Como fica o público nessa história?

A indústria cinematográfica vem sendo contestada pela falta de representação do público, pois, quando não reforça estereótipos, tende ao retrato inferiorizado das minorias

Exceção à regra: enredo de Sense8 busca enfocar as diferenças de uma maneira natural e positiva - Foto: Divulgação

Exceção à regra: enredo de Sense8 busca enfocar as diferenças de uma maneira natural e positiva – Foto: Divulgação

Por Monique Heloísa de Souza

As críticas à ausência de diversidade em produtos cinematográficos, principalmente os hollywoodianos, não são recentes, mas vêm ganhando espaço nos últimos anos. No Oscar 2015, por exemplo, entre os 20 atores e atrizes que disputavam as categorias principais e coadjuvantes, não havia negros ou latinos. O filme Selma, da diretora norte-americana Ava DuVernay, que conta a história do ativista social e político Martin Luther King, recebeu apenas duas indicações – melhor filme e melhor canção. Aproveitando a vitória de Glory, os cantores Common e John Legend fizeram um discurso sobre a opressão dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. “Nós vivemos no pais mais encarcerado do mundo”, declarou John Legend. “Há mais homens negros sob controle corretivo hoje do que sob escravidão em 1850”. A ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, Patricia Arquette, também usou seu discurso para protestar contra a desigualdade salarial entre homens e mulheres no país. O diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu, que venceu as disputas de melhor roteiro original, melhor filme e melhor direção por Birdman, falou sobre a construção de um governo melhor no México e pediu respeito e dignidade aos imigrantes mexicanos.

Em agosto deste ano, a USC (University of Southern California) divulgou um estudo que reflete a falta de diversidade dos filmes hollywoodianos e as críticas direcionadas à premiação. Os pesquisadores analisaram as 100 maiores bilheterias de cada ano, no período de 2007 a 2014, e os resultados foram alarmantes. Dentre os personagens com falas ou nomes, 73,1% eram brancos; 30,2% eram mulheres; 4,9% tinham origem latina; apenas 19 eram homossexuais e nenhum era transexual. Os números mostram que a indústria cinematográfica não tem dado a devida importância à representação do público, pois as mulheres são mais de 50% dos espectadores pagantes, assim como os latinos correspondem a um quarto dos frequentadores de cinema nos Estados Unidos. Estes últimos dados são de outro estudo sobre as estatísticas do mercado cinematográfico, feito pela MPAA (Motion Picture Association of America).

A participação feminina por trás das câmeras também é limitada. A soma da porcentagem de diretoras, produtoras e escritoras das 100 maiores bilheterias de 2014 não chegou a 16%. Apenas 28 mulheres atuaram na direção dos 700 filmes analisados no estudo da USC, e apenas três delas eram negras.

Para a doutora em História, Ana Maria Veiga, a pesquisa é bastante representativa em termos de maioria e de investimento na indústria cinematográfica. “Dificilmente as produções periféricas reverteriam esse quadro, apesar de podermos encontrar nelas uma preocupação maior com a diversidade. No período anterior, por mais que encontremos filmes que tiveram o protagonismo de mulheres, homossexuais ou trans, eles muitas vezes reforçaram estereótipos”. Segundo ela, a indústria cinematográfica tem o poder de apresentar esses personagens como bem resolvidos e inseridos socialmente com dignidade. Mas há uma recusa de quem controla o setor, principalmente da parte norte-americana. “Hollywood não está disposta a abrir mão de uma posição hegemônica que se sustenta sobre a heteronormatividade. O que é visível, de modo positivo, tem chance maior de ser aceito. Mas a quem isso interessa mesmo?”.

A professora de Jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Cárlida Emerim, acredita que não se pode exigir que a mídia e a cultura abordem coisas que a sociedade não vê como prioridade. “É muito cômodo jogar para a cultura o que nós, enquanto seres sociais, não propiciamos. O que parece é que, a arte resolvendo isso, nos exime de tomar atitudes mais positivas em relação a essas demandas”. Uma das soluções apontadas por ela para mudar o panorama seria a divulgação de pesquisas como essa organizada pela USC e a reflexão que os dados podem trazer.

Diversidade ou distorção?

O universo dos seriados também não escapa da falta de representatividade. Mês passado, chegou ao fim um dos mistérios da série Pretty Little Liars, adaptado dos livros da escritora norte-americana Sara Shepard. Após o desaparecimento de Alison, líder de um grupo de cinco amigas, elas começam a receber mensagens de alguém que assina como “A”, e a trama gira em torno de chantagens, mortes, jogos psicológicos e sequestros planejados por este personagem desconhecido. Depois de vários alarmes falsos a respeito da identidade de “A”, os fãs finalmente descobriram que a vilã da história era CeCe Drake, uma transexual que, aos cinco anos de idade, foi mandada para um manicômio pelo próprio pai e impedida de conviver com os irmãos. O preconceito e a exclusão promovidos pela família teriam levado CeCe a cometer essa série de crimes, tudo com o intuito de se aproximar das pessoas a quem amava. Porém, a escolha desagradou uma grande parcela dos espectadores da série, que acusaram os produtores de transfobia, por transmitir a ideia de que transexuais são emocionalmente desequilibrados e perigosos. As críticas ao seriado foram reforçadas pelo fato de, nos livros, a personagem não ser transexual.

A criadora da série, Marlene King, defendeu-se dizendo que a loucura de CeCe vem do histórico de preconceito da família dela, e não de sua identidade de gênero. “Foi muito importante para nós […] que as pessoas captassem exatamente essa mensagem. Nós não queremos dar um passo para trás para a comunidade trans, queremos avançar”, declarou, em entrevista ao site Buzzfeed. A estudante de Letras da UFSC, Marina Ramos Luz, concorda com Marlene King: “Os verdadeiros vilões da história são os pais, que sustentaram o preconceito contra o filho a vida toda. Dessa forma, as pessoas não têm ninguém a quem culpar, pois a vilã da série se torna uma vítima, e isso faz com que elas fiquem descontentes”.

Cárlida Emerim questiona a decisão de levantar o tema da diversidade ao trazer a figura da transexual, mas no papel de alguém com todos os valores confusos. Pelo aspecto mercadológico, porém, ela avalia a escolha como inteligente, pois cria um movimento entre os fãs, gera críticas e polêmicas, leva quem não conhece o seriado a assistir para emitir um juízo de valor.

Ana Maria Veiga também pensa que não há o interesse da criadora da série em atribuir aspectos positivos à personagem. “Temos mais uma situação em que a descoberta da identidade trans é o elemento surpresa do roteiro, gerando incômodo e estranhamento no público. Ela é usada para desestabilizar, ao mesmo tempo em que vitimiza o sujeito”.

Desconstruindo paradigmas

Mas parece que a indústria das séries está tentando ampliar o retrato da pluralidade. Produzida pela empresa californiana Netflix, Sense8 conta a história de oito pessoas desconhecidas e que acabam conectadas mentalmente. O que chama a atenção é a diversidade cultural e de gênero que o seriado apresenta: cada personagem vem de um lugar diferente do mundo, se comporta de determinada maneira e enfrenta seus próprios problemas.

Sense8 vem conquistando o público pela abordagem, sem preconceitos, de temas polêmicos relacionados a gênero, sexualidade, drogas, tabus culturais e religiosos. Esta não é uma discussão nova para os criadores da série, os irmãos Lana e Andy Wachowski. Assim como a personagem Nomi, Lana Wachowski é transexual e teve seu nome incluso na Trans 100 List, que faz menção honrosa às personalidades trans engajadas na causa. Ainda, a série faz alusão ao uso atual da tecnologia, que supostamente deveria conectar indivíduos de diversas partes do mundo, mas que se tornou também um instrumento para a propagação de discursos de ódio e perseguição, como os próprios personagens sofrem durante a história.

Apesar das críticas positivas e da boa recepção do público, a produção acabou se tornando alvo de comentários preconceituosos, inclusive de espectadores brasileiros. A Netflix chegou a receber reclamações por meio do site Reclame Aqui, canal utilizado pelos consumidores para relatar problemas que tiveram com o atendimento e os serviços de empresas. As queixas tratavam de “desrespeito à sexualidade”, “divulgação de relacionamentos LGBT”, “apelo à nudez explícita (principalmente a  masculina)” e “afronta à família”.

Cárlida Emerim discorda das críticas dos usuários em relação à abordagem dos temas mencionados. “Ao trabalhar cenas fortes de sexualidade homo ou heterossexual, ainda está sendo levantada a mesma perspectiva e está dentro do contexto que a série quer abordar”, afirma. “Não é uma produção em que o homossexual seja mostrado de maneira diferente, e sim em uma visão mais igualitária”. A professora diz que apenas determinadas faixas etárias conseguem dimensionar o que a série apresenta, enquanto crianças e adolescentes podem não saber lidar emocionalmente com isso. Ainda assim, ela defende que os produtores tenham total liberdade na elaboração dos roteiros. “Quanto mais cultura, educação e acesso a esses produtos, mais as pessoas têm condições de avaliá-los”.

SOBRE DIVERSIDADE:

A professora Ana Maria Veiga sugeriu alguns filmes que rompem com a noção pré-concebida de diversidade:

  • Kátia (2012), de Karla Holanda: o documentário mostra a trajetória pública e pessoal da primeira travesti brasileira eleita para um cargo político, no sertão do Piauí.
  • Transamérica (2005), de Duncan Tucker: história de uma transexual chamada Bree que, uma semana antes de fazer a cirurgia de readequação sexual, descobre ter um filho de 17 anos que precisa de ajuda. Sua psicóloga proíbe que ela se submeta à cirurgia sem resolver esse assunto, por isso Bree viaja para Nova Iorque para encontrar o garoto.
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