Mãos que falam

Estudantes surdos passam por dificuldades no ensino e precisam se comunicar através de gestos

Cada país possui sua própria língua de sinais, que muda conforme a influência cultural - Foto: Portal da Universidade Metodista

Cada país possui sua própria língua de sinais, que muda conforme a influência cultural – Foto: Portal da Universidade Metodista

Por Ana Carolina Prieto

Ensino fundamental, médio, universidade, intercâmbios. Hoje, essa estrutura é comum na vida de alguns estudantes ou, ao menos, é o desejo de muitos. Pense em todas as aulas em que o professor se recusou ou não pôde escrever na lousa, fez ditado ou simplesmente falou aquela informação importantíssima que cairia na prova. Agora, acrescente a deficiência auditiva, as dificuldades e as barreiras que esses alunos precisam enfrentar até obter todos os seus sonhos, inclusive falar uma língua estrangeira em um país de cultura completamente diferente da nossa. É assim que, possivelmente, muitos estudantes surdos se encontram hoje – a população brasileira de deficientes auditivos é estimada em 9,7 milhões, segundo o IBGE 2010.

O tema foi assunto na 37ª  Reunião Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa (ANPEd), que ocorreu em Florianópolis, entre os dias 4 e 8 de outubro. Ao menos seis trabalhos propostos no evento trouxeram as histórias de dificuldades e superação de deficientes auditivos no ensino. No evento, conhecemos histórias de Vicentes e Anas Carolinas, que aprenderam a utilizar as mãos para se comunicar.

A bacharel em Direito, Ana Carolina Gonçalves Nogueira, de 28 anos, possui deficiência Auditiva Bilateral Neurossensorial Moderada Severa, pré-lingual (antes de ser alfabetizada) e problemas na memória auditiva, ou seja, apresenta dificuldades em conectar sons e palavras. Os pais de Ana descobriram a surdez quando ela ainda tinha dois anos de idade, porque a garota sempre arteira não respondia mais aos chamados do avô. Ana, desde então, utiliza dois aparelhos de amplificação sonora individual.

Vicente*, (28), estudante de Matemática, ficou surdo aos três meses de idade, por complicações devidas a uma meningite. Frequentou escolas que não entendiam suas necessidades especiais, sofreu bullying e chegou a abandonar os estudos por três anos, até uma amiga incentivar sua volta à escola pública. “Eu escrevia errado, muito errado. Reprovei muitas vezes por conta disso em Geografia, Matemática e Português. O Inglês também era difícil”, relata Vicente em entrevista à pesquisadora Renata Imaculada, que escreveu sua tese sobre o percurso escolar de jovens com deficiência.

Ana e Vicente também têm em comum o preconceito sofrido: “As diretoras ou coordenadoras da maioria das escolas que minha mãe me matriculava alegavam que eu não conseguia acompanhar a turma, então eu tinha que procurar uma nova”, desabafa Ana. A falta de professores intérpretes na época também prejudicou a bacharel em Direito, que teve de estudar em 11 escolas diferentes durante a sua infância e adolescência.

Já Vicente relata que não teve apoio no colégio, principalmente da primeira à terceira série: “Eu não tinha muita ajuda da escola, então a família que me ajudava. A minha mãe me ensinava as palavras escritas, colocando as palavras – como janela, porta e cadeira – nos locais que representavam-nas, para eu poder gravar”.

Doutora em Linguística pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Renata Imaculada entrevistou Vicente para conhecer a sua história de superação no ensino e encontrou uma pessoa que não entendia as privações que passou em seu período escolar. “Ele se apropriou do que é ser surdo a partir das interações sociais que teve com os ouvintes”, explica Renata. Assim, a experiência que Vicente viveu fez com que ele acreditasse que aquela era a sua condição.

Ensino tardio

Tanto para Ana quanto para Vicente, o uso da Língua Brasileira de Sinais só ocorreu quando eram mais velhos, no final da adolescência, principalmente por contato com outras pessoas surdas dispostas a ajudar. A Libras, como qualquer outra língua,  possui estruturas semânticas, sintáticas e morfológicas e requer estudos para dominar o seu uso. A maior diferença entre elas acontece pela forma gestual. Além disso, a linguagem de sinais está presente em todo o mundo, mas cada país tem a suas sinalizações diferentes.

A pesquisadora explica que entender Libras desde o início da infância pode facilitar a ingressão dos surdos no meio social: “Isso faz parte do empoderamento dessa comunidade. A maioria das crianças vem de famílias ouvintes, que não dominam a língua de sinais e, por isso, é muito importante essa educação escolar na primeira língua. Essa aquisição permite o desenvolvimento das funções cognitivas”.

Hoje, existem formas práticas e diferentes de se aprender a linguagem das mãos. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) disponibiliza no site idsinais.ufsc.br uma espécie de glossário, no qual você pode buscar um sinal em Libras e ver o seu significado em português, como também pode digitar alguma palavra e encontrar a sua sinalização.

A Universidade de São Paulo (USP) oferece um curso a distância gratuito de Libras. Nele, o interessado pode aprender sobre os diferentes graus de surdez, ler textos complementares, além de realizar atividades e possuir um fórum interativo.  

Se as adversidades começam logo nos primeiros anos de vida, imagine chegar ao Ensino Superior com complicações no português, levando em consideração que diversos textos apresentados em uma universidade exigem grande capacidade de compreensão em linguagem acadêmica. É o caso do estudante Breno*, participante de uma pesquisa da UFSC, que teve o seu grau de surdez detectado quando tinha apenas 11 meses de idade.

Por conhecer a deficiência desde a infância, Breno conseguiu estudar em uma escola inclusiva até os seus cinco anos, onde aprendeu Libras. Porém, precisou ser transferido para uma escola pública e perdeu o contato com a língua, esquecendo os sinais. Até os seus 14 anos, teve dificuldade no aprendizado, principalmente porque não conseguia acompanhar o português acadêmico e não era fácil comunicar-se com os colegas.

Foi por isso que, em 2014, o pesquisador José Carlos de Oliveira da UFSC decidiu estudar as dificuldades de se obter a língua portuguesa como segunda forma de comunicação (confira sua dissertação de mestrado). Para isso, José de Oliveira e Breno realizaram 40 encontros, que duravam entre duas e quatro horas e contaram com três atividades de leitura, três de produção de resumo e outra de perguntas e respostas a partir de um trecho de um texto proposto. O objetivo era que Breno, além de conseguir se expressar melhor em português, também aprendesse a interpretar e resumir textos na língua. Os resultados mostraram que o aluno conseguiu melhorar o uso da língua portuguesa quando a associava com a Libras. Um dos pontos mais desenvolvidos foi o uso de conectivos, que dão coesão aos textos e são fundamentais em produções acadêmicas.

Ana explica a dificuldade em entender o português: “Quem é sinalizado, possui a sua própria língua por meio de gesto-visual e a forma de aprender é completamente diferente de um ouvinte. Por isso, é bom aprender os dois tipos de português: oralizado e sinalizado”.

Quando o sonho é maior

Ana curtia as suas primeiras férias do emprego quando decidiu fazer algo diferente; a irmã a apoiou para realizar um intercâmbio no Chile com a ajuda de uma colega. Em 2014, a bacharel em Direito ficou um mês no país de língua espanhola e compartilha sua experiência: “Aprendi que mesmo com todas as minhas dificuldades eu consigo me defender sozinha em qualquer situação”.

O colégio em que estudou durante a 5ª série ensinava o espanhol, o que fez com que Ana adquirisse conhecimento sobre a língua, principalmente na leitura. Porém, soletrar palavras e entender o que as pessoas falavam foi um dos maiores desafios da viagem. A escola no Chile e a família que a hospedou sabiam da surdez e foram compreensivos a todo momento em que era preciso uma ajuda extra para se comunicar.

Ana Carolina Gonçalves: a experiência de ir além dos preconceitos - Foto: Arquivo pessoal

Ana Carolina Gonçalves: a experiência de ir além dos preconceitos – Foto: Arquivo pessoal

Apesar da incrível experiência de cruzar os obstáculos da deficiência e do preconceito, Ana conta que durante a chegada ao aeroporto de Santiago, seu aparelho auditivo apitou no alarme de metais e a Polícia Federal pensou que ela pudesse estar armada. Argumentando que era surda e que possuía necessidades especiais, um dos policiais apenas respondeu: “O problema é seu”.

Para a bacharel em Direito, em situações como essas, seria interessante uma identificação no passaporte a respeito da deficiência, para que ninguém tivesse que passar pelo constrangimento vivido no Chile. Mas ela garante que, apesar de a primeira imagem ter sido ruim, a experiência no país foi inesquecível. Agora, Ana está aprofundando os seus estudos em linguagem de sinais, para poder se tornar professora e ajudar pessoas que, assim como ela, utilizam as mãos e os gestos para se comunicar.

* Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados, que preferem manter o anonimato.

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