Amores múltiplos

Apesar do preconceito, relações não-monogâmicas estão presentes na sociedade para mostrar que nem sempre o amor é a soma de apenas duas pessoas

Relacionamentos com diversas pessoas ganharam visibilidade a partir do movimento hippie, fugindo do modelo tradicional monogâmico - Foto: Marena Eiras/Revista Chocha

Relacionamentos entre diversas pessoas ganharam visibilidade a partir do movimento hippie, fugindo do modelo tradicional monogâmico – Ilustração: Marena Eiras/Revista Chocha

Por Tamy  Dassoler

Conhecer alguém, se apaixonar, namorar, casar e ter filhos. Esta é a história de diversas mulheres brasileiras que possuem relacionamentos monogâmicos. Mas e quando uma situação não segue a norma? É o caso de Maisa Bilenki, jovem de 20 anos, estudante de Jornalismo no Bom Jesus/IELUSC. Maisa sempre teve dificuldade de aceitar que deveria ficar só com uma pessoa.Quando ingressou na faculdade,percebeu, através de uma colega de curso, que essa não era a única possibilidade. “Nós tivemos um relacionamento aberto durante dois meses. Depois, eu comecei a pensar muito nisso e ler sobre o assunto”.

Maisa é uma exceção ao modelo familiar brasileiro, que é predominantemente monogâmico em série. Esse tipo de relação é baseado em duas pessoas que ficam juntas, com exclusividade, mas não acreditam na ideia de que estão em um relacionamento eterno, portanto, consideram a hipótese de se divorciar a qualquer momento. Segundo a antropóloga e especialista em estudos de gênero, Miriam Grossi, o modelo atual é resultado de outras formas de monogamia que se modificaram ao longo do tempo. Até o século XX, as mulheres seguiam um ideal de amor romântico. Eram obrigadas a ter um único relacionamento, enquanto os homens eram vistos como não-monogâmicos por natureza. A ideia de que a monogamia se aplicaria a ambos os sexos só surgiu mais recentemente, com a modernidade.

As relações não-monogâmicas ganharam visibilidade social nos anos 60,com o surgimento de movimentos da contracultura, como o hippie.Apesar de muitas vezes serem confundidos com relacionamentos poligâmicos, os dois possuem conceitos bem diferentes. A poligamia é associada a uma relação unilateral, em que o homem pode ficar com várias mulheres, mas não o contrário. É o caso, por exemplo, da religião muçulmana, em que é possível ter até quatro esposas. Isso também acontece no Quênia, país em que foi aprovado ano passado uma lei que permite a um homem se casar com quantas mulheres quiser, sem que as esposas anteriores possam interferir na decisão. Já os relacionamentos não-monogâmicos buscam romper com a desigualdade entre os sexos e a conotação negativa da poligamia. Assim, homens e mulheres têm o direito de se envolver com várias pessoas. Maisa adotou essa prática em 2013 e, depois disso, abandonou a monogamia. Hoje, ela se considera adepta do poliamor, um envolvimento com múltiplos parceiros baseado mais no afeto do que na sexualidade. Este é um tipo de não-monogamia, assim como os relacionamentos abertos, em que uma pessoa pode ficar casualmente com outras enquanto possui uma relação fixa.

A estudante diz que nunca sofreu preconceito por ter relacionamentos não-monogâmicos. Como pesquisa muito sobre o tema, os amigos da faculdade a tratam como referência no assunto e, quando têm dúvidas, vão procurá-la para conversar. Com a família, já é diferente. Quando Maisa tinha 13 anos, a mãe descobriu que ela era lésbica. Na época, os pais não aceitaram sua orientação sexual, mas atualmente eles não vêem mais isso como um problema. No entanto, a jovem prefere não conversar com eles sobre seus relacionamentos. “Eu acho que não é algo que eu tenha que falar agora. Algum dia, se eu casar com duas pessoas, eu vou precisar conversar com meus pais.”

Dois pesos e duas medidas

Apesar de não ter sofrido preconceito, Maisa afirma que a situação não é tão incomum. Duas de suas amigas têm relações não-monogâmicas e não podem assumir porque são professoras e as escolas onde lecionam não aceitariam. Além disso, a sociedade ainda trata de forma diferente homens e mulheres que decidem não ser monogâmicos. “Para o homem, ficar com várias mulheres é bonito. Para a mulher, ficar com dois homens, ou um homem e uma mulher, é terrível”, conta Maisa. Para a antropóloga Miriam Grossi, o preconceito depende do contexto e, portanto, pode ser causado por diversos fatores, como sociais e religiosos.

No caso de Maisa, a religião nunca foi um grande problema. A jovem se considera ateia, apesar de ter nascido em uma família católica. Seus pais são religiosos, mas não praticantes. No Brasil, segundo Miriam Grossi, o catolicismo não tem grande influência nas escolhas do ponto de vista moral. A Igreja, por exemplo, é contrária ao aborto e à pílula anticoncepcional e, mesmo assim, os dois métodos não deixam de ser usados por pessoas que se declaram católicas. Seguindo a mesma lógica, essa religião não influenciaria tanto na escolha de um tipo de relacionamento. A antropóloga afirma que religiões evangélicas restringem mais o comportamento, porque seus adeptos costumam frequentar os cultos e seguir suas doutrinas.

“Na minha casa, o maior problema é a sociedade, não a religião. ‘Você não vai conseguir um emprego’ é um problema maior do que ‘você não vai entrar no céu’”.Foi assim que surgiu a preocupação com a carreira de Maisa. A mãe tinha medo de que a filha não arranjasse emprego, o que acabou não se concretizando. Atualmente, Maisa faz estágio em uma empresa na área de assessoria de imprensa e conta abertamente para seus colegas de trabalho que é poliamorosa e lésbica. A estudante, no entanto, associa a fácil aceitação ao fato de as empresas jornalísticas serem mais liberais com questões sexuais e de relacionamento. “Agora, na política, por exemplo, imagina quem é casado com duas pessoas. Nunca ia ser alguém”.

A monogamia está ligada à ideia de dualidade e possui um grande valor na sociedade contemporânea. No modelo social ocidental, o planejamento é sempre feito para dois. Por exemplo, uma diária de hotel que para uma pessoa custa 160 reais,no mesmo lugar, para um casal, não corresponde ao dobro, sai por 190 reais. A antropóloga Miriam Grossi destaca que, na sociedade, o casal é representado pela ideia de duas pessoas que se completam e é mais importante do que a noção de família e filhos.

Juntar várias escovas de dente pode ser fácil na prática, mas não segundo as leis do Brasil - Imagem: Marena Eiras/Revista Chocha

Juntar várias escovas de dente pode ser fácil na prática, mas não segundo as leis do Brasil – Ilustração: Marena Eiras/Revista Chocha

O direito brasileiro também não escapa da dualidade. Apesar de não possuir um conceito de família, o Código Civil Brasileiro afirma que o casamento é a união entre o homem e a mulher. Segundo a mestre em Direito, Melissa Barbieri, um relacionamento entre mais de duas pessoas não possui uma regulamentação. “A lei não diz que é permitido três pessoas como não diz que é permitido duas. Diz somente que é a relação entre um homem e uma mulher”. Ao mesmo tempo, também garante direitos à dignidade, à intimidade, à vida privada e à honra. Então, dependendo da interpretação, um relacionamento não-monogâmico pode ser aceito. Neste caso, é preciso entrar com ação judicial para pedidos, por exemplo, de união estável ou de licença a maternidade para mais de uma mãe.Melissa Barbieri alega que “as pessoas quase se matam para entrar em um padrão normativo, porque têm tanta diversidade de família, de relacionamento, de uma série de situações, e uma lei só, fixa, imutável, que você tem que tentar entrar nela. E o que eu vejo hoje é que não cabe mais. Está apertado ali dentro.”

 

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