Eram muitas vezes

Ouvir histórias pode mudar o desenvolvimento das crianças e torná-las pessoas adultas mais criativas

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Além de interpretar os contos com caras e bocas, Berenice Oliveira também cria fantasias para aumentar a atenção das crianças – Foto: Colégio Santos Anjos

Por Juliana Fernandez

O sinal toca e a preparação começa. As crianças entram na sala, sentam em suas cadeiras, mas a professora não está presente, apenas são avisadas que receberão uma visita em poucos minutos. De repente, a surpresa chega vestindo um casaco todo colorido que vai até o joelho, uma cartola preta e vermelha, um sapato de palhaço e está acompanhada de uma cobra no pescoço e uma cesta cheia de livros. É assim que Berenice Oliveira surpreende seus alunos e incentiva a prática da leitura.

A professora do Colégio dos Santos Anjos, em Joinville, interpreta histórias em sala de aula desde 2006, após ter feito um curso de contação. Duas vezes por ano, ela cria projetos de leitura e fantasias com o objetivo de estimular os pequenos a conhecerem novos contos e de formas diferentes. “Amo contar histórias, pois o valor desse momento não tem igual. Ver o sorriso no rosto de cada criança, a expectativa de como será, o brilho nos olhos delas e a alegria desse momento tão especial”, comenta Berenice. Ela acredita que, a partir dessa prática, até os alunos que não gostam de ler ficam envolvidos e passam a buscar outras oportunidades: “Com todos os projetos que realizei até agora, o retorno é sempre melhor que o esperado. Elas sempre esperam algo novo e relatam o quanto gostaram perguntando se a biblioteca da escola tem o livro, se existem outras histórias parecidas com a que contei, quando irei contar outra história. Deixam claro o quanto este momento traz felicidade e alegria”.

Professora conta histórias para seus alunos em Joinville há nove anos – Foto: Colégio Santos Anjos

O ato de contar histórias apareceu muito antes da invenção da escrita e há milhares de anos essa era a única maneira de passar informações. Os povos utilizavam a oralidade para preservar sua cultura e crença de geração em geração. Os contadores precisavam ter boa memória e, por isso, a maioria dos povos tinha alguém responsável que inventava novos jeitos de contá-las e reforçar a ideia de que era necessário ouvir e lembrar das histórias. Atualmente, além de serem transmitidas oralmente, elas são escritas em livros, representadas em filmes, programas de televisão, em quadrinhos e jogos.

Embarcando na narrativa

Através da fantasia e do imaginário, a contação de histórias proporciona à criança o desenvolvimento de diversas habilidades, como atenção, socialização e enriquecimento da língua. E desperta sentimentos, ampliando os horizontes da leitura e da escrita. Porém, de acordo com a presidente fundadora da Academia Brasileira de Contadores de História, Claudete da Mata, alguns jovens leitores têm dificuldade em perceber o tema central ou as ideias principais de um texto e essa capacidade de compreensão melhora à medida que os leitores se tornam mais experientes. Tomar consciência dessa questão é algo importante para a compreensão da leitura e, por isso, é tão importante a função de um mediador no processo, que não lê e, sim, conta as histórias. “É preciso estudar os contos para tirar deles todos os elementos mágicos que o autor escreveu para o narrador oral. Conhecer cada fato da história, cada personagem, para que, na mediação da leitura, o mediador tenha a capacidade de retratar cada pedacinho da história”.

A Academia Brasileira de Contadores de História (ABCH) foi fundada em julho do ano passado, em Florianópolis, com o objetivo de formar e incentivar cada vez mais o ato de contar histórias. “Nós queremos perpetuar esta prática e para isto nós temos que ter as pessoas estimuladas a quererem participar. Às vezes quem cria, não conta as histórias e espera que alguém as conte”, explica Tânia Meyer, presidente executiva da ABCH. A criação da Academia se deu em função da falta de abertura de alguns grupos de contação: “Eu participei de vários grupos e vejo que eles se fecharam muito, se protegem demais. E comecei a me incomodar com isso e queria que a coisa se expandisse mais. Comecei a ver a Academia de Artes e Letras, e por que não uma Academia Brasileira de Contadores de Histórias para que se agregue mais e una forças?”, justifica Claudete da Mata.

Apesar dessa prática ser importante, nem todos os professores e professoras contam histórias como Berenice Oliveira. Mas para não deixar a criançada na mão, muitas escolas contratam contadores para realizarem apresentações. Felícia Fleck, formada em Biblioteconomia na UFSC, começou a contar histórias a partir de uma disciplina que teve no início do curso, chamada Biblioterapia, na qual os alunos estudavam os fundamentos da aplicação terapêutica dos livros e da leitura e aplicavam com as crianças no Hospital Universitário. “Gostei da experiência, tanto de contar e ler histórias quanto do contato com as crianças”, relembra Felícia, que fez cursos, participou de eventos da área, pesquisou sobre contadores de histórias e hoje é chamada para se apresentar em escolas e em diversos outros lugares. Ela observa ainda que a reação dos pequenos é sinceras e espontânea, e que eles costumam embarcar na narração, visualizando as imagens tecidas pela palavra, interagindo e sendo cúmplices do contador. “Eles dizem que gostaram da história contada, às vezes imaginam outras possibilidades de desfecho para a narrativa ou contam outras versões da mesma história”.

Felícia Fleck começou a contar histórias a partir de uma disciplina do curso de Biblioteconomia - Foto: Arquivo Pessoal

Felícia Fleck começou a contar histórias a partir de uma disciplina do curso de Biblioteconomia – Foto: Arquivo Pessoal

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