“É uma porcalhada”

Cientistas criticam a postura brasileira nos testes com animais

Mais da metade dos animais utilizados em testes são ratos e camundongos - Foto: https://pixabay.com/pt/

Mais da metade dos animais utilizados em testes são ratos e camundongos – Foto: https://pixabay.com/pt/

Por Camila Geraldo

A maior parte das espécies que são utilizadas em pesquisas passam as suas (breves) vidas trancadas em gaiolas. Os ratos e camundongos, quando não são criados para os testes, vivem até as cinco ou seis gestações – quando as fêmeas param de dar filhotes e têm a vida interrompida. As ovelhas são constantemente picadas para a extração de sangue, usado pelos laboratórios para suprir a demanda dos pesquisadores. Os beagles são soltos duas horas por dia e passam o restante presos. Os cães excedentes – aqueles que não vão ser utilizados em pesquisas – acabam não sendo doados devido à burocracia dos biotérios. Os pombos, animais que por natureza precisam voar, ficam submetidos ao estresse de serem presos em gaiolas nas épocas de reprodução.

Com o passar dos anos, a sociedade foi se comovendo com a situação das cobaias para os testes científicos. Casos como a invasão do Instituto Royal, em 2013, e a tentativa de incêndio ao Biotério da Universidade Federal de Santa Catarina, que completa 4 ano neste mês, fazem com que aumentem as discussões sobre a ética dessas pesquisas. No início de setembro, a UFSC reabriu o grupo de estudos sobre o direito dos animais. Entre as temáticas que os participantes irão abordar, a ética para uso de animais na ciência, é uma das principais.

“Os pesquisadores afirmam, quando questionados, que os animais são criados em grupos, tem recreação e são felizes. Realmente, é impossível imaginar que um animal enjaulado, sendo mutilado todos os dias, sentindo dor constante, sem nunca ter visto o mundo lá fora possa ser feliz. Se você puder olhar para os olhos de um destes animais, pode ter certeza de que a única coisa que você não verá será felicidade”, diz a advogada especialista em direito dos animais Maya Pauletti Reich.

Nem tão fundamental assim

No Brasil, existem hoje cerca de 65 empresas que possuem licença e mais de 400 universidades e laboratórios que têm ou aguardam a autorização para a realização de pesquisa com animais. Mesmo com a pressão da opinião pública nos últimos anos, o uso de animais em testes continua permitido no país e é apoiado por grande parte dos cientistas. De acordo com o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA) “em qualquer parte do mundo, essas experiências [científicas] dependem ou dependeram da utilização de animais. Sem as pesquisas, a saúde e a segurança das pessoas, dos animais e do meio ambiente seriam atingidas, não apenas em relação ao uso de medicamentos, mas também de produtos utilizados no dia a dia, como inseticidas e pesticidas”.

No entanto, muitos especialistas e biólogos criticam a colocação do CONCEA. O biólogo Thales Trèz fala que, para grande parte dos testes, já existem alternativas. “Na pesquisa, a substituição hoje no país é vista com ceticismo. Muitas técnicas já foram criadas para vários procedimentos. Claro que, na totalidade, ainda existe muito o que se construir. É o pensamento conservador que faz com que não tenhamos a massa crítica para desenvolver esses meios alternativos. Precisamos é que se criem caminhos, políticas de financiamento para que isso seja implementado – e o CONCEA está engatinhando nisso”, acrescenta o biólogo. O trabalho de conclusão de curso de Maya Reich foi sobre os métodos alternativos legais para a substituição, poucos deles utilizados no Brasil. “As vantagens de se utilizar métodos alternativos são muitas, entre elas pode ser feito o uso da placenta e do cordão umbilical para treinamento de técnica cirúrgica e testes toxicológicos, por exemplo” escreve Maya.

Atualmente, quase 30 bilhões de reais são gastos em testes com animais no país e quase 115 milhões de matrizes são mortas por ano nas pesquisas. Diferente do que acontecia na última década, hoje existem conselhos e órgãos responsáveis em regulamentar o uso de animais na ciência, aplicando o conceito dos 3R’s – refinar, reduzir e substituir. Os 3R’s começaram a partir dos anos 2000, com a proposta de que somente as melhores espécies para pesquisa devem ser criadas. Dessa forma, o número de animais também diminuiu. Antes desse controle, partia de cada pesquisador escolher os modelos e fazer os pedidos de espécies, sem um comitê que julgasse a qualidade do animal escolhido ou a quantidade. A verdade é que refinar e reduzir é muito fácil – chega a ser antropocêntrico, porque ao refinar o animal não se está pensando nele, mas na qualidade da pesquisa – já a subtituição, que é o terceiro R e o mais difícil, as pessoas não se importam”, critica o imunologista Carlos Zanetti.

Muitos pesquisadores, inclusive o CONCEA, argumentam que os testes melhoram a qualidade de vida de outros animais, pois assim podem-se descobrir a cura de doenças que não funcionam nos homens, mas que curam certas espécies. “Porém, qual seria a ética disso?”, questiona Thales Trèz, “A gente deve tratar os animais da mesma forma que tratamos os humanos. Se tratamos os humanos como sujeitos, porque na hora de buscar tratamentos para animais, tratamos eles como objetos? Por que não incluimos isso para o benefício dos animais, não para o descarte deles?”, questiona.

Sistema de publicação que corrompe

Apesar da primeira legislação que tinha como foco proteger os animais ter sido criada em 10 de julho de 1934, foi só na década de 90 que começaram, de fato, as discussões e ações em relação ao uso de animais em testes, ensino e pesquisa no Brasil. Em 8 de outubro de 2008 foi promulgada a Lei Arouca, que criou o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), órgão que deve controlar os experimentos com todos os animais no Brasil.

Cabe ao CONCEA criar as regras, destacar os procedimentos e monitorar os testes. Porém, é muito difícil entrar em contato com o conselho ou com os participantes dele. Durante a reportagem do Quatro, perguntas importantes como a quantidade de animais para pesquisa no Brasil e em Santa Catarina não foram respondidas pela entidade. Segundo o imunologista e participante da fundação do CONCEA, Carlos Zanetti, “é um dos objetivos da criação do conselho ter transparência com a sociedade para dizer quem faz, o que faz e com quantos animais faz as experimentações. Eles têm advogados, jornalistas, um grande número de pessoas que poderiam estar fazendo estatíticas e informações e não estão. E sei que é uma porcalhada. Eu sei que se o CONCEA funcionasse de verdade, as coisas estariam melhores hoje. Existem muitas pesquisas que matam animais de forma desnecessária e precisamos saber quem está fazendo isso”.

Para fazer o controle nas universidades, cada instituição de ensino precisa registrar um CEUA (Comissão de Ética no Uso de Animais) local, que informe a situação para o CONCEA. “Os comitês de ética já começam errado pelo nome. É um equívoco chamar de comitê de ética algo que não discute os direitos dos animais, a qualidade das matrizes e dos modelos. Até hoje, a função do comitê de ética é a análise protocolar, como a quantidade de animais por gaiola, o tipo de anestésico, o destino da carcaça dos animais. Ele não funciona para cuidar dos animais”,  relata Thales Trèz, que também é vice-diretor do CEUA da Universidade Federal de Alfenas.

“Que direito que eu tenho de interromper a vida de um bicho agora? De onde vem essa ideia? A ideia mais absurda pra mim é pensar que alguém teria o direito de fazer isso comigo, então também não vejo o por que fazer isso com um animalzinho. Se existisse a situação de que um comitê de ética real, que entenda mesmo de ética, analisasse uma pesquisa e chegasse a conclusão que, para um determinado experimento que fosse causar tremendo bem pra sociedade, seria necessário matar 10 bichos para fazer a vacina, eu concordaria com o uso desses animais. Mas o sistema de publicação corrompe os pesquisadores, deixam todos cegos, fazem eles acreditarem que o animal pode ficar numa prisão perpétua seguida de morte só para que artigos possam ser publicados”, denuncia Carlos Zanetti.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s