Maldita Geni

Conheça as dificuldades e os anseios de uma prostituta de uma casa de massagem em Florianópolis

A ocultação da identidade faz parte da rotina dessas mulheres - Foto: Prue Stent

A ocultação da identidade faz parte da rotina dessas mulheres – Foto: Prue Stent

Por Gisele Flôres

Nomes de guerra, vestes provocantes, álcool e dinheiro. O slogan Vem que tem e a imagem de uma boca com batom atiçam a curiosidade e convidam a subir e conhecer a 734, uma casa de prostituição no alto da rua Conselheiro Mafra, no centro de Florianópolis. A casa de massagem (nome de fachada do estabelecimento) tem três pisos, sendo um acima e outro abaixo do andar de entrada. O acesso na rua é por uma portinha com uma escada entre alguns postos comerciais. Subindo os degraus, há novamente uma porta, esta sim para a casa. A dita ‘profissão mais antiga do mundo’ é exercida nas mais diversas condições, das quais as casas como a 734 representam a forma mais segura para as funcionárias.

A gerente Mel, que trabalha no estabelecimento há três anos, é quem contrata as meninas. Ela relata que o local possui atualmente oito mulheres contratadas, que trabalham das 9h às 20h, de segunda a sábado. O valor padrão do programa é de cem reais a hora e as garotas cobram à parte por serviços extra. A 734 agrega clientes de classes sociais média e baixa: “Alguns juntam o dinheiro da semana para vir fazer um programa aqui”, acrescenta Mel. O sistema da 734 funciona da seguinte maneira: há uma câmera do lado de fora da porta de entrada, e o monitor com as imagens fica no bar, onde as meninas aguardam. Quando chega um (a) cliente, elas são todas avisadas pela gerente e vão até a porta, onde ele escolhe uma das garotas. Neste momento, a “escolhida” desce com ele para um quarto, enquanto as outras meninas voltam para o sofá da espera. Diversas vezes em que chegava cliente no meio da entrevista, Tati (minha entrevistada) ia até a porta, e existia a possibilidade de a entrevista acabar por ali mesmo caso o cliente a escolhesse.

Foto: Gisele Flôres

O número é o que mais chama a atenção na entrada da “casa de massagem” – Foto: Gisele Flôres

Tati é garota de programa na 734 há sete meses, mas já trabalha com prostituição há três anos. Ela conta que no começo se sentia “suja e nojenta”, e não conseguia nem se olhar no espelho, pois tinha vergonha de si mesma. Ela tem 21 anos de idade e um filho que está com três. Casou-se com 16 anos e ganhou o neném aos 18, no mesmo ano em que se divorciou de seu marido, pois ele não a deixava sair para trabalhar e ela precisava sustentar a criança de alguma forma. Tati, que tem o segundo grau completo, encontrou diversas portas fechadas quando se separou e foi buscar emprego, pois ela era mãe de recém-nascido e precisaria amamentar e cuidar do filho.

Em sua busca desesperada, encontrou um anúncio no jornal para uma “casa de massagem”, foi até o local fazer a entrevista e acabou ficando. Com o codinome “Tati”, que usa para sua própria segurança, ela trabalha desde então como prostituta. “Eu tenho um emprego fixo, em um local seguro, e faço bastante dinheiro para dar o melhor que posso a meu filho”, afirma, revelando que em um bom dia de trabalho ela consegue algo entre 200 e 300 reais. Tati mora com sua mãe e filho, porém a mãe não sabe com o que a jovem ganha a vida. Ela diz para a família e amigos que trabalha em uma loja de artigos para bebês, mas jamais dá o endereço da loja para evitar que alguém vá visitá-la e descubra a verdade. O pai de seu filho, que é de certa forma presente na criação do menino, também não conhece o emprego da moça.

Um aspecto muito frequente na dita “vida fácil”, a prostituição, é o uso de drogas. Tati garante que não tem nada de “fácil” em aguentar tudo o que elas passam no dia-a-dia e, muitas vezes para suportar a situação e seguir em frente, algumas mulheres acabam recorrendo aos estimulantes químicos. “Usar drogas pesadas passa para essas meninas a leve sensação de que está tudo bem e, assim, elas conseguem lidar com certas ocorrências desagradáveis a que quase sempre somos expostas”. Dizer que as profissionais do sexo ganham a vida de maneira fácil é equivocado, para não dizer presunçoso. Tati se emociona ao falar que elas precisam ver e ouvir muitos desaforos, preconceito, auto exposição, e que de maneira nenhuma isto é uma “vida fácil”. A moça declara que a maioria das mulheres que trabalha com prostituição entra nessa vida por não encontrarem outra saída, que é a última opção que elas têm. Tati é uma jovem que como qualquer outra de sua idade possui sonhos, desejo e força para realizá-los. Ela se prostitui “para colocar comida na mesa do filho”, e diz que não vê a hora de ter sua casa própria para poder sair dessa vida e realizar seu grande sonho: retomar os estudos para prestar um vestibular e cursar Psicologia.

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