A mais detestável das tradições universitárias

Quando o machismo e a homofobia fazem parte do cotidiano

Lista violava a intimidade sexual de alunas da UPS - Foto: Élice Botelho

Lista violava a intimidade sexual de alunas da USP –
Foto: Élice Botelho

Por Amanda Casemiro de Freitas

Aconteceu no fim do mês de maio. A estudante Élice Botelho, do curso de Gestão Ambiental da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), foi chamada por alguém para ver uma cartolina exposta em um dos murais do Centro de Convivência. Tratava-se de uma espécie de ranking que divulgava a intimidade sexual de alunas da instituição, uma “tradição” que, pela primeira vez, vinha à público de maneira clara. A partir de 18 de junho passado, dezenas de matérias a respeito do fato circularam por sites da internet e acabaram nas timelines de redes sociais.

Divididas em três categorias — a falta de higiene íntima e referências à cor da pele e prática de sexo anal — e identificadas por apelidos recebidos na época em que eram (ou ainda são) calouras, cada uma das garotas teve o número de parceiros sexuais indicados. E o conteúdo abrangeria, também, alunos homossexuais. Boatos indicam que o cartaz teria sido produzido em duas repúblicas masculinas da cidade de Piracicaba (SP), onde está localizada a Esalq, e que “bixos” — como são chamados os calouros — seriam os responsáveis por preencher as colunas na hora de “buscar a ração” no almoço ou jantar.

Casos como esse não são exceção dentro das universidades. O machismo e a homofobia andam de mãos dadas com as tradições universitárias, e não é preciso ir muito longe para deparar-se com eles. As recentemente arrancadas portas dos banheiros masculinos do Centro de Comunicação e Expressão (CCE), na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), estavam, de cima à baixo, pichadas com comentários de baixo calão e sua própria versão do ranking da Esaq — mas, desta vez, dividindo os outros centros do campus em categorias próprias. Centenas de garotas tem suas intimidades expostas diariamente quando decidem assumir o próprio corpo e clamar pela igualdade sexual.

Vida (nem tão) privada

Pâmela* tem 25 anos, mora em uma cidade universitária como tantas outras espalhadas pelo país, e cansou de ouvir comentários no campus da federal em que estuda. Na fila do banco, do restaurante universitário, nos corredores das salas de aula — um grupo de garotos conversa em alto e bom som sobre suas experiências sexuais. Mesmo sem querer, acaba se ouvindo sobre o que fulana ou ciclana fizeram antes, durante ou depois a última festa realizada em alguma república. Mas Pâmela não fica indignada apenas com o assunto — fica indignada com as garotas. “A fama existe sim. E a menina quando está disposta a ficar com muitos caras, ganha a fama. Mas ela não tem muito do que reclamar depois, porque isso é algo que todo mundo sabe”, comenta.

Poderíamos pôr a culpa na cidade — Pâmela nasceu e cresceu no mesmo lugar, com pouco mais de 60 mil habitantes. Mas, como a grande maioria dos estudantes universitários, ela tem acesso regular à internet e poderia fazer-se exceção à mentalidade imposta pelo lugar onde vive. Porém, não é. Pâmela reproduz a mesma coisa que centenas de comentários que circulam nas redes sociais, tornando-se mais uma das garotas que se opõe à libertação sexual do próprio gênero.

Para a recém-formada Rebecca*, de 23 anos, a opinião de garotas como Pâmela funciona como uma espécie de abre-alas. “Se uma mulher fala de outra, de certo modo acaba dando brecha para os homens fazerem o mesmo”, afirma. E o caso vivenciado pela estudante Lígia* é só mais um dos exemplos. Ao decidir ir até a casa de um garoto, com quem não tinha um relacionamento sério e com a intenção de ter relações sexuais, uma conhecida da garota acabou exposta. O que deveria ter ficado entre quatro paredes chegou aos ouvidos de terceiros — e carregado do discurso machista de que, por ter agido de determinada maneira, a menina passaria a não valer à pena.

“Com isso, se chega naquele ponto: sexo não é bom para os dois, tanto para o homem quanto para a mulher? Por que o homem pode buscar o sexo, ser ativo nessa busca e não ser julgado, e quando a mulher decide tomar uma atitude nesse sentido, resolvem apontar o dedo? Talvez essa degradação da imagem seja, tanto quanto o resto, uma construção”, diz Lígia.

E, em alguns casos, a construção vem do berço. São poucas as garotas que não cresceram ao som de reprimendas familiares a respeito do comportamento. Essa ou aquela roupa que “não são coisa de menina”; aquela atitude que deve ser evitada, afinal, “você já é uma mocinha”. Ou, quem sabe, o pior de todos: “o que os outros vão pensar de você?” — criando, assim, uma cultura de que é preciso moldar seu caráter e suas vontades de acordo com o pensamento alheio. O que é dito em casa é reproduzido na rua. Amigos, colegas, conhecidos e estranhos endossam, em corredores e calçadas, a opinião de que nenhuma mulher está autorizada — sim, porque há certo consenso (errado) de que é preciso “autorizar” — a se comportar com a mesma liberdade sexual que os homens. E o ápice costuma chegar com a aprovação no vestibular, tornando o machismo uma espécie de pré-requisito na conquista do diploma.

Desconstruir, no entanto, precisa ir além da retirada de cartazes e portas de banheiro. É preciso mudar a mentalidade — e estender a luta dos direitos iguais para baixo (ou para cima) dos lençóis.

 

*Todos os nomes desta reportagem foram trocados para preservar a identidade das entrevistadas

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