.

A terra dos moinhos sempre foi pioneira em sustentabilidade. Criou em 1970 a lei chamada “Ato de Poluição das Águas Superficiais”, que multou poluidores, aumentou a fiscalização das ligações de água e deu ensejo à construção de mais estações de tratamento de água e esgoto, enquanto a Europa ainda vivia uma período de industrialização desmedida.

Ainda assim, as bacias dos rios Reno, Meuse, Scheldt e Ems possuem diversos pontos com alta concentração de metais pesados. A busca pelo uso racional e sustentável dos recursos hídricos na Holanda é uma constante para Reistma. “Organizamos encontros períodicos no país para empresas dividirem seus problemas de gestão da água com profissionais do assunto. Os grupos discutem até chegarem a uma solução viável. Os resultados são apresentados em plenário e publicados em um jornal”.

ÁFRICA

Amna: projetos para regiões áridas no Sudão

Amna: projetos para regiões áridas no continente africano

No Sudão, as soluções são mais complicadas. A nação ao nordeste da África ocupa a posição 171 no ranking de sustentabilidade e o número 166 em saneamento básico, em um total de 178 países pesquisados pela Universidade de Yale.  Há outro agravante que vai além da ausência de uma política de gestão de recursos hídricos, é muito difícil encontrar água em muitas cidades áridas. O fértil Nilo cruza as terras sudanesas de norte a sul, mas divide o Estado em dois grandes desertos.

As disputas na nação africana, de maioria muçulmana, são complexas pois envolvem divergências religiosas, étnicas, políticas e a disputa por recursos naturais. Os sudaneses estão em guerra civil há quase 60 anos, o que resultou na independência do Sudão do Sul e a perda de quase a totalidade de sua floresta tropical, o que significava um alento a quilômetros de areia e algumas pirâmides.

Como se não bastasse, em 2003 eclodiu no país o conflito de Darfur, província semi-árida a oeste do país,  entre muçulmanos e grupos da etnia Fur, Massaleet e Zagawa pelo direitos de pastagens e acesso à água. O número de mortos aproxima-se do meio milhão de pessoas.

Nesse cenário,  Amna Ahmed de 23 anos – engenheira civil e representante do WYPW no Sudão –  empenhou-se com mais dois colegas da Universidade de Cartum para desenvolverem softwares que auxiliassem no sistema de irrigação da agricultura local. Um dos seus programas de computador ganhou um prêmio de inovação tecnológica da Sociedade Sudanesa de Engenharia.

Hoje, Amna faz mestrado em Gestão Integrada de Recursos Hídricos na Universidade de Colônia, na Alemanha, e já faz novos projetos para o seu retorno ao Sudão. “No futuro quero construir calhas para armazenar a água da chuva, nos lugares que ficam longe do Nilo como Darfur,  para a as pessoas terem acesso a esse recurso nas estações mais secas. A presença das mulheres na área de engenharia no Sudão é muito pequena. Também gostaria de contribuir para diminuir essa diferença e ajudar outras mulheres africanas a serem fortes e sonhar.”

ÁSIA

Haneul: é preciso ser referência de sustentabilidade na Ásia

Haneul: trabalhando para ser referência de sustentabilidade entre as nações asiáticas

Distante dos desertos africanos,  a estudante sul-corena Haneul Oh, 23, está no último semestre de Desenvolvimento e Formação para o Trabalho na Sookmyung Women’s University, renomada universidade em Seul cujo slogan é “líder global na educação de mulheres”. Não por acaso, Haneul é a representante parlamentar na Ásia do WYPW. Ela conta que começou a se interessar pela preservação dos recursos hídricos em 2007, ano em que a Coréia do Sul sofreu o pior desastre ambiental de sua história. Um navio petroleiro de Hong Kong colidiu com um cargueiro sul-coreano, o que provocou o derramamento de mais de dez mil toneladas de petróleo e uma mancha de óleo de 215 km na costa do país. Haneul ainda divide seu tempo com uma organização não governamental que ministra palestras sobre sustentabilidade e ajuda na limpeza de córregos nas cidades mais distantes da capital.

A recuperação de rios degradados é um fenômeno moderno na Coréia do Sul, recente potência industrial e tecnológica do planeta. Em 2003, Roh Moo-hyun, então presidente sul-coreano, deu início ao ambicioso projeto de recuperar os cinco rios mais importantes que recortam o país   – Han, Geum, Nakdong, Yeongsan e Cheonggyecheon.  Em apenas quatro anos houve a recuperação de 11 espécies de peixes ameaçados de extinção e a restauração do habitat de plantas e animais selvagens no entorno das águas. Os parques às margens dos rios tornaram-se um orgulho nacional.

O tigre asiático figura entre os líderes mundiais de saneamento básico no mundo, ou seja, 100% dos cidadãos têm acesso à água e esgoto tratados. Para Haneul, isso não significa que os desafios com os recursos hídricos tenham terminado no país. “A Coréia do Sul tem muitos contrastes no que se refere a água. Chove bastante no inverno, por isso construímos muitos diques e represas para evitar as enchentes. Porém, nas estações mais quentes chove pouquíssimo. Muitas regiões sofrem com secas severas. Estamos em constante busca para aperfeiçoar o uso e manejo da água. Além do mais, nós e o Japão tentamos ser referência no diálogo da sustentabilidade entre as nações asiáticas, onde essa cultura é suprimida pelo desejo de crescer economicamente a qualquer preço.”

AMÉRICA

Tommasi: fórum da água no Brasil não será em vão

Tommasi: fórum da água no Brasil não será em vão

O brasileiros também vivenciam contrastes com a oferta desse líquido. No ano de 2015, o Brasil enfrentou uma das maiores secas de sua história no Sudeste e a maior enchente de todos os tempos no Estado do Acre. Para Ágatha Tommasi, 24, estudante do último ano de Engenharia Ambiental da PUC- RJ e representante do WYPW para a América do Sul, América Central e Caribe, os problemas do Brasil são gigantescos, desde a necessidade de maiores investimentos no sistema de distribuição de águas para evitar perdas até a preservação de matas ciliares.

Como todos os membros da Parlamento Jovem Mundial de Água, Tommasi acredita que o tempo de esperar unicamente dos governos as soluções ambientais se foi. É preciso participar do processo e estar envolvido em causas para que esses resultados aconteçam.  A estudante explica que a consciência sustentável na juventude brasileira não está distante dos jovens europeus . A diferença é que no Brasil ainda são poucos os que têm acesso à formação crítica. A niteroiense também está envolvida na Organização Engajamundo, que busca reunir jovens, formá-los e capacitá-los nas negociações regionais e internacionais relacionadas ao desenvolvimento social, às questões de gênero e ao meio ambiente.

Ágatha Tommasi, ao lado da catarinense e estudante da UFSC Thaianna Cardoso e de Alicia Amancio serão as três estudantes brasileiras que vão nos representar, em dezembro, na Conferência de Mudanças Climáticas da ONU de 2015 em Paris (COP21).

No entanto, Tommasi foi nossa única representante jovem para as negociações do 7° Fórum Mundial da Água, em abril deste ano, na Coréia do Sul. Esteve presente quando anunciaram o Brasil como sede do 8° Fórum Mundial da Água em 2018. A ambientalista acredita que a realização do fórum no país da água não será somente mais um evento internacional de sustentabilidade com boas propostas, mas pouca efetividade por parte do governo brasileiro. “ A ideia de trazer o evento para cá foi justamente para que o mundo lance olhares a América Latina ao  Brasil. Haverá todo um processo preparatório chamado Rumo a Brasília para que a presença do fórum aqui não seja em vão.”

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