Brilhando no escuro

Esporte paralímpico do Brasil teve desempenho superior ao olímpico nas últimas quatro edições

Natação é um dos pontos fortes do Brasil na busca pelo 5º lugar no quadro de medalhas das Paralimpíadas do Rio - Foto: Erica Ferro/Arquivo Pessoal

Natação é um dos pontos fortes do Brasil na busca pelo 5º lugar no quadro de medalhas das Paralimpíadas do Rio – Foto: Erica Ferro/Arquivo Pessoal

Por Rodrigo Silveira Rocha

Há menos de um ano para o início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, todas as atenções estão voltadas para a busca da seleção brasileira pelo título no futebol, o tricampeonato de Usain Bolt no 100 metros rasos e o ouro inédito de Isaquias Queiroz na canoagem. A meta do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) é conseguir ficar entre os dez primeiros no quadro de medalhas no ano que vem, o que seria a melhor participação do país na história dos jogos. Depois de 17 medalhas em Londres, o desejo é usar o “fator casa” para aumentar esse número para um total de 27.

Estar entre as dez melhores nações no maior evento esportivo do planeta poderá ser uma novidade para o público em geral, mas não para quem está lá desde 2008. O Brasil conseguiu o 9º lugar nas Paralímpiadas de Pequim e subiu mais duas posições nos jogos de Londres, em 2012. A conquista desses atletas raramente é lembrada, porque, ao final das competições, o pensamento da mídia e dos brasileiros já estão quatro anos à frente e ninguém se lembra que, quando a pira olímpica se apaga, se acende a chama paralímpica.

O sucesso dos esportes adaptados brasileiros tem relação direta com associações filantrópicas espalhadas por cidades e estados do país, que usam a atividade física como integração social. “Foi a partir do esporte que eu comecei a interagir mais com o mundo. Por conta da Síndrome de Moebius, que causa paralisia facial, estrabismo e prejudica a dicção, tinha muita vergonha de falar com pessoas que não conviviam comigo, com medo de não ser entendida ou ignorada. Ao entrar na natação, percebi que todos têm suas peculiaridades e que não há razões para ter vergonha de si mesmo”, conta a nadadora Erica Ferro (foto), da Associação de Deficientes de Alagoas (ADEFAL).

Por serem dirigidas por pessoas voluntárias, as associações precisam de apoio governamental para bancar hospedagem, transporte e compra de equipamentos. Quando este acordo não é realizado, é necessário recorrer a outros projetos do paradesporto, como o universitário. “Alguns municípios têm um compromisso muito grande com os governos municipais. Infelizmente, isto não ocorre em Florianópolis, o que é o pior exemplo possível. É a capital catarinense e tem os aparatos técnicos para se transformar no celeiro esportivo paralímpico do estado, mas falta apoio da prefeitura nos últimos anos. Então, a captação de recursos fica a cargo da universidade através de seus projetos de extensão”, diz Luciano Lazzaris, vice-diretor do Centro de Desportos (CDS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Nem heróis, nem coitados

A delegação brasileira tem conquistas tanto em esportes coletivos como individuais. No judô, Antônio Tenório foi tetracampeão paralímpico, vencendo as edições de 1996 a 2008, enquanto no futebol de cinco a seleção verde e amarela conquistou três títulos sem perder um jogo sequer. As velocistas Ádria Santos e Teresinha Guilhermina acumulam dez medalhas douradas, mesmo número de ouros conquistados pelo nadador Daniel Dias. Nas 12 participações, o Brasil soma 73 ouros, 83 pratas e 74 bronzes, totalizando 230 medalhas.

O lado emocional é um dos trunfos dos atletas em busca de bons desempenhos em quadra, na pista ou na piscina. Representar o Brasil na maior competição esportiva do mundo é um incentivo que vai além do dinheiro ou da fama. “Muitos atletas do futebol, que é de longe a modalidade mais apoiada no país, já vão pensando em quanto vão ganhar quando forem campeões. No esporte adaptado, todos vão no mesmo patamar, com a mesma vontade de se esforçar, de brincar e de jogar”, afirma Lazzaris.

O grande número de medalhas nas competições contrasta com o pequeno número de aparições do paradesporto na mídia, tanto como uma fonte informativa para os leigos quanto uma forma de inspiração para outros deficientes que ainda não conhecem a prática. “Estamos em um país que vai sediar as Paralimpíadas. Será que os brasileiros sabem o que é o goalball ou como funciona a natação para uma pessoa cega? Uma divulgação maior das modalidades poderia levar alguém que sofreu um acidente procurar uma associação e entrar no meio esportivo também”, sustenta o vice-diretor do CDS.

Outro fator que não agrada os atletas é o tratamento que eles recebem em suas poucas oportunidades nos veículos de comunicação. “A mídia exagera na parte da superação da deficiência, com um tom muito voltado ao motivacional. Não somos heróis ou coitados. Se focassem no que realmente importa, que é a grande abrangência e a riqueza dos resultados a nível nacional e mundial, teríamos uma melhor visibilidade e essa mentalidade de que deficiente é coitadinho ou super-herói seria alterada”, ressalta Erica.

 

 

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