Preparar para quê?

Desde o ensino fundamental, a educação brasileira ainda é voltada para o ingresso na universidade

“Carlitização”: a preocupação em preparar os alunos para o mercado de trabalho automatiza o aprendizado

Carlitização: a preocupação em preparar os alunos para o mercado de trabalho automatiza o aprendizado – Ilustração: Vini Oliveira

Por Monique Heloísa de Souza

Theo Valgas tem 10 anos e está cursando o quinto ano do ensino fundamental. Na opinião dele, além de bons professores, o lugar onde estuda apresenta um diferencial: a lousa interativa, que traz os recursos de apostila virtual e navegação na internet. O uso dessa ferramenta parece ser o suficiente para complementar os conteúdos repassados, pois Theo acredita que as escolas não precisam dar enfoque em arte, filosofia ou música e, sim, ensinar apenas as matérias básicas. Oito anos mais velho, Guilherme Phelippe está no segundo semestre de um curso pré-vestibular e considera válida a metodologia aplicada, porque é uma forma diferente de aproveitar o prazo curto que os processos seletivos das universidades exigem. Mas acrescenta que o ritmo se torna exaustivo, principalmente para quem está vendo tudo pela segunda vez. “Eu acabei [o primeiro semiextensivo] em maio e já comecei de novo em agosto, então a matéria ainda estava fresca na minha cabeça. Os exercícios são os mesmos, porque é o mesmo livro, então fica cansativo”. Os estudantes aceitam esse método por ser direcionado para os vestibulares e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). O aprendizado se limita à formação intelectual, sem maiores preocupações com a formação pessoal. “Querer aprender algo a mais vai de cada pessoa. O papel do professor também é orientar a procurar o que se gosta, mas o tempo é pouco para seguir outro rumo. É só vivendo que você consegue buscar algo diferente”, opina Guilherme.

Porém, os teóricos da área discordam dessa visão pragmática das crianças e dos jovens. O tema foi abordado no trabalho “Formação no ensino médio, escola e juventude: preparar para quê?”, apresentado na 37ª Reunião Nacional da Anped (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação). O professor da pós-graduação da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Carlos Antônio Giovinazzo Júnior, afirma que o que acontece hoje na educação brasileira é um direcionamento para o mercado de trabalho. “Há uma atribuição de responsabilidades que se faz aos jovens, aos adolescentes, no momento em que os adultos cobram das novas gerações um posicionamento. É na escola que essas exigências são sentidas de modo dramático. Ao mesmo tempo em que são feitas essas cobranças, não são dadas as condições para o desenvolvimento da autonomia”.

A proposta de Giovinazzo Júnior é de que as instituições deveriam ir contra a ideologia do trabalho, “aquela que nos faz acreditar que só nos realizaremos no trabalho e exercendo uma profissão”. O pesquisador ressalta que a escola deveria “se constituir como espaço de debate sobre o trabalho, do que é cidadania, democracia, participação, protagonismo”. Ou seja, articular o ensino e a formação intelectual com a formação política e cultural: “Tais dimensões não podem ser tratadas separadamente e é a combinação entre elas que comporia a experiência escolar digna desse nome. Como isso não acontece, os jovens entendem, e com certa razão, que a vida está fora das aulas e da escola”.

Apesar do predomínio do método tradicional no Brasil, várias escolas vêm adotando pedagogias alternativas, que investem igualmente na formação pessoal e intelectual das crianças e adolescentes. Em Santa Catarina, algumas utilizam sistemas diferenciados para instrução de seus estudantes; entre eles, podemos citar a Pedagogia Waldorf e o Método Montessori, que se distanciam da pressão causada pelo aprendizado convencional. São quatro que utilizam a metodologia Waldorf, todas na capital, enquanto outras quatro são adeptas de Montessori (Florianópolis, São José, Lages e Joaçaba).

Respeite o meu tempo!

“Eu queria um espaço que tivesse preocupação com o ser humano, e não com o indivíduo voltado para o trabalho. Que [a formação intelectual] fosse tão importante quanto a social, o respeito às outras pessoas, a convivência com o meio ambiente, a valorização da arte, as experiências mais subjetivas”. Estes foram os motivos pelos quais Rebeca de Moraes Ribeiro de Barcellos, professora do curso de Administração da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e membra do conselho de pais do Jardim Escola Cora Coralina, escolheu a Pedagogia Waldorf para sua filha Lara, de seis anos. O método, criado em 1919 pelo austríaco Rudolf Steiner, é baseado na Antroposofia – uma filosofia que propõe uma forma livre de pensar, observando e respeitando a realidade na qual os alunos estão inseridos. Até os sete anos, nenhuma questão intelectual é introduzida. Eles não aprendem a ler, escrever ou calcular. Pelo menos, não formalmente. Durante as brincadeiras, vários elementos estimulam o raciocínio, mas sem a pressão que as metodologias tradicionais adicionam ao crescimento dos estudantes.

Para Rebeca, a maior limitação do ensino convencional é a preocupação com o vestibular, com o mercado de trabalho, em formar funcionários e empregados. “Hoje, a minha filha está curiosa pra aprender a ler, a escrever, enquanto eu vejo outras crianças, que começaram o letramento aos quatro anos, chegarem aos sete entediadas. Elas estão cansadas, porque se sentem sobrecarregadas e perderam o tempo de brincar”.

Mesmo os pais ganham atendimento especial: duas vezes por ano, eles se reúnem em particular com os professores para avaliar o progresso de seus filhos. Segundo a mãe de Lara, esta é uma das principais vantagens. “A professora sabe tanto, ou mais, dela quanto a gente. É uma profissional experiente e que tem um olhar bem individualizado para as questões e os processos de cada um”.

Apesar de nunca ter passado por nenhuma situação do tipo, Rebeca aponta como uma desvantagem a influência que a Pedagogia Waldorf recebe de uma perspectiva voltada para o desenvolvimento espiritual. Ouvindo histórias de outros pais, ela percebeu que, dentro do método, existem profissionais mais radicais, como também existem aqueles mais abertos ao diálogo. Como exemplo, ela cita o tratamento diferenciado dado às crianças canhotas e o distanciamento em relação à tecnologia – embora, na visão dela, este último não seja um prejuízo.

Nas escolas Waldorf há a sugestão de que a criança não tenha contato com eletrônicos até os 14 anos. O que, na opinião de Theo Valgas, é algo que distingue o colégio dele de outros, foi um dos fatores que fez a professora da UFSC optar por não matricular sua filha em uma instituição tradicional. “Para mim, radical é passar três horas por dia em frente a uma televisão. A minha filha assiste, em média, duas horas por semana. Naquele tempo, ela fica sentada, completamente parada, e mal percebe o que está acontecendo no ambiente. Pode ser o programa mais educativo, mas é uma maneira passiva de aprender”.

A questão da espiritualidade também é interpretada de diferentes maneiras pelas linhas desta pedagogia. Com algumas exceções, a maioria delas não direciona o aluno para uma religião específica. Ao fazer um agradecimento antes da refeição, eles se referem à natureza, que proporcionou o alimento, hábito que cria na criança o gosto pelo meio ambiente. Também não se faz alusão a imagens: “Você não vê Jesus pendurado nas paredes, mas sim Madonas, que são obras de arte de pintores famosos e têm o significado de uma mulher cuidando de uma criança. Não é um culto a Nossa Senhora, é uma referência de acolhimento e cuidado”, diz Rebeca.

Segundo a mãe, Lara é cheia de vitalidade, força e coragem. Ela sobe em árvores, desce em tirolesas e faz coisas que impressionam, mas raramente se machuca porque tem uma consciência corporal muito grande. O convívio com a Pedagogia Waldorf a ajudou na questão da sociabilidade com outras crianças e na percepção das qualidades e limitações do outro. Também fez com que tivesse bastante entendimento sobre as próprias conquistas. “Um dia, um adulto perguntou pra ela: ‘Você já está aprendendo as letras e os números?’”, conta Rebeca. “Ela respondeu: ‘Não, mas eu subo na árvore, me penduro de cabeça para baixo sem usar as mãos e não caio’. E olhou pra ele como se dissesse: ‘Você sabe fazer isso?’”.

Sem fileiras, mas com disciplina

Liberdade com responsabilidade. Este é o princípio básico do método criado pela médica italiana Maria Montessori, exposto pela primeira vez em 1909. A base curricular utilizada é a mesma do ensino tradicional, mas o que muda é a maneira de ensinar. Na Casa Escola Maria Montessori, localizada no bairro Campinas, os alunos não são divididos em séries e, sim, em agrupamentos de crianças com idades diferentes – de modo geral, com uma média de dois ou três anos de diferença. Como estão organizados em grupos, é natural que algumas crianças tenham habilidades diferentes de outras e terminem certos conteúdos rapidamente. De outra forma, algumas permanecem nos agrupamentos por mais tempo, seja por alguma dificuldade ou especificidade.

Ao apresentar a escola, o aluno Franco Camelo Aguzzi, de 14 anos, não fala apenas dos conteúdos intelectuais que são ensinados aos grupos. Menciona principalmente as tarefas que realizam, como lavar a louça após o café, a venda de alimentos produzidos por eles mesmos, os conhecimentos adquiridos na aula de empreendedorismo e música.

Nas salas, não há uma disposição em fileiras das mesas e cadeiras. Segundo a professora de Ciências, Driele Correa, com exceção dos momentos em que o professor está explicando a matéria, os estudantes estão livres para se sentar em qualquer lugar ou realizar a atividade que desejarem, mas que em nenhum momento isso faz com que eles fiquem indisciplinados ou ou deixem de seguir as normas da escola.

De acordo com os princípios Montessori, todas as regras são construídas coletivamente. Durante uma assembleia com professores e alunos, há a escolha e a votação de quais são mais relevantes para a instituição e, logo após, elas são fixadas no mural para serem acatadas por todos. Segundo a coordenadora pedagógica da Casa Escola Maria Montessori, Marcia Pereira da Silva, as crianças podem fazer as atividades na sala, nos corredores, na quadra, mas, se a regra estabelecida for fazer a atividade, não há exceções.

Conforme vão avançando no curso, os alunos mais velhos começam a dar aulas para os mais novos, como uma espécie de seminário. Quando entram na última etapa do ensino fundamental, iniciam uma monografia, de aproximadamente 25 páginas, sobre qualquer assunto que lhes interesse. Para que não haja pressão, a construção do projeto é feita de maneira progressiva, uma etapa a cada ano, e com orientação individual. São os próprios estudantes que escolhem a banca avaliadora, e eles têm a possibilidade de convidar familiares. “O que a gente busca é uma educação para a vida”, diz Marcia, sobre o uso de recursos que geralmente são aplicados apenas no ensino superior. Para ela, a escola procura fazer com que os jovens “ao sair daqui, não sejam surpreendidos com o trabalho acadêmico”.

Sobre o contato com eletrônicos, diferentemente da Pedagogia Waldorf, o uso não é tão restrito, mas há orientações e limites por parte dos professores. Quando vão produzir uma pesquisa, os estudantes precisam trazer três fontes diferentes – três autores que reforcem o que eles estão afirmando -, e apenas um deles pode ser retirado da internet. Como Montessori é uma pedagogia científica, os profissionais procuram apresentar o que a ciência diz, porque, conforme explica Marcia, “a vida, hoje, passa por esse universo”.

A Casa Escola Maria Montessori adota o método desde que foi aberta, em 2001. Segundo a coordenadora pedagógica, a maioria das instituições que trabalham com Montessori encontra, nas últimas etapas da formação do aluno, dificuldades em relação à quantidade de professores e à ideia de disciplinas que a legislação ainda exige. Mas eles mantiveram o processo, inclusive fazendo o acompanhamento dos adolescentes que se formam. “Como não temos ensino médio, para comprovar se o método realmente faz diferença, todos os alunos das ‘séries’ finais fazem avaliações externas. E temos tido excelentes surpresas: as notas são boas e eles conseguem um ótimo desempenho”.

Como desvantagem, ela cita a falta de continuidade do método. Em outros países, ele é utilizado até nas universidades, o que não acontece no Brasil. Para se adaptar às exigências do vestibular, as escolas precisam fazer algumas mudanças que fogem aos princípios Montessori, mas que são necessárias para que, ao ingressarem no ensino médio, os alunos possam dar conta dos problemas. Marcia afirma que isso também acontece em função das famílias, porque, para elas, ainda é muito difícil aceitar a ideia de que “meu filho vai dar conta de passar no vestibular se não tiver prova?”. Outro ponto que ela não classifica como desvantagem, mas interesse político, é a dificuldade de implantação nas escolas públicas. “Como educadora, meu sonho é de que as universidades possam ter seus colégios de aplicação voltados para esse tipo de método, porque é de lá que saem os educadores”.

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Uma resposta para “Preparar para quê?

  1. É muito bom saber que existem esses tipos de metodologias por aqui, demonstrando que educação tradicional não é o único caminho para o futuro.

    Parabéns pela matéria!!

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