Estádio Sala de Aula

Professores utilizam o futebol como meio didático nas aulas de História e Geografia

Futebol sai dos estádios e entra nas salas de aula para facilitar o aprendizado de conflitos étnicos e religiosos - Foto: Luiz Antonio Ribeiro/Literatortura

Futebol sai dos estádios e entra nas salas de aula para facilitar o aprendizado de conflitos étnicos e religiosos – Foto: Luiz Antonio Ribeiro/Literatortura

Por Rodrigo Silveira Rocha

Uma bola. Vinte e dois jogadores correndo atrás daquele objeto esférico como se fosse uma caça ao tesouro. Cada um levando consigo o peso dos milhares de torcedores bradando cantos de apoio a cada acerto, e palavras que homenageiam até a sétima geração do jogador a cada erro. Uma linha tênue entre o sucesso e o desastre que percorre a mente de quem deve tomar uma decisão em frações de segundo. O lendário técnico escocês Bill Shankly eterniza esse sentimento em sua mais épica frase: “O futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”.

A energia gerada por esse turbilhão de emoções do jogo contamina a arquibancada. Os portões se abrem, as luzes se acendem, os espectadores tomam seus lugares e as atenções se voltam para um só lugar. Um universo paralelo de lazer que pode se relacionar muito com um direito básico de toda a sociedade, a educação. A rotina tradicional dos dias de jogo é vista também nas escolas. Os alunos tomam o caminho das salas de aula em seus colégios e faculdades como se fossem as rampas de acesso para as bancadas, se sentam nas cadeiras e fixam seus olhares no verde da lousa que substitui o gramado de mesma cor. A força dos dois times em campo se somam à estrela principal, que troca a bola pelo giz e a chuteira pelos livros, o professor.

A utilização do futebol nas aulas de História e Geografia pode abranger desde o ensino fundamental até cursos pré-vestibulares. A intenção é mostrar os conflitos históricos e geopolíticos da sociedade através desse esporte. “O futebol possui características únicas, com uma série de processos que constituem no desenvolvimento industrial e urbano. Envolve diferentes agentes históricos, como a classe operária, estudantes, negros, brancos, e colocam esse esporte num patamar, de entretenimento de elite, para um elemento da cultura popular brasileira”, explica o historiador Bruno Pereira Cunha, que desenvolveu um plano de aulas sobre história, futebol e violência durante sua graduação na Universidade de São Paulo (USP).

O planejamento consiste em três aulas, com o objetivo de inserir os alunos em discussões que envolvem suas realidades, abordando os direitos, a cidadania e o mundo do trabalho. Na primeira aula, deve ser feito um debate sobre o “tempo livre” dos alunos, com o intuito de mostrar a eles como o futebol pode se encaixar no contexto social. Na segunda, prevalece o uso de imagens, vídeos e músicas relacionadas à modalidade para estabelecer um sentido cultural. A terceira e última aula mostra como que a violência no futebol é um reflexo do que se passa na sociedade e não há apenas uma explicação para esse fenômeno.

Conflitos entram em campo

A religião, a nacionalidade e a política são três fatores cruciais nas relações humanas e disputas por territórios, e podem ser bem representados por clássicos europeus, campanhas históricas de seleções e a participação do governo na escolha de técnicos e convocações. Na Escócia, Celtic e Rangers fazem um duelo de católicos contra protestantes, simbolizando a tensão que existe dentro da Grã-Bretanha desde a cisão com Roma. A Copa do Mundo de 1962 teve extrema importância para a reconstrução do Chile, após um terremoto meses antes da competição, devido a união de seu povo em torno do país e da seleção. Mais um caso aconteceu no Brasil, quando João Saldanha foi retirado do comando da seleção nas vésperas da Copa de 1970, mesmo com a melhor campanha brasileira na história das eliminatórias, com seis vitórias em seis jogos e 23 gols marcados (média de 3,8 por partida). A demissão do técnico ocorreu devido a não convocação do atacante Dario, do Atlético-MG, o que era uma exigência do general Emílio Médici na época, além de outros fatores, como o fato de Saldanha ser comunista declarado.

As relações entre as associações de futebol e seus torcedores são a base para o entendimento dos confrontos de classe, étnicos e dos históricos de guerras entre países. “Trabalho a junção do esporte com fatores humanos e territoriais. Se você pensar no time como um clã ou símbolo de algo, é possível saber que tipo de pessoa se identifica pela instituição. Em qualquer grupo social há conflitos, e os mais ocultos aparecem quando falamos dessas associações com o futebol. A mudança do nome Palestra Itália para Palmeiras na década de 30 é um exemplo disso, porque a modalidade era usada para justificar o nacionalismo totalitário da época. Os nomes que faziam menção direta ou indireta à Itália, Alemanha e Japão eram proibidos pelo governo de Getúlio Vargas”, conta Raphael Zugger, professor de cursos pré-vestibulares em Campinas, São Paulo.

Nos períodos terríveis das ditaduras latino-americanas, o chileno Carlos Caszely se posicionou contra o governo de Augusto Pinochet e viu sua mãe ser presa e torturada antes da Copa do Mundo de 1978. Na Argentina, a seleção comandada por Mario Kempes e Ubaldo Fillol conquistou primeiro título mundial da história dos hermanos. No entanto, por trás do êxtase da vitória, havia a tortura cometida com os desaparecidos políticos no país. “Pretendo usar o filme ‘Os Rebeldes do Futebol’ para apontar o drama do Caszely e usarei o documentário ‘Memórias de Chumbo’ para mostrar o terror de Graciela Daleo, uma militante montonera (grupo de orientação peronista)”, explica Gustavo Gonçalves, estudante de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e estagiário do ensino fundamental do projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Quero mostrar que o Estado ditatorial é onipresente, com o poder de controlar a vida e a morte. Além de que um jogador (no caso, a mãe dele) famosíssimo e uma militante sofreram os mesmos processos de repressão e tortura”.

O futebol não é bem recebido por algumas partes da sociedade, que alegam a alienação da população através do esporte. Este argumento pode ser descontruído com um termo da própria disciplina e pela presença de modalidades esportivas desde o auge das civilizações grega e romana. “Acredito demais na ação de cada pessoa na história e o termo agência caracteriza exatamente isso. Se futebol fosse ‘pão e circo’, com o sentido de ludibriar a população, estaria negando a existência humana com suas vontades e seus anseios, que é a própria agência”, diz o estudante da UFRGS. “O esporte está ligado com as questões sociais desde a antiguidade clássica, e é claro que já foi usado no intuito de atrair as massas, mas traduzir o futebol apenas como ‘pão e circo’ é reducionismo barato”, finaliza o professor Raphael Zugger.

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