Mais ingresso, menos permanência

A já precária assistência estudantil da UFSC atinge um ponto crítico com os cortes na educação anunciados pelo governo federal no ano em que 50% das vagas do vestibular serão destinadas a cotas sociais

Matéria Victor Pujol de Oliveira Lacombe

Ocupação da reitoria foi o ponto alto do movimento estudantil da UFSC no primeiro semestre – Foto: Wagner Reis

Por Victor Lacombe

Cinco horas, das 14h às 18h. Foi o tempo que a reitora Roselane Neckel se dispôs a dialogar com os estudantes que foram à reitoria naquele 30 de junho. Não pela primeira vez no ano, os discentes se reuniram e exigiram da administração central o pagamento do auxílio-alimentação que, em períodos de greve, é destinado aos alunos em vulnerabilidade socioeconômica. Na época, a paralisação dos servidores, deflagrada em maio, mantinha fechadas as portas do Restaurante Universitário, principal instrumento de permanência estudantil. Sem o dinheiro há dias, os alunos pediram para serem recebidos pela reitora. Depois de horas de negociações e sem nenhum resultado, a professora Roselane Neckel saiu da mesa e pediu que seu chefe de gabinete, Carlos Antônio Vieira, pagasse um lanche para os alunos que estavam ali fossem embora.

Naquela noite, cerca de 50 estudantes ocuparam o hall da reitoria. Começava ali o movimento Ocupar para Permanecer, e uma das estudantes que estava lá para recusar o lanche e exigir condições básicas era Delza da Hora Souza, residente da moradia estudantil e membra do coletivo negro 4P. Ela conta que “o movimento surgiu de forma independente. Começou como ato e foi ganhando força. A gente não podia sair dali daquele jeito, sem comida, pra ‘voltar amanhã’ ”. O grupo ficou ali até cinco de julho, quando conseguiram que a reitora se comprometesse a pagar o valor da isenção, inclusive durante as férias.

Cortes na assistência

O episódio foi o ponto alto de uma das principais pautas do movimento estudantil atualmente: a permanência. Com os cortes do governo federal, 30% do orçamento da UFSC deixou de ser repassado pelo Ministério da Educação. A adminstração central disse em nota que não houve cortes na assistência estudantil, no entanto, a oferta das bolsas diminuiu mais do que a metade em relação ao semestre passado. O número de bolsas oferecidas diminuiu de 350 para 150, num universo de 3.150 pessoas que tiveram o cadastro socioeconômico aprovado pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), órgão que define se o aluno receberá ou não bolsa, isenção no RU ou vaga na moradia. Delza explica que “são mais de 3.000 estudantes que comprovaram que são pobres, que precisam de bolsa. E esse número é apenas um terço dos que necessitam da assistência“.

A PRAE não oferece dados oficiais a respeito do número de candidatos, mas uma análise dos documentos pedidos somente no edital para comprovação de renda torna fácil imaginar que o número seja de fato muito mais alto: para se candidatar, é necessário que os alunos tenham cópia autenticada do RG, CPF, certidão de nascimento, comprovante de residência, declaração do imposto de renda e comprovante de renda de todos os membros da família e cônjuges. “Para alunos que vêm de outros estados, já é difícil. Para quem não tem contato com os pais então, é quase impossível.”

A diminuição das bolsas vai na contra-mão das políticas de ações afirmativas da UFSC: este ano, metade das vagas do vestibular são destinadas para alunos autodeclarados pretos, pardos e indígenas, ou vindos de escola pública. Além disso, 30% do ingresso na universidade é exclusivamente através do SISU (Sistema de Seleção Unificada), que em sua grande maioria é feito por alunos de outros estados que necessitam de auxílio para se manter em Florianópolis.

Para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFSC, esse estudante é a principal preocupação. João Carlos Conceição, diretor de assistência estudantil do DCE, diz que “não dá pra saber se a UFSC está preparada para receber [os ingressos pelo SISU] por que não temos noção da demanda. Mas pelo que se vê em outras universidades, a chegada desses alunos muitas vezes resultou em caos.”

Moradia para poucos

As condições de permanência pioraram: nisso, concordam DCE e oposição, mas os motivos apresentados são diferentes. Para João Carlos, os problemas de permanência estão diretamente relacionados à greve dos TAEs (Técnicos Administrativos). “Temos sentido uma demanda por permanência [no que diz respeito ao] restaurante universitário. Se o RU fecha, o estudante não tem como permanecer na universidade”. Já Delza responsabiliza os cortes do governo federal: “As políticas de assistência nunca foram suficientes, mas com o corte a situação piorou. Esperávamos um aumento nas bolsas, mas neste semestre o número de novas bolsas ofertadas foi o mais baixo em anos”.

Outro ponto de concordância é a moradia estudantil, ou a falta dela: com 172 vagas, não cobre nem 2% dos alunos de baixa renda que já são reconhecidos pela universidade. Para João Carlos, ela é o “calcanhar de Aquiles” da política de permanência da UFSC. “É uma questão que precisa ser tratada. O auxílio moradia não é completo, e a moradia não atende a totalidade dos estudantes que necessitam.” Diante desse quadro, a avaliação de Delza é categórica: “A situação dos estudantes neste semestre é muito crítica. Muitos deles não conseguem fazer o cadastro por causa da greve, e a reitoria não oferece alternativa. Quando os servidores voltarem, todos os documentos vão estar vencidos. E o que o estudante faz até lá?”

A PRAE entrou em contato com este repórter para explicar o número reduzido de bolsas neste semestre. De acordo com a pró-reitora Denise Cord, “mais tarde, com o fim da greve, e após um período hábil para que as assistentes sociais realizem os atendimentos iniciais, serão disponibilizadas mais 200 bolsas, além de editais complementares de auxílio creche e moradia.”

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