No ritmo das batidas eletrônicas

Apesar da atual crise financeira, Brasil se destaca em música eletrônica, exportando talentos e importando grandes festivais internacionais

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Primeira edição do Tomorrowland Brasil reuniu cerca de 180 mil pessoas em três dias de festa Foto: Divulgação

Por Leonardo Filomena

Muitas luzes, fumaça, fogos de artifício, cenários fantasiosos, estruturas gigantescas e inúmeras caixas de som. Hoje, essa é a realidade dos grandes festivais pelo país. Mas nem sempre foi assim. A música eletrônica nasceu junto com os primeiros sintetizadores, que distorciam e modificavam sons. A partir dai, bandas, em sua maioria de rock, começaram a usar essas novas sonoridades em suas músicas. Com a evolução tecnológica desses equipamentos, nasceram os primeiros gêneros inteiramente eletrônicos — iniciando no Disco, passando pelo House e Trance até chegarem ao som comercial dos dias atuais.

O setor desenvolveu um mercado mundialmente conhecido e que movimenta milhões em dinheiro. Segundo a Revista Forbes, o Brasil é o país da música eletrônica. A matéria, publicada em 2012, cita o crescimento econômico da área. Dados do Rio Music Conference, encontro anual sobre música eletrônica, revelam que o mercado movimentou pouco mais de três bilhões de reais em 2014, e reuniu mais de 28 milhões de pessoas em eventos. Se comparado aos números de anos anteriores, nos quais o crescimento foi exponencial, em 2014 houve uma estagnação, influenciada pela crise econômica no país. Mesmo assim, o mercado não deixou de atrair investimentos internacionais.

A evolução econômica tem afetado o mercado de diversas formas. O diretor artístico do Green Valley, Juba Jacobino, chama a atenção para o alcance das mudanças: “Quando começamos não havia tantos Djs, tantas agências e nem tantos eventos fortes. Hoje as possibilidades são quase que infinitas e isso faz com que o mercado se aqueça em todas as frentes. Com a profissionalização dos DJs e da forma de se fazer festa, a cena eletrônica sofreu um nivelamento importante. Ficam os clubes e pessoas que realmente encaram esse segmento como um negócio sério, e não um passatempo. Com o aumento desse tipo de clube o mercado financeiros se aquece e a economia do país ganha muito. O Brasil já é consolidado como um polo turístico pelas belezas naturais, pelo carnaval e pela nossa cultura, agora também trazemos dinheiro ao país tendo a música eletrônica como destino.”

Um exemplo dessa expansão é a chegada de grandes eventos, como o Tomorrowland, considerado o maior festival do mundo, que realizou sua primeira edição em terras brasileiras em maio passado, reunindo cerca de 180 mil pessoas em três dias. Ainda este ano, acontece em São Paulo, no mês de dezembro, o Electric Daisy Carnival – EDC. Mas o que atraiu a chegada desses festivais? O maior atrativo é o público brasileiro, que cresceu consideravelmente nos últimos anos e tem buscado as novidades que costumam acompanhar esses eventos. São os fãs de música eletrônica que alimentam e financiam todo o mercado que gira em torno dos festivais. O diretor artístico do Green Valley, Juba Jacobino, acredita muito nisso: “Temos um público grande e variado, capaz de suprir as demandas do mercado em todas as vertentes da cena.” E complementa: “O público ganha muito com a variedade de eventos, a qualidade do som e os grandes nomes da cena mundial que passam a frequentar o país mais vezes. O país é enorme e tem espaço e público para todas as demandas de eventos eletrônicos que vêm surgindo.”.

Santa Catarina em foco

O papel do DJ também é fundamental para a projeção do Brasil. Sobre o mercado profissional, o DJ Arthur Hortmann Erpen considera esse o melhor momento visto até hoje no Brasil para se trabalhar com música eletrônica: “O número de festas vem crescendo cada vez mais, aumentando a demanda por DJs. Os mais famosos são disputados pelos maiores eventos, e estão ganhando cachês que variam de 20 a 40 mil reais. Como poucos eventos possuem cacife para contratar esses DJs, cresce a necessidade por DJs medianos, que desenvolvam um trabalho de qualidade e ainda sejam acessíveis. Porém, a tecnologia facilitou a entrada de novos DJs no mercado, e hoje existe uma grande concorrência. Nunca foi tão necessário que o DJ trabalhe sua imagem, sua base de fãs, marque presença nas mídias sociais e busque aspectos que o diferenciem dos outros para obter sucesso.” Muitos profissionais brasileiros estão em ascensão e têm conquistado espaço no mercado internacional. “O Brasil se tornou uma das principais ‘fábricas’ de música do mundo, com produtores nacionais se destacando internacionalmente, mais do que nunca”, ressalta Juca Jacobino.

Green Valley: o atual melhor clube do mundo, segundo a revista DJ Mag Foto: Divulgação

Green Valley: o atual melhor clube do mundo, segundo a revista DJ Mag
Foto: Divulgação

Quando se trata da música eletrônica em âmbito nacional, o foco se dirige a Santa Catarina. O estado é considerado referência no setor antes mesmo da popularização do estilo no Brasil como um todo. Clubes de referência mundial estão localizados em nosso estado. Um dos maiores expoentes é o Warung Beach Club, que nasceu há 13 anos e se tornou referência mundial da música eletrônica underground. Localizado na beira da Praia Brava em Itajaí, a casa reúne em suas festas pessoas apaixonadas por música e dança. Em Florianópolis, está localizada a Pacha Floripa, filial da matriz espanhola. Com decoração e características que remetem à ilha de Ibiza, a casa faz sucesso na capital desde 2008. O Green Valley, localizado na cidade de Camboriú, hoje é considerado o melhor clube do mundo, segundo eleição realizada pela revista inglesa DJ Mag. Com uma estrutura gigantesca e com a proposta de integrar música e natureza, suas festas reúnem cerca de 10 mil pessoas em suas noites mais movimentadas. A qualidade dos clubes brasileiros contribuiu também para a projeção internacional do Brasil. “Mostramos que somos profissionais, que temos qualidade e que nosso público é faminto por ouvir os DJs mais populares do mundo.”, afirma Arthur.

Mas, aos poucos, parece que a música está deixando de ser a protagonista desse cenário. Os grandes festivais são mega produções que vão muito além de DJs tocando e animando o público. Grande parte dos eventos envolve decorações místicas que estimulam fantasias por trás da sua identidade. O Tomorrowland, por exemplo, é tido como uma “Disney de adultos” por envolver histórias de conto de fadas. Já o EDC conta com muita interação em sua proposta: além de palcos gigantescos e temáticos, muitas performances artísticas e exposições acontecem durante o festival.

Cada um possui sua marca, que atrai um público específico — e movimenta o mercado. Além da música, existe toda a parte logística, que envolve bares e bebidas, banheiros, estacionamento, lojas de suvenir, acampamentos e hospedagens. Estes setores, juntamente com o transporte exclusivo para o evento, cobertura midiática, patrocínios e segurança, acabam por contribuir na geração de empregos diretos e indiretos, fortalecendo a economia das cidades que os recebem.

 

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