Além do arco-íris

Orientações sexuais como a pansexualidade sofrem com a invisibilidade dentro da comunidade LGBT

Bandeira do orgulho pansexual traz o azul para representar a atração por homens, o rosa, por mulheres, e a faixa amarela representa a atração por pessoas que se identificam como sem gênero, de ambos os gêneros, ou um terceiro gênero Imagem: Blog Bisides (http://www.bisides.com/2014/09/19/bissexualidade-e-pansexualidade-qual-e-a-diferenca/)

Bandeira do orgulho pansexual traz o azul para representar a atração por homens, o rosa, por mulheres, e a faixa amarela representa a atração por pessoas que se identificam como sem gênero, de ambos os gêneros, ou um terceiro gênero
Imagem: Blog Bisides (http://www.bisides.com/2014/09/19/bissexualidade-e-pansexualidade-qual-e-a-diferenca/)

Por Luisa Scherer Silveira

Notícias como linchamentos de transexuais e a recente aprovação do casamento gay nos Estados Unidos têm repercutido entre as redes sociais e o debate sobre as questões de gênero ganha mais corpo cada vez que algo que envolva a comunidade LGBT cai na internet. Com a bancada evangélica crescendo no congresso brasileiro e, junto com ela, a LGBTfobia, discussões acerca deste tema são primordiais para que essa minoria não acabe marginalizada pela sociedade. Mas será que todas as questões de gênero são discutidas nas pautas LGBT? A respostá é não. Os debates que ganham força entre a população se limitam nas letras “L”, de lésbicas, e  “G”, de gays; bissexuais e transexuais ganham pouco espaço, e assexuais, polissexuais e pansexuais são praticamente desconhecidos pela sociedade e acabam sendo esquecidos nas discussões de gênero.

A professora de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante do Instituto de Estudos de Gênero (IEG), Cristina Scheibe Wolff, explica que o gênero é uma questão cultural. É a forma com que cada sociedade interpreta o sexo e é onde se cria a hierarquia. Cristina esclarece que sexo, gênero, e orientação sexual são coisas diferentes. Sexo é o biológico, condiz com o sistema reprodutor com que cada um nasce. Gênero é como uma pessoa se sente e se identifica em relação ao sexo, e como prefere que alguém a identifique: masculina, feminina, neutra ou andrógena. E orientação sexual diz respeito à atração sexual ou romântica que uma pessoa sente por outra.

A diversidade começa já no sexo, pois não há somente homem e mulher – existe também o intersexo e suas variações, já que uma pessoa pode nascer com partes dos dois sistemas reprodutores. Quando se trata de orientação sexual, a diversidade só aumenta. O Coletivo Floripa em Chamas se preocupou com a invisibilidade de alguns grupos que não eram contemplados na sigla LGBT e se identifica como um coletivo ALGBTPQI+ (Assexuais, Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Pansexuais, Queer, Intersexo, e outras sexualidades, identidades de gênero e orientações românticas), a fim de incluir os demais gêneros que não se encaixam no sistema binário (homem e mulher) da sociedade.

Pansexualidade assumida

Uma das orientações sexuais que ganha visibilidade na sigla usada pelo Coletivo Floripa em Chamas é a pansexualidade, na qual uma pessoa sente atração sexual ou romântica pela outra sem que o gênero seja levado em consideração. Maria* é aluna da UFSC e pansexual. Até pouco tempo atrás, a orientação sexual com que mais se identificava era a bissexual, mas não sentia-se satisfeita com a bissexualidade. Foi descobrir o que era a pansexualidade através de uma conversa com um amigo. Ela procurou saber mais sobre o assunto com pesquisas na internet e percebeu que sentia-se inteiramente contemplada com a pansexualidade. Maria* diz que o maior preconceito que pessoas pansexuais sofrem é quando diminuem a pansexualidade alegando que a mesma não existe, ou até mesmo que é uma doença.

Maria* conta que muita gente coloca a pansexualidade sendo a mesma coisa que bissexualidade, sem nem saber a diferença entre as duas orientações sexuais. Ela atribui parte desse preconceito ao desconhecimento da orientação sexual e à invisibilidade da pansexualidade, mesmo dentro do movimento LGBT – que não consta na sigla mais utilizada, e acredita que existem muitas pessoas que se identificariam como pansexual, mas não têm acesso a esse tipo de informação, não têm interesse em pesquisar sobre o assunto ou até mesmo nem sabem que existe esse tipo de variação.

Outro preconceito revelado por Maria* é o fato de que muitas pessoas rotulam pansexuais como sendo infiéis num possível relacionamento. Essa questão é facilmente percebida mesmo entre pessoas do movimento ALGBTPQI+, e dizem que não confiam em pansexuais já que a chance dessas pessoas se sentirem atraídas por outras é muito maior, pois se interessam por todos os gêneros. Ela diz que nunca se sentiu completamente mulher, mas lembra que pessoas pansexuais podem sentir-se homens, mulheres, neutras ou andrógenas, ou seja, a orientação sexual independe do gênero.

Maria* participa do Coletivo Floripa em Chamas e diz ser importante para que os assuntos que geralmente são deixados de lado pelo movimento LGBT, como a pansexualidade e a polissexualidade, sejam mais discutidos. Ela afirma que, além de aumentar a visibilidade, os debates também são necessários para que possa ser construído um movimento mais forte.

A professora Cristina Wolff diz que o IEG trata de diferentes temas dentro de gênero e orientação sexual em sua revista Estudos Feministas, em eventos como Fazendo Gênero, e em palestras e cursos, e afirma que o Instituto tenta tirar da invisibilidade assuntos como a pansexualidade com estes acontecimentos. Cristina lembra que, no site do IEG, constam disciplinas que professoras e professores integrantes do Instituto ministram em vários cursos da UFSC sobre questão de gênero e orientação sexual. A relação das disciplinas está no site do Instituto.

 

* Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada, que prefere manter o anonimato.

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2 Respostas para “Além do arco-íris

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