Solução salgada

As usinas de dessalinização são a saída encontrada pelos países que sofrem com a falta de água, ainda que seja um recurso caro

Usina de Sorek, a maior do planeta, localizada em Israel - Foto: http://www.israelvalley.com/news/

Usina de Sorek, a maior de Israel – Foto: http://www.israelvalley.com/news/

Por Luisa Scherer Silveira

A falta de água é o mal do século XXI e cerca de 40% da população mundial sofre com sua escassez. Pessoas que moram em áreas de seca vivem com menos de 1.700 metros cúbicos de água por habitante ao ano, limite mínimo considerado seguro pela Organização das Nações Unidas (ONU). Países que sofrem com grandes estiagens estão investindo cada vez mais em usinas de dessalinização como um recurso alternativo de captação de água. Israel e Austrália, por exemplo, já têm usinas instaladas e funcionando a todo o vapor.

Existem duas técnicas principais para retirar o sal ou impurezas da água: destilação e osmose inversa, sendo a última a mais utilizada pelas usinas de dessalinização por todo o mundo. A técnica de osmose inversa, que apesar do alto custo ainda é o processo de dessalinização mais barato, consiste em separar o sal da água a partir de uma aplicação enorme de pressão. Depois passar por um processo de pré-filtração, água do mar e a água tratada são colocadas lado a lado, separadas apenas por uma membrana semipermeável. Aplica-se uma pressão elevada, maior que 30 atm (pressão osmótica sobre a água do mar), na qual só as moléculas de água da solução salgada conseguem passar pela membrana e chegar na solução de água pura, que depois ainda é tratada com cloro ou flúor.

Tecnologia exportada

Israel é pioneiro no uso de usinas de dessalinização. Por ser um país extremamente árido – 60% do território é área desértica-, o governo foi obrigado a investir em alta tecnologia para encontrar soluções, e hoje exporta a tecnologia das usinas de dessalinização para países do mundo inteiro. Em 2003, Israel passou por uma seca tão grande que teve que importar água da Turquia. Hoje, com as usinas, a situação melhorou e a produção aumentou a ponto de conseguir enviar água para a Jordânia e Faixa de Gaza, como parte de um acordo diplomático. Quatro usinas de dessalinização suprem praticamente todas as necessidades do litoral de Israel, onde fica a maior parte da população.

A planta de Sorek é a maior de Israel e, no ano passado, produziu 200 milhões de metros cúbicos – 80% do abastecimento de água do país. As usinas custam U$3,5 bilhões por ano ao governo israelense, que tem parceria com a iniciativa privada para conseguir cobrir o gasto. Quando o país começou a investir das usinas, o metro cúbico custava cerca de U$3 e hoje está U$0,53. O preço baixou bastante, mas ainda é um recurso caro. Apesar dos esforços do governo, o custo da água ainda é muito alto para a população. Além de investir em tecnologia nas usinas, Israel também se preocupa com o controle do desperdício de água. Existe uma empresa que atua somente para conter vazamentos, e enquanto o país vê apenas de 5% a 10% de sua água vazar, São Paulo vê cerca de 34%, por conta de ligações clandestinas.

Ambientalistas x Governo na Austrália

Outro país que vem aumentando a quantidade de usinas de dessalinização é a Austrália, o lugar mais árido do mundo, que ainda se recupera da seca que durou uma década. As cinco maiores cidades da Austrália estão investindo cerca de U$13 bilhões em usinas de dessalinização, e pelo menos 30% da água potável de Sidney vem delas. A usina de Carnell, também nessa cidade, produz 200 milhões de litros por dia para 700 mil moradores. Apesar de ter solucionado o problema da escassez de água, a população reclama do alto custo, já que o australiano passou a pagar o dobro nas contas de água.

Os ambientalistas australianos alertam sobre o impacto da água devolvida aos oceanos. A altíssima concentração de sal faz com que essa água muito densa e salgada afunde no fundo do mar e o sal não se misture com o restante da água. Plantas, animais e algas não sobrevivem a essa quantidade de sal e todo o ecossistema marinho australiano pode ser afetado. Os produtos químicos usados para tratar a água é outra preocupação, já que podem afetar a saúde a longo prazo, com a possibilidade de desenvolver vários tipos de cânceres, segundo o Professor Stuart Can, do Departamento de Pesquisas com Água da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sidney. Além disso, a energia necessária para a remoção do sal da água representa 50% do custo das usinas. E num país em que o carvão é o principal recurso de energia, aumenta ainda mais a emissão de gases no efeito estufa. As usinas australianas usam energia eólica, mas o ambientalista Stuart White considera ser um desperdício de energia verde, que poderia ser usada para diminuir o uso do carvão no país. O ambientalista reforça que as usinas de dessalinização deveriam ser usadas como última alternativa, quando as barragens atingirem menos de 20% de sua capacidade, até porque existem outras formas mais baratas e eficazes de produzir água.

Em busca do equilíbrio

Maurício Luiz Sens, Doutor em Tratamento de Água e professor da Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz que a água salgada super concentrada, que é a “sobra” do processo de dessalinização, não prejudica a vida marinha se for devolvida em alto mar, onde existe correntes marítimas, para que se misture com o resto do oceano. Além disso, o professor também defende a ideia de que seja usada a técnica de dessalinização se os níveis de água doce estiverem abaixo da porcentagem mínima. Porém, no caso da Austrália, onde as usinas foram construídas num momento de extrema seca que difere da situação atual, Sens lembra que não é recomendável deixar as usinas paradas, já que são equipamentos sensíveis e podem vir a danificar se ficarem em desuso. Segundo o pesquisador, o ideal é fazer um equilíbrio entre a água dessalinizada e a água doce já disponível para que a usina fique em funcionamento. Quanto ao custo, ele observa que as tecnologias têm aumentado cada vez mais e as membranas semipermeáveis estão ficando cada vez mais baratas.

O professor Maurício Luiz Sens é também membro do Programa de Pesquisa em Saneamento Básico (PROSAB) há cerca de dez anos. O programa, que reúne 13 universidades de todo o Brasil, estuda novas tecnologias nas áreas de águas de abastecimento, águas residuárias e resíduos sólidos que sejam de fácil aplicabilidade, baixo custo de implantação, operação e manutenção. Ele informa que o programa tem acompanhado a situação da falta de água em São Paulo e revela que a possibilidade de implantação de usinas de dessalinização está sendo estudada há algum tempo, antes mesmo de estourar a crise hídrica. Afinal, a água é tão poluída que, mesmo depois de tratada, ainda contém resíduos que comprometem o seu uso, como hormônios, dejetos químicos e perturbadores endócrinos, que são produtos dos remédios farmacêuticos que o corpo humano não absorve. A dessalinização seria, portanto, uma saída para que essa água tratada deixasse de ser inutilizada e diminuísse a crise hídrica no Estado de São Paulo.

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Uma resposta para “Solução salgada

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