Quando o branco não é a cor da paz

A probabilidade do brasileiro ter intolerância à lactose chega a 67% e esse problema complica a vida de quem não pode ingerir leite

É preciso tomar cuidado: alguns dos sintomas da deficiência da lactase são os mesmos da alergia ao leite e podem ser identificados já na infância - Foto: Thinkstock

É preciso tomar cuidado: alguns dos sintomas da deficiência da lactase são os mesmos da alergia ao leite e podem ser identificados já na infância – Foto: Thinkstock

Por Juliana Fernandez

Pense em uma mesa repleta de comida, com iogurte, brigadeiro, lasanha, pizza, leite, panqueca, bolo, strogonoff, sorvete, pudim. Qual seria o seu primeiro pensamento? Atacar um por um ou pegar um pouco de cada? Normalmente é essa dúvida que as pessoas têm quando estão com fome e enxergam um monte de comida. Mas quem tem problemas com leite e derivados faz a seguinte pergunta: Será que eu posso comer? A intolerância à lactose é a incapacidade parcial ou total de digerir a lactose, o açúcar do leite, e pode provocar sérios problemas digestivos.

O aluno do curso de Agronomia, Luiz Henrique da Silva Coelho, tem 22 anos e desde o primeiro mês de vida é intolerante por rejeição ao leite materno. Ele tem uma restrição de nível leve para médio, tem dor de barriga, enjoo, vômito e quando era criança apareciam manchas na pele. Com a limitação alimentar, a família teve que mudar alguns hábitos na hora de preparar a comida: “Às vezes as comidas são diferentes. Um exemplo é a pizza. Como não posso comer queijo, minha mãe faz uma parte sem para mim e outra com queijo para o resto da família”. Luiz Henrique observa que a maior dificuldade é comer fora de casa, já que algumas vezes não tem como tirar o ingrediente com lactose do alimento. “Os restaurantes não tiram queijo, creme de leite, de algumas comidas. Então, na maioria das vezes, acabo escolhendo as que já não tem. Esses dias fui a uma temakeria e pedi para tirarem o cream cheese, mas esqueceram e veio com, tive que trocar.”

A intolerância à lactose ocorre por uma deficiência na enzima lactase, que tem a função de quebrar as moléculas do açúcar. Quando o intestino delgado deixa de produzir a quantidade necessária da enzima, a lactose não é convertida em glicose e galactose e a pessoa pode apresentar sintomas como dor e inchaço abdominal, diarreia e náusea entre trinta minutos e duas horas após o consumo de alimentos com o carboidrato. Porém, é preciso prestar atenção pois alguns dos sintomas são os mesmos da alergia ao leite. Esta última está ligada à proteína do leite da vaca que pode ser identificada como agente agressor por alguns sistemas imunológicos e o indivíduo precisa excluir a ingestão da bebida e alimentos que contenham a proteína. Os alérgicos podem sentir diarreia, gases, cólicas, distensão abdominal, lesões e inchaço na pele, dificuldade de respirar e sangramento intestinal.

Com a domesticação de animais, há dez mil anos, nossos ancestrais passaram a ingerir leite de animal além do materno. Quando a caça e a pesca eram difíceis e o que era plantado não crescia, eles conseguiam sobreviver através do liquído branco como alimento. Porém, a adição deste na vida do homem causou uma mutação nos genes e os organismos que aceitavam o leite passaram a ter uma vantagem seletiva em relação aos outros. Segundo dados do trabalho final da aluna Juliana de Paula Martins, do curso de Nutrição da Universidade Federal de Juiz de Fora, a deficiência está presente em 15% das pessoas descendentes de norte europeus, 80% dos negros e de latinos e 100% dos índios americanos e asiáticos. A incidência em brasileiros varia de 46 a 67%, dependendo da etnia.

Substituir para prevenir

Existem três tipos de intolerância: a congênita, quando a pessoa já nasce com o problema, como é o caso do aluno de Agronomia; a primária, na qual a deficiência aparece em idosos em função do declínio da produção de lactase conforme a idade aumenta; e a secundária, que surge quando o intestino deixa de produzir a enzima por causa de alguma doença, cirurgia ou dano ao organismo. Este último tipo é muito comum e é o caso da estudante de Administração, Mariana Alexandrina, que, em 2012, com 18 anos, descobriu que tinha o problema. “Tive que substituir os alimentos pelos sem lactose. Quando saio e no lugar não tem opções sem, apenas evito. Nos mercados é muito restrito este tipo de produto e quando tem, o preço costuma ser o dobro dos normais.”, comenta Mariana.

O leite é um dos alimentos mais ricos em cálcio, mineral essencial para a construção e manutenção dos ossos e dos dentes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a quantidade necessária de cálcio entre 9 e 18 anos é de 1300 mg por dia. Já um adulto saudável precisa de 1000 mg diários. A nutricionista Vanessa Lodi afirma que quem tem restrição ao líquido tem a opção de ingerir outros alimentos ricos em cálcio, como a sardinha em lata, camarão, amêndoa, gergelim, brócolis e salmão. Ela recomenda ainda a utilização de pouca água e pouco tempo na hora de cozinhar a comida, assim o mineral fica mais preservado.

Até meados do século XX, a deficiência da lactase não fazia parte dos conhecimentos médicos e os transtornos gastrointestinais, após o consumo de leite e derivados, não eram cientificamente compreendidos. Na década de 1960, Arne Dahlqvist comprovou a existência da atividade enzimática da lactase na mucosa do intestino delgado. A partir de então, várias pesquisas chegaram à conclusão que o desaparecimento da atividade da enzima, na vida adulta, era uma condição comum nos seres humanos. Atualmente, o diagnóstico pode ser descoberto com três exames específicos: teste de tolerância à lactose, de hidrogênio na respiração e de acidez nas fezes. O primeiro é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o procedimento é simples, o paciente recebe doses de lactose em jejum para, depois, realizar um exame de sangue e verificar a quantidade de glucose na corrente sanguínea. No segundo teste, a pessoa também recebe doses do açúcar e depois é analisada a quantidade de hidrogênio eliminada na expiração. No terceiro exame é verificado o nível de acidez nas fezes, pois a lactose não ingerida produz ácido láctico no organismo.

Não há uma maneira de prevenir e nem de tratar a intolerância à lactose, porém é possível evitar ou reduzir a quantidade de produtos lácteos na alimentação. “Hoje, já estou acostumado e evito ao máximo utilizar produtos que contenham leite, mas quando me alimento deles, utilizo a lactase”, diz Eduardo de Souza de 22 anos e com restrição desde os sete anos de idade. O estudante de Administração e de Direito consome a enzima para controlar os sintomas e quebrar o carboidrato. A ingestão da lactase pode ser feita através da adição de sachês no leite ou em forma de cápsulas e comprimidos mastigáveis.

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