Gourmetização sobre rodas

Moda que chegou ao Brasil em 2012 ainda divide-se entre críticas e aprovações

Aero Churros Gourmet conquistou o público com uma versão ousada - Foto: Ideia Diferente

Aero Churros Gourmet conquistou o público com uma versão ousada – Foto: Ideia Diferente

Por Isabele Reusing

Apesar da comida de rua ser popular em todo mundo, os food trucks têm inovado o mercado gastronômico. O termo “gourmet”, inicialmente foi usado pelo marketing para atrair mais consumidores, passou a ser banalizado e, hoje, é motivo de piadas nas redes sociais. É a chamada gourmetização culinária.

Contudo, os caminhões de comida, na tradução literal, têm crescido muito  nos últimos anos. Entre as vantagens para os proprietários estão o baixo custo, sem a necessidade de aquisição de um ponto comercial e os pagamentos de outros impostos aos quais estão sujeitos os estabelecimentos fixos, além de um contato mais direto com o público. Já para os clientes, as vantagens são a oferta de alimentos mais sofisticados, a oportunidade de conhecer pratos típicos de outras regiões e a comodidade de não ter que se deslocar até um restaurante.

O compartilhamento nas redes sociais também deu mais visibilidade ao setor, como é o caso do Aero Churros em Florianópolis. Todos os dias a localização do carrinho é divulgada na página do Facebook, que em menos de um ano de existência tem mais de 48 mil curtidas. A fama se espalhou pelo estado, com a participação nas feiras gastronômicas em cidades como Joinville, Lages e Balneário Camboriú.

Diferente dos churros tradicionais, além do doce de leite, pode ser recheado com Nutella, Leite Condensado ou Chocolate. Na cobertura, você pode escolher até dois sabores, como paçoca, confetes coloridos ou Kit Kat, e paga entre R$8 e R$10.

Com dezesseis anos de experiência na área, o Chef Krys Mendonça, de Florianópolis, critica essa tendência:  “Ao meu ver, essa tal ‘gourmetização’ não traz nada de bom, nem pra quem consome, nem pra quem trabalha com gastronomia. Porque é um modismo que está fazendo todo mundo acreditar que tal produto é melhor, só por trazer uma roupagem nova. A comida tem que ser feita com capricho e por quem ama o que faz.”

Matéria Isabele Cristine Reusing

Para Mendonça, nem sempre o ingrediente mais caro faz o melhor prato. “É preciso ter cuidado quando se diz que está criando algo novo, pois, em algum canto do mundo, alguém já pode ter feito”, acrescenta.

Já a blogueira e empresária Anna Terra não vê problemas nos food trucks: “Pra mim, essa tal onda gourmet nada mais é do que a gastronomia ganhando mais espaço, sem tirar o bom e velho pão com ovo do cardápio. Eu sou do tipo que gosta de comer. Gosto de experimentar, conhecer misturas e tentar um ingrediente novo de vez em quando. Isso pra mim é o trunfo da boa comida, misturar as coisas e fazer com que elas dêem certo. E se isso incluir a reinvenção de um prato tradicional, conhecido, qual é o problema?”

Por outro lado, Júlia Guimarães, estudante do curso de Engenharia Civil na Universidade Federal de Santa Catarina, costuma frequentar feiras gastronômicas e acha que a ideia trazida para o Brasil é muito focada no lucro, comprometendo a tradição mundial de que a comida de rua é sempre mais barata. Um cachorro-quente em carrinhos comuns custa cerca de R$5, enquanto em um food-truck os valores podem chegar até R$20.

Com a banalização do termo, também veio a rejeição dos pratos gourmet. Porém Anna Terra considera essa resistência arbitrária: “As pessoas se revoltaram com isso, ou talvez eu não tenha entendido a piada. Mas pra mim isso não tem sentido. A gente tem bistrô, cantina, brigaderia, café bar, taberna e os food-trucks tão recebendo critícas só porque estão na crista dessa onda gourmet. Tem coisa mais legal que um carro que leve comida boa pra onde quiser ir? Eu acho sensacional. O comer fora ganhou outro sentido. Esse fenômeno é a desmistificação da alta gastronomia, porque mostram que comida boa não precisa estar enfurnada em grandes restaurantes famosos. Isso não é elitizar a comida de rua, eu acho justamente o contrário.”

A cidade de São Paulo foi a primeira a trazer a novidade para o Brasil, com empreendedores copiando o modelo de Nova Iorque e outras cidades americanas. O sucesso logo se espalhou para as outras regiões do país. Segundo o site Food Truck nas Ruas, que ajuda a encontrar os carrinhos, existem opções no Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Minas Gerais, entre outros.

Em Florianópolis não há nenhuma lei que regulamenta o serviço. Segundo o site do SEBRAE, apenas os estados do Rio de Janeiro e São Paulo contam com legislação para cozinhas sobre rodas, ambos ainda em fase de implantação. Já no Distrito Federal, o governo deverá enviar em breve à Câmara Legislativa um projeto de lei que pretende regulamentar a utilização de áreas públicas para o comércio de alimentos.

 

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