Luz, Câmera… Aguarde!

Produtores ainda esperam a publicação do Prêmio Catarinense de Cinema, prometido para ser lançado em junho. Entidades e Governo divergem sobre valor final

Curta metragem passou por cerca de 30 festivais nacionais e internacionais Foto: Divulgação/Novelo Filmes

Curta metragem O Segredo da Família Urso passou por cerca de 30 festivais nacionais e internacionais – Foto: Divulgação/Novelo Filmes

Por Joelson Cruz Cardoso

O Segredo da Família Urso, lançado no ano passado, coleciona onze prêmios no seu histórico. Tai…Ó! – uma Aventura na Lagoa foi agraciado como o melhor filme infantil no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM) de 2015. Esses são apenas dois exemplos de curtas-metragens bem sucedidos produzidos em território catarinense. Ambos foram contemplados com recursos do Prêmio Catarinense de Cinema, que fomenta a produção cinematográfica no estado. Mas uma oportunidade parecida para novos projetos saírem do papel está parada. Isso porque, há dois anos, o edital de financiamento não é lançado.

Em junho, a Secretaria de Estado de Cultura, Turismo e Esporte (SOL) anunciou que o edital seria publicado durante o FAM, como nos velhos tempos. O festival passou, assim como se passaram mais três meses e até agora nada. O que trava a nova versão do prêmio é um impasse entre a secretaria e as entidades representativas do setor. Segundo a classe, em 2014, o secretário Filipe Mello e a presidente da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) Maria Terezinha Debatin, se comprometeram com o aporte de R$ 3,04 milhões do governo estadual para o edital. Quase um ano depois, a proposta apresentada foi de R$ 4 milhões e 290 mil, onde R$ 2,04 milhões seriam oriundos do estado e R$ 2 milhões e 250 mil do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Um corte de um milhão de reais nos valores provenientes do tesouro estadual. A alegação que receberam foi de que se trata de uma determinação da Fazenda do estado por contenção. Agora, os representantes da área querem que o valor inicial seja mantido. “É essencial porque as empresas catarinenses são pequenas e sozinhas, não tem recursos para investir na criação e desenvolvimento de novos talentos” destaca o presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual de Santa Catarina (Santacine), Ralf Cabral Tambke.

Investimento e oportunidade

Das seis categorias de projetos, três – longa-metragem, telefilmes e seriados – recebem suplementação da Agência Nacional de Cinema (Ancine) através do FSA de 1,5 vez mais ao valor que é investido pelo estado. Com os R$ 3 milhões anteriormente assegurados, o valor final poderia chegar a R$ 5.570.000,00, sendo que R$ 2,7 milhões seriam da União. O valor inferior pode prejudicar os curtas-metragens, onde novos profissionais se lançam ao mercado. Isso porque a verba do FSA é destinada para categorias onde somente produtoras constituídas por pessoas jurídicas podem concorrer. “É inadmissível perdermos uma categoria de suplementação da Ancine, como, por exemplo, eliminar uma série para TV, para manter os curtas. Ou o contrário. Tem que ter todos. Esse é o mínimo e é por isso estamos lutando”, diz Pedro Machado Carneiro, mais conhecido como Pedro MC, produtor e presidente da Cinemateca Catarinense.

A elaboração do edital é discutida por um grupo de trabalho (GT) formado pela Cinemateca Catarinense/ABD¬SC, Santacine, Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Cinematográfica e do Audiovisual de Santa Catarina (Sintracine), Conselho Estadual de Cultura (CEC), Museu da Imagem e do Som (MIS) e da FCC. Além da manutenção do montante antes prometido, as entidades representativas do setor propõem que seja lançado um edital para 2014 e outro para 2015, com valores em torno de R$ 5 milhões cada um, e dessa forma, o Governo respeitaria a Lei Estadual no 15.746, de 11 de janeiro de 2012, que prevê a anuidade do prêmio. “Penso que se houver realmente boa vontade no governo em compreender que o edital de R$ 3,04 milhões é o melhor antidoto para o ambiente recessivo, pois traz recursos federais para o estado que de outra forma não viriam”, afirma Tambke.

Por meio da assessoria de imprensa, a FCC informa que o Governo do Estado pretende lançar o edital ainda em 2015 e que, para isso, tem se reunido desde o início de setembro com a Comissão de Organização e Acompanhamento (COA) para adequar a minuta com base nas sugestões da consulta pública organizada pela entidade no mês de junho, no site da Fundação. Depois, o documento deve passar pela aprovação do FSA e da Fundação para, enfim, ser lançado. O órgão alegou que o atraso deve-se à necessidade da aprovação do termo de suplementação do FSA/Ancine, firmado no final do ano passado. Mas não se manifestou sobre as razões da não realização do prêmio em 2014 e sobre a contraproposta do setor.

Os produtores também querem que os curtas-metragens sejam mais valorizados, uma vez que eles têm sido os grandes representantes do cinema catarinense pelo mundo afora. O motivo para o maior investimento nessa categoria também se deve ao fato de ela ser mais inclusiva, além de promover o desenvolvimento de novos profissionais nas diversas áreas do audiovisual, como direção, roteiro, fotografia, som. “Com o prêmio, novas gerações de realizadores poderão produzir com qualidade e criatividade, obras que serão exibidas e premiadas em festivais de cinema no Brasil e no exterior, levando a cultura e o audiovisual catarinense para muito além das fronteiras do Estado” justificam os representantes do setor cinematográfico em carta aberta encaminhada ao Governador Raimundo Colombo e entregue a secretária Ângela Albino no dia 26 de agosto, durante um evento na Assembleia Legislativa. “A produção de curtas movimenta o mercado como um todo, gerando, de forma dinâmica e com baixo investimento, emprego e renda”, destaca ainda o grupo.

Setor estratégico desvalorizado

Gravado em Antônio Carlos e Uribici, longa Oração do Amor Selvagem traz história do interior do estado. Foto: Sabrina Bertolini

Gravado em Antônio Carlos e Uribici, longa Oração do Amor Selvagem traz histórias do interior do estado – Foto: Sabrina Bertolini

A indústria cinematográfica do estado, além de se destacar nos festivais por onde passa, também tem um legado importante no mercado de trabalho. O projeto do cineasta Chico Faganello recebeu R$ 1,1 milhão para a produção do longa-metragem Oração do Amor Selvagem em 2012. Cerca de 200 profissionais trabalharam na produção em diferentes momentos, 95% deles eram catarinenses. “Além das óbvias consequências econômicas para um setor que tem tudo para crescer e gerar mais emprego e renda, reduz a possibilidade de os catarinenses e brasileiros conhecerem a própria história e as próprias narrativas. A indústria cultural, e tudo o que é ligado a ela, não se desenvolve”, lamenta o diretor.

O curta-metragem O Segredo da Família Urso de Cíntia Domit Bittar, movimentou cerca de 40 profissionais nos seus oito meses de produção. A maior parte também é do estado. “Se contarmos a geração de trabalho e renda indireta, esse número sobe”, acrescenta a diretora. Ela ainda destaca a importância do edital para a realização do projeto: “Foi fundamental, visto que o orçamento do filme foi executado inteiramente com a verba adquirida através do prêmio, somada a apoios culturais, técnicos e logísticos”.

Para se ter uma ideia, graças às políticas de fomento por parte de governos federais, estaduais e municipais, em 2014, a indústria cinematográfica injetou mais de R$ 19 bilhões na economia brasileira. Santa Catarina tem vivido um crescimento em suas produções audiovisuais, com filmes participando de festivais dentro e fora do Brasil, e muitas vezes, trazendo prêmios para o estado. Apesar disso, sofre dificuldades no apoio através do governo.

“É um setor que tem retorno, quando investido, e isso é comprovado. É investimento para o próprio Estado. Não existe setor comparável à cultura, e o que se convenciona chamar de indústria criativa. É a mina de ouro que Santa Catarina tem nas mãos, mas por vontade política está em crise e déficit com a realidade” diz Pedro MC.

Para que o cinema catarinense continue sendo projetado nas telas por onde passa, produtoras e interessados aguardam o desenlace dessa situação. E esperam principalmente, maior reconhecimento e valorização do governo estadual.

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Uma resposta para “Luz, Câmera… Aguarde!

  1. Gente, olha só isso. Bons exemplos de projetos que deram super certo, renderam emprego e renda e os governantes não enxergam isso. Lamentável!!! Tem estados com PIBs inferiores ao de SC que investem muito mais em cinema. Não é por nada que o cinema de Pernambuco vem ganhando cada vez mais espaço nacionalmente ,por exemplo, porque lá tem investimento.

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