Seu fetiche não é o nosso prazer

Mulheres homossexuais geralmente estão livres de homofobia apenas quando estão sob os olhares maliciosos de determinados homens

Lésbicas desejam expressar seus sentimentos sem que as erotizem por isso - Foto: freeimages.com

Lésbicas desejam expressar seus sentimentos sem que sejam alvo de reações abusivas por isso – Foto: freeimages.com

Por Ana Carolina Prieto

Naturalmente, após o fim de um dia de trabalho ou de aulas, as pessoas costumam se reunir em bares ou em festas para se distrair. Com a estudante de Administração, Angélica*, de 21 anos, a história é um pouco diferente. Ela evita frequentar ambientes considerados heterossexuais por temer reações abusivas de homens quando está acompanhada de sua namorada. Comentários como “Posso beijar vocês duas?” ou mais ofensivos: “Se eu entrar na relação de vocês tudo vai melhorar” fizeram com que a irritação substituísse a satisfação de sair para relaxar. Esse assédio pode ocorrer pela vontade masculina em se relacionar com mais de uma mulher ao mesmo tempo – independente da orientação sexual dela -, aumentando seu ego e satisfazendo o seu prazer.

O problema começa na dificuldade de entender que uma mulher prefira se relacionar com outras do que com ele. Anna Carolina Amorim, doutoranda em Antropologia, explica que, para a maioria dos homens, esse comportamento existe porque as pessoas foram condicionadas a estudar e visualizar que relações sexuais apenas acontecem com a presença do órgão sexual masculino. “Vivemos em uma sociedade falocêntrica (ideia de superioridade masculina, na qual o pênis é visto como fundamental), que julga as lésbicas como mulheres exibidas, que querem aparecer. Dessa forma, eles não acreditam que elas possam ser realmente homossexuais”.

O eletricista de 25 anos, Caio Macedo*, frequenta as salas voltadas para o público lésbico em um dos maiores bate-papos online do país à procura de mulheres que estejam dispostas a se relacionar com homens e satisfazer os desejos dele. Ele diz que já se relacionou com lésbicas em várias festas e pressupôs que elas necessitavam do órgão sexual masculino para se sentirem completas. Além disso, acredita que a maioria possa ter sofrido algum trauma relacionado a homens – como abandonos e traições -, que as levassem a “se tornarem” homossexuais.

Campanhas se espalham pelo Facebook na tentativa de acabar com o preconceito. Créditos: divulgação Facebook

Campanhas se espalham pelo Facebook na tentativa de acabar com o preconceito.

Um dos maiores estimulantes ao fetiche masculino são os vídeos e filmes disponibilizados virtualmente. Quando se digita a palavra “lésbica” nos maiores sites de buscas da internet, os primeiros links que aparecem estão voltados para a pornografia. Anna Carolina ressalta que, além de haver essa erotização, há também uma indústria que visa as homossexuais apenas como objetos de prazer masculino: “Aquelas relações que são mostradas nos filmes não são o que acontecem na verdade entre duas mulheres que formam um casal”, afirma.

Angélica conta que, desde quando se assumiu há cinco anos, ouve piadinhas constrangedoras e desrespeitosas sobre o assunto. Insistentemente, perguntam-na se não sente falta de se relacionar com o sexo oposto. Muitas vezes, a resposta negativa vem com uma nova provocação: muitos costumam “exigir” que a estudante beije outras garotas para provar sua orientação sexual.  Angélica acredita que exista um falso sentimento de que as homossexuais sofrem menos preconceito: “Só posso ser lésbica no momento do fetiche masculino”, desabafa.

Mesmo tendo namorado por quatro anos uma mulher, alguns homens ainda tem dificuldade em acreditar na sua lesbianidade e em seus relacionamentos homoafetivos. “Eles nos aceitam mais do que aos gays, mas não nos respeitam como casal”. Ela entende que isso pode ocorrer por ser uma pessoa que se enquadra nos “padrões da sociedade”: é branca, possui cabelos compridos e se veste com roupas consideradas femininas. Mas Angélica lembra que muitas mulheres sofrem por decidirem se vestir da maneira que querem e acabam se tornando alvo maior de preconceito: não são fetichizadas e, por isso, não são aceitas.

Anna Carolina, que tem como base dos seus estudos as lesbianidades, avalia que o interesse no assunto vem crescendo, mas ainda é pouco diante do preconceito. A pesquisadora observa que, pela sociedade machista e falocêntrica que vivemos, a maioria dos homens não percebe a conotação negativa de seus atos, o que torna a prática de incômodo às lésbicas algo comum e naturalizado.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das fontes.

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