O Brasil da violência sexual

Como vivem as mulheres em um dos países com maior índice de estupros do mundo

Por Gabriela Prestes

A gaúcha Sônia Bitello é auxiliar de enfermagem e  trabalha há 37 anos no Hospital Fêmina, parte do Grupo  Hospitalar Conceição que é dedicada à saúde da mulher. Todos os dias, recebe pelo menos uma mulher vítima de violência sexual. “Quando você vê mulheres tentando sobreviver à dor física e emocional que o estupro causa, você nunca mais dorme tranquila, você vive aterrorizada, achando que a cada esquina corre o risco de passar por algo parecido”, comenta Sônia.

A realidade descrita por Sônia pode ser constatada também na pesquisa feita pelo Ministério da Saúde em 2014. Os dados indicam que, no ano de 2013, o Sistema Único de Saúde (SUS) recebeu, nos hospitais de todo o Brasil, cerca de 18 mil mulheres vítimas de violência sexual. Isso significa que, a cada uma hora, duas brasileiras entraram em hospitais do país por terem sido estupradas, isso sem contar os dados da rede privada. Informações como as divulgadas pela pesquisa são apenas um fragmento da realidade, pois apenas 20% das mulheres que sofrem violência sexual procuram ajuda nos serviços de saúde.

Muitos fatores podem levar a vítima a silenciar, como, por exemplo, vergonha ou medo. Porém, um dos motivos que mais assustam é que, na maioria dos casos de violência sexual, o agressor é uma pessoa próxima à mulher. “O agressor não é desconhecido em 60% ou 65% dos casos. Ele é conhecido, é o padrasto, o pai, o namorado, o amante, o vizinho, o avô. Isso nos preocupa muito”, constata o delegado Ricardo Guedes, da 6ª Delegacia de Proteção da Mulher de Florianópolis.

“Quando eu tinha 13 anos, minha mãe e eu fomos visitar a fazenda de uns parentes. Depois de um jantar, no qual meus familiares beberam muito, um primo da minha mãe disse que queria me mostrar uma vaca recém nascida. Eu era virgem, ele tinha 47 anos. Demorei uns cinco meses para contar para minha mãe. Na época, ela disse que não adiantava ir na polícia, pois eu não tinha como provar e também não queria causar problemas na família”, conta Ana (nome fictício), entre soluços.

Ana faz parte da triste estatística divulgada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) em 2014. A pesquisa revelou que mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são menores de 13 anos, representando 50,7% do total. As adolescentes (14 a 17 anos), representam 19,4% das vítimas e as mulheres adultas (18 anos ou mais), 29,9%. Além disso, os dados também mostram que a  violência sexual é o segundo  tipo de crime mais comum contra crianças.

A necessidade de apoio à vítima

Porém, o medo de ser responsabilizada pelo abuso e a falta de apoio de família, amigos e serviços públicos não dificulta só a punição do agressor, mas também afeta a ajuda que precisa ser dada às vítimas. Os danos psicológicos que são causados pela violência sofrida não podem ser reparados sem o acompanhamento de um profissional. Para crianças e adolescentes, o trauma é ainda mais profundo, pois compromete o processo de formação da autoestima, que acontece nessa etapa, e pode acarretar bloqueios nas relações sociais.

Além do atendimento realizado pelos serviços de saúde da rede pública, existem também os grupos de apoio às vítimas. Nesses espaços, as mulheres podem se sentir seguras para conversar sobre a violência que sofreram. “Conversar sobre o que vivenciaram ajuda as vítimas a perceberem que não existe motivo para sentir vergonha ou culpa pelo que aconteceu e, dessa forma, elas conseguem superar e seguir em frente”, relata a coordenadora da Casa da Mulher Catarina, que dá apoio a mulheres vítimas de violência, Jane Felipe.

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