Um trabalho como qualquer outro

Aluna da Unicamp e prostituta, Amara Moira quer mais direitos para sua profissão

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Se for regularizada a profissão, Amara e outras mulheres terão mais direitos e se sentirão mais seguras contra a violência que sofrem – Foto: Arquivo Pessoal

 Por Lívia Lopes Rezende

Entrar para uma das profissões mais hostilizadas pela sociedade, ainda no século XXI, não é uma tarefa que se faz do dia para noite. Exige um preparo para lidar com tudo isso, e como toda essa “nova” vida vai afetar não só você, mas todos a sua volta. Amara Moira, travesti, prostituta, doutoranda da Unicamp e escritora do blog “E se eu fosse puta”, diz que teve que desconstruir na sua cabeça todo o preconceito que tinha da profissão. Em uma rápida, porém muito profunda entrevista – e que me fez abrir os olhos para coisas que eu simplesmente ignorava na sociedade -, Amara conta um pouco de toda essa experiência com o blog, a profissão, o protesto por melhores condições de vida e a família. Ela lembra o quanto essa profissão é vista com desprezo pelas pessoas, ainda mais que 90% dos travestis se prostituem. Amara tem medo de depender exclusivamente da prostituição, mas diz que espera estar preparada e de cabeça erguida se isso acontecer. E, acima de tudo, deseja que a sociedade seja menos preconceituosa algum dia.

Lívia Rezende: Bem, primeiramente, queria que você me contasse como foi começar o blog? O que você esperava escrevendo suas histórias neles?

Amara Moira: Surgiu meio que por acaso. Carência do começo da transição, vontade de me sentir desejada, de ver gente sentindo prazer com o meu corpo, com o sexo que fazia comigo. Mas só tive como tentar a rua quando minhas amigas prostitutas me convidaram, me atiçaram pra eu “me jogar”, fazer logo o dinheiro que preciso pra colocar meu peito, comprar minhas coisas. Junto com isso tudo veio a vontade de peitar o medo de ter que me prostituir, medo que retardou em vários anos eu me assumir ‘Amara’, eu decidir que já era hora… me parecia que, se agora que eu estava protegida na universidade, eu virasse prostituta e começasse a problematizar o estigma, eu poderia conseguir fazer com que pelo menos uma parte da sociedade nos visse com outros olhos, fazer com que estivéssemos sujeitas a menos violência no nosso cotidiano.

“Prostituição e travestilidade é um combo bastante pesado, tem que ter estrutura pra dar conta dele” - Amara Moira Foto: Arquivo Pessoal

“Prostituição e travestilidade é um combo bastante pesado, tem que ter estrutura pra dar conta dele”  Amara Moira
Foto: Arquivo Pessoal

LR: Você publica textos com muita frequência, mesmo estudando e trabalhando?

AM: A militância e a vida acadêmica têm me tomado mais tempo do que eu gostaria e isso afeta o quanto eu posso me dedicar seja à prostituição, seja ao blog. Tem vezes que publico vários textos por semana, mas o mais comum é sair um por mês, um a cada duas semanas.

LR: Você pode me contar como foi pra você ir para a prostituição? Como você se sente com isso?

AM: A princípio euforia, prazer imenso, porque sempre foi mais fácil pra mim transar com anônimos do que por exemplo com amigos, com homens conhecidos. Mas, talvez por conta da questão do pagamento, muito cliente se sente dono do nosso corpo e se permite agir com violência às vezes (ainda que isso não seja habitual). Isso foi muito chocante no início, ainda que as experiências que vivi tenham sido bem tranquilas perto do que já viveram as minhas amigas… Agora já consigo lidar melhor com a situação, já me sinto mais imponderada, mais capaz de evitar que coisas assim aconteçam. Fora esses momentos de violência, há também momentos complicados quando a prostituta passa horas na rua, ao relento, sem aparecer um clientezinho que seja. A gente se sente um lixo, em especial se as amigas estão conseguindo atender fácil.

LR: Eu li em um dos seus textos que alguns dos caras talvez forçaram você a fazer o sexo. Como você se sente sobre isso? Isso te faz querer parar logo? 

AM: Isso me mostra o quanto é urgente lutarmos por direitos, por visibilidade, pelo fim do estigma. O fato de serem violentos se dá porque, na prostituição, estamos vulneráveis, fragilizadas. A sociedade nos trata igual lixo, o cliente paga barato pra ter acesso aos nossos corpos, aí ele se sente dono de nós, acha que pode fazer o que quiser (o que é respaldado até pela sociedade, que acredita que não existe estupro na prostituição, nem violência: a gente sempre pediu por isso, quem mandou ir vender sexo?). Temos que mudar isso pra ontem, empoderar essas profissionais para que elas não mais permitam que esse tipo de situação de abuso ocorra, pois ninguém é capaz de imaginar um futuro próximo onde não exista prostituição.

“É urgente garantir que as pessoas possam exercer essa atividade em melhores condições. O feminismo tem que chegar nos prostíbulos!” – Amara Moira - Arquivo Pessoal

“É urgente garantir que as pessoas possam exercer essa atividade em melhores condições. O feminismo tem que chegar nos prostíbulos!” Amara Moira 
Arquivo Pessoal

LR: Vi também que você apoia muito os novos projetos para regulamentação da profissão. Como foi que você começou a defender os direitos da profissão? Foi antes?

AM: O que acontece é que a rede de serviços ligada à prostituição, essa sim, é criminalizada… é assim que posso vender meu serviço na rua (um ambiente que sabe ser hostil e violento), mas não o posso dentro de uma casa de prostituição, nem numa casa que eu alugue com uma amiga, pra trabalhar com mais segurança e tranquilidade. Queremos que essas alternativas deixem de ser ilegais, só isso, pois o fato de continuarem a ser ilegais faz com que aumente ainda mais a situação de vulnerabilidade do exercício da prostituição.

LR: Como foi para você essa mudança de sexo? Faz muito tempo que você pensava em mudar de sexo? 

AM: Eu não mudei de sexo, na verdade, só reivindiquei o direito de viver no gênero feminino. Demorei demais pra me assumir, vivi muito tempo como homem (29 anos), então nem me sinto à vontade pra pedir que me tratem como “mulher”: esse feminino que vivo é muito distinto daquele que vive uma pessoa que foi criada pra ser mulher, que foi obrigada a se comportar dessa forma. Por isso gosto tanto de ser “travesti”, essa identidade feminina que resiste a todo tipo de categorização, que a ciência não sabe explicar direito, uma pessoa que não é “nem homem nem mulher, mas travesti”! Gosto da liberdade que isso me traz, da possibilidade de viver para além das caixinhas. Mas sou um caso à parte e a maioria das pessoas trans que conheço não iria dizer que sente o mesmo que eu sinto.

LR: Como que é a convivência com sua família?

AM: Muita choradeira a princípio, mas aos poucos foram aceitando, foram deixando de sentir medo, foram vendo que não tinha nada demais. Meu pai, no final do ano, passou a me chamar de Amara e assumiu publicamente a admiração que sentia pela maneira como me assumi, como peitei todo tipo de desafio e obstáculo para ser quem eu queria ser. Minha mãe começou há menos de uma semana a me chamar de Amara, ainda errando 90% do tempo o meu nome e gênero, mas já dando mostras do que desistiu de acreditar que é só uma fase, que vai passar, que eu ainda sigo sendo o falecido… hoje, aliás, faz um ano e dois meses que pedi pra primeira pessoa me chamar de Amara.

 

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