Reúso torna-se válvula de escape para a escassez

Além de propagar ideias práticas, a discussão agora também aborda a regulação dessa atividade

De outubro de 2013 a março de 2014 o estado de São Paulo passou pelo maior período de estiagem dos últimos 125 anos. A crise hídrica alerta o mundo todo para a busca por alternativas

Reutilização da água é uma das principais ferramentas para a gestão dos recursos hídricos – Foto: http://www.caeteambiental.com.br/

Por Gisele Bueno

Especialistas da área de saneamento, estudantes, professores e empresários brasileiros apostam todas as suas fichas no reúso, embora o Brasil tenha entrado tardiamente nesse jogo pelo uso eficiente da água. Somente com a crise hídrica do ano passado é que discussões sobre o tema surgiram no país, enquanto existem nações que já adotaram a prática há mais de 40 anos.

Metodologias e tecnologias dinamarquesas, práticas de reúso alemãs e políticas de regulação estadunidenses fizeram parte da programação do 2º Simpósio Internacional de Reúso da Água. O evento organizado pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental do Paraná (ABES-PR), com o apoio da Universidade Positivo, reuniu cerca de 250 participantes para debater teoria e prática do uso de água residual por todo o mundo. Pesquisadores e profissionais brasileiros atuaram com o objetivo de discutir ideias implementadas fora do país e sua viabilidade para o Brasil.

De acordo com Antonio Carlos Nery, engenheiro sanitarista e diretor da ABES-PR, o reúso é uma das principais ferramentas para a gestão de recursos hídricos e o Brasil está atrasado nesse debate. “Porque somente a partir do ano passado o país acordou para a crise hídrica, apesar das muitas evidencias que nós [profissionais do setor] já avizinhávamos”, explica Nery. O especialista em recursos hídricos da Agência Nacional de Águas, Claudio Ritti Itaborahy, lembra que até bem pouco tempo o Brasil era sinônimo de abundância hídrica e por isso as práticas e políticas para reúso ainda estão em desenvolvimento.

No evento, atividades estrangeiras de reúso ganharam destaque. Blanca Jimenez Cisneros, Diretora da Divisão de Ciências da Água e da Secretaria do Programa Hidrológico Internacional da Unesco, falou sobre o uso de água de esgoto tratada para a agricultura no Vale do Mesquital, no México. A região, extremamente árida, passou a reutilizar águas residuais a partir da década de 90 e conseguiu, desde então, produzir arroz e milho nessas terras. No entanto, Cisneros observa que o reúso deve ser feito conforme condições locais de cada região.

Além dela, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Cícero Onofre de Andrade Neto, discorreu sobre como a prática da reutilização da água pode ser realizada na agricultura brasileira. O Doutor em Recursos Naturais apresentou estudos desenvolvidos por universidades brasileiras que comprovam o aumento da produtividade e qualidade nas colheitas a partir do uso de efluentes das estações de tratamento de esgoto na irrigação de lavouras. A discussão foi trazida ao evento para mostrar que até as principais atividades econômicas do país também podem adotar normas de utilização consciente.

Antonio Carlos Nery ressalta que muitas das práticas de reúso já existentes no Brasil ainda necessitam de políticas de regulação que monitorem seu funcionamento e conscientizem as pessoas ao mesmo tempo em que tranquilizem a população sobre a segurança do produto final.

Baseado nessa preocupação apresentada pela ABES-PR e dando continuidade ao primeiro encontro realizado em 2012, também no Paraná, a segunda edição do Simpósio trouxe como tema principal a regulação das práticas e a exposição de tecnologias de sucesso no Brasil e no mundo. Há três anos foi analisada a potencialidade do reúso da água como gestor de recursos hídricos e suas várias modalidades – potável e não potável, esta última utilizada em setores industriais e agrícolas.

Primeiros Passos

A prova de que o Brasil também tem potencial para praticar diversas formas de reúso é Campinas. A cidade fica no interior de São Paulo, um dos estados mais afetados pela seca do ano passado e já utilizava água de esgoto tratada para o Corpo de Bombeiros Municipal e até mesmo para regar praças e jardins públicos. Essa prática é conhecida como reúso indireto, assim como a técnica utilizada no Vale do Mesquital. Em outubro de 2014, devido a forte estiagem na região, a prefeitura anunciou a implementação de novas tecnologias de tratamento para reúso direto da água pela população. A cidade será pioneira no país.

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