Nem amebas, nem extraterrestres

Através da internet, os assexuais vêm se reunindo e superando ideias patológicas e preconceituosas sobre eles

A escritora Luciana do Rócio criou grupos para reunir assexuais no Facebook - Foto: Arquivo Pessoal

A escritora Luciana do Rócio criou grupos para reunir assexuais no Facebook – Foto: Arquivo Pessoal

Por Carol Andrade

Os assexuais têm sido vítimas de chacota, vistos como seres estranhos, e muitas vezes até são confundidos com homossexuais que “estão no armário” ou celibatários, mas se trata de um grupo completamente diferente. Antes de tudo são seres humanos, e não amebas, como costumam ser chamados por aqueles que não os entendem.

O conceito de assexualidade ainda é pouco definido, mas assim como em outras orientações sexuais não tem uma causa específica, e nem sempre é consequência da falta de libido, traumas ou algum distúrbio. É um estado caraterizado pela falta de interesse na prática sexual com outra pessoa, independente do gênero. Há uma diferença entre assexuado e assexual, sendo que outros seres vivos que não se reproduzem de forma sexuada são chamados de assexuados, e seres humanos que não têm interesse por sexo são assexuais, por isso a comparação com amebas. “Quem não se interessa por sexo é visto como esquisito, anormal ou doente”, conta Elisabete Regina Baptista de Oliveira, doutora em Educação pela USP e autora da tese “Minha vida de ameba: os scripts sexo-normativos e a construção social das assexualidades na internet e na escola”.

Há pouco tempo as discussões sobre assexualidade vêm ganhando espaço. As redes sociais têm sido muito importantes para esse processo de união de pessoas que se identificam com a causa. Desde os anos 2000, eles vêm se organizando em comunidades virtuais na tentativa de se definirem e trocar experiências. Elisabete Regina ressalta a importância da internet no processo de identificação dos assexuais: “Antes da internet não havia o conceito de assexualidade. Havia pessoas desinteressadas por sexo, mas como indivíduos, não como uma categoria coletiva. Somente com o advento das tecnologias e da internet essas pessoas souberam da existência umas das outras e puderam se unir em comunidades virtuais.”

Para a realização da tese de doutorado, Elisabete entrevistou 40 assexuais com idade entre 15 e 59 anos, com o objetivo de abordar a trajetória de identificação dessas pessoas, e situar suas experiências no quadro mais amplo da sexualidade e das relações de gênero.

Ela explica que ainda não é possível traçar um perfil estatístico dos assexuais, mas que quase todos os entrevistados perceberam que eram diferentes dos colegas, por volta do início da adolescência, na fase onde é normal começar a ter interesse por sexo e relacionamentos amorosos. Eles não conseguiam entender esse desinteresse e passavam a formular hipóteses, como por exemplo, timidez, religiosidade, imaturidade e até mesmo homossexualidade. Não encontravam informações, nem referências de identificação. Todos chegaram ao conceito de assexualidade pela internet, identificando-se e colocando um fim em seu autoquestionamento.

Os assexuais também possuem uma bandeira para representar a causa Imagem: Wikipédia

Os assexuais também possuem uma bandeira para representar a causa
Imagem: Wikipédia

“Nunca mais irei a uma ginecologista”

Cerca de 1% da população mundial é assexual, o que tem causado estranheza, pois foge dos padrões da sociedade atual que está “acostumada” com sexo. Elisabete Regina entende o preconceito como uma cultura enraizada em nosso meio social “Tanto como a mídia e a ciência, a cultura têm um grande papel na construção da sexualidade do modo como entendemos hoje, ou seja, fundamentada no desejo sexual compulsório. Nesse contexto, o desinteresse por sexo tende a ser patologizado, tendo em vista a quantidade de medicamentos e terapias com o objetivo de disparar ou reavivar o desejo sexual de homens e mulheres. Essa perspectiva elege a atividade sexual como central na vida das pessoas”, diz Elisabete.

A escritora Luciana do Rócio Mallon, tem 41 anos e descobriu ser assexuada durante a adolescência. Ela acredita que a sociedade é muito sexualizada e por esse motivo alguns assexuais ainda têm medo de se assumirem. Criadora de vários grupos assexuais do facebook, Luciana explica que até virtualmente é dificil para os assexuais exporem suas experiências. “Os grupos às vezes não funcionam muito bem, pois entram muitos trolls, que são pessoas que usam fakes, para dar depoimentos falsos e perseguirem os assexuais de verdade”.  Além do preconceito virtual, Luciana já foi vitima de preconceito na sua vida cotidiana. Em uma ida à ginecologista, ela enfrentou uma situação constrangedora: “A ginecologista achou que eu estava mentindo e ficou espantada quando soube que aos 35 anos eu nunca tinha tido uma relação sexual. Saí do consultório me sentindo um extraterrestre. A partir daquele dia decidi que durante toda a minha vida de solteira nunca mais irei a uma ginecologista”.

Nos Estados Unidos já existem grupos formados por militantes que promovem discussões e debates sobre o assunto. A maior organização de assexuados do mundo, The Asexual Visibility & Education Network, tem cerca de 40 mil membros só na América Latina. Lá, as comunidades mais importantes têm uma agenda política de dar visibilidade à assexualidade, entre outras ações. Os ativistas participam das paradas LGBT, estão presentes em programas de TV, rádio, podcasts e eventos que discutem a diversidade sexual. “Existem alguns problemas que dificultam os assexuais de se juntar aos grupos LGBT, apesar de seus esforços. O mais importante deles é que grande parte da comunidade LGBT ainda têm dificuldade em reconhecer a assexualidade como uma sexualidade legítima e não acreditam que os assexuais tenham uma pauta legítima de reivindicações. Pode ser que isso mude com o tempo, mas por enquanto, os movimentos de assexuais norte-americanos têm lutado sozinhos por visibilidade e reconhecimento.”, explica Elisabete Regina.

Apesar da existência de grupos e comunidades virtuais, os assexuais não se encontram fora da internet e não se têm indícios de qualquer movimento assexual organizado no Brasil.

 

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