Uma coleira salvadora

Uso de corrente antiparasitária garante prevenção contra leishmaniose nos cães, repelindo o vetor de transmissão da doença

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Coleira atua como importante instrumento de prevenção contra o mosquito causador da doença, a forma mais eficaz de diminuir os casos de leishmaniose – Foto: Luiza Kons

Por Nahomie Laurore

O mês de agosto trouxe consolo para muitos donos de cães moradores de Florianópolis. No período, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da capital catarinense distribuiu, pela primeira vez, sete mil coleiras contra leishmaniose em sete  bairros  da cidade:  Córrego Grande, Lagoa da Conceição, Barra da Lagoa, Itacorubi, Saco Grande, Parque de Coqueiros e Rio Tavares. Essas regiões foram escolhidas como centro de entrega da coleira por se constituírem em foco do mosquito transmissor da doença. Para receber o objeto, as pessoas precisavam se apresentar no ponto de distribuição acompanhados dos seus cachorros. Ao ser indagada sobre a importância da ação, a veterinária Isis Lima, do CCZ, não hesitou em responder: ‘’A prevenção contra o mosquito causador da doença é a forma mais eficaz de diminuir os casos de leishmaniose, por isso o uso da coleira, que repele o mosquito. E, além disso, a ação dos médicos veterinários nas comunidades também ajuda a aumentar a conscientização da população quanto à doença, o que auxilia no controle da mesma.’’

Leishmaniose é uma doença infecciosa e não contagiosa. O vírus causador  da moléstia não pode ser passado de ser humano para ser humano. Ele é transmitido por insetos que se alimentam de sangue, chamados mosquitos flebótomos, mosquitos-palhas ou biriguis. Eles abrigam o parasita, leishmania, em seu tubo digestivo. Uma vez que a pessoa seja picada pelo mosquito infectado com a doença, o parasita é depositado na sua corrente sanguínea e segue até o fígado, o baço e a medula óssea para atacar as células. Os mosquitos-palhas medem de 2 a 3 milímetros de comprimento.

Composta de uma substância chamada de Deltametrina, a coleira exerce o papel de repelente.  Ela apenas afasta os mosquitos dos cães, sem matá-los. O objeto protege o animal, que cumpre uma função fundamental no ciclo de vida da doença. Após uma primeira picada, o birigui deposita o protozoário (leishma) no sangue do hospedeiro. No organismo do bicho, o parasita é logo transformado na forma infectante. Quando o animal contaminado for novamente picado pelo inseto vetor de transmissão, a doença se espalha.

A veterinária Isis explica que no momento de dar banho não é necessário a retirada do objeto no pescoço do cachorro e observa  que a coleira tem a duração de quatro meses. Depois desse período, precisa ser substituída por outra. Mas um cuidado deve ser tomado: o objeto usado para afastar a leishmaniose dos cachorros é tóxica em gatos. É recomendado usá-lo nos cães o ano inteiro, como ela ressalta. Nos locais com área de foco, é importante abrigar os animais no início da manhã e no final da tarde que são os horários em que os mosquitos geralmente agem. Sem previsão de novas datas de distribuição pela Secretaria Municipal de Saúde, quem precisa trocar a coleira deve comprar em farmácias ou lojas especializadas. O objeto custa cerca de 100 reais.

Eficácia da coleira tem a duração de quatro meses, mas é recomendável usá-la o ano inteiro

Eficácia da coleira tem a duração de quatro meses, mas é recomendável usá-la o ano inteiro – Foto: Luiza Kons

Apesar de  muitos defenderem o tratamento da leishmaniose em cães, ele continua sendo considerado ilegal.  Em 2013, a ONG Amigo dos Bichos entrou com duas ações no Tribunal Regional Federal da 3ª Região pedindo a autorização para cuidar de cães contaminados, mas a Portaria 1.426/2008, que exige a eutanásia dos animais que apresentarem a doença em todos os casos, foi mantida. É proibido medicar um animal infectado. O Conselho Regional de Medicina Veterinária (CFMV) esclarece que isso pode trazer riscos para os seres humanos.  Se o tratamento mesmo sintomático é vedado para cachorros – para evitar resistência que pode ser desenvolvida ao ministrar remédio ao animal infectado, pois a medicação não consegue dominar o protozoário – , para os seres humanos, a cura é um processo longo e inclui injeção para evitar que a doença se dissemine pelo organismo.

O diagnóstico, que pode ser feito inclusive no Centro de Controle de Zoonoses no caso de contaminação animal, se dá por coleta de sangue para exames clínicos e laboratoriais. Ao ser detectada é importante o acompanhamento de profissionais da saúde para tratar com medicamento a doença o mais rápido possível, pois pode levar a óbito.

Existem dois tipos de leishmaniose: a cutânea e a visceral. A cutânea tem como principal fonte de infecção os roedores silvestres, tamanduás e preguiças e a visceral, a raposa do campo. São diversos os sintomas do tipo visceral, entre eles, febre, anemia, palidez da pele, falta de apetite, perda de peso, inchaço do abdômen. Já a elevação da pele, ferida recoberta por crosta ou secreção purulenta, lesões inflamatórias nas mucosas do nariz ou da boca são os sintomas da cutânea. As primeiras manifestações da doença no ser humano levam dois a quatro meses para aparecer enquanto no cachorro levam de três a dez meses para surgir os sinais.

Quadro em Santa Catarina e no Brasil

A medida de distribuir as correntes foi tomada como forma de prevenção à doença numa ação do Ministério da Saúde junto com o Centro de Controle de Zoonoses. Nos últimos cinco anos, o órgão registrou mais de 100 animais infectados pela doença na capital catarinense, especialmente nos bairros da região da Lagoa da Conceição. Em 2005, Santa Catarina viveu um surto de leishmaniose, com mais de 100 pessoas infectadas no Vale do Itajaí. Hoje em dia há casos registrados nos 27 estados do Brasil.

A doença fica apenas atrás da malária entre as patologias infecciosas que mais matam pessoas no mundo. Ela aumenta de intensidade conforme as condições imunológicas do infectado.  Os números mostram que a leishmaniose deve ser tratada seriamente. Segundo estimativa da Organização Mundial Da Saúde (OMS), anualmente, quase 2 milhões de novos casos são registrados no mundo e morrem entre 20 mil e 40 mil pessoas. No Brasil, cerca de  três mil são contaminadas por ano. Entre 2000 e 2011 a doença levou 2,7 mil pessoas a  óbito. Com esses números alarmantes de morte de seres humanos em razão da doença, há necessidade de controlar e evitar a proliferação do parasita. No Brasil, os maiores índices de mortalidade foram registrados na Bahia, no Ceará, Pará, Tocantins, Maranhão, Piauí, em Minas Gerais e São Paulo.

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