“Eu tô aqui pra não tá em casa e dá ruim”

Projeto no Monte Cristo apresenta esportes radicais como alternativa para adolescentes em vulnerabilidade social

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Por Victor Lacombe

Os quatro adolescentes se amontoam num lado da quadra. Eles riem, brincam e se cutucam, nervosos. Os skates nos seus pés raspam um contra o outro, até que um deles resolve sair. De repente, a pequena quadra no alto do morro se enche do som das rodinhas sobre o concreto e dos gritos dos outros meninos. O professor acompanha todos os movimentos em cima do seu próprio skate, com uma câmera GoPro na mão. O menino acelera, seus joelhos se dobram em preparação e, num momento, skate e menino estão suspensos no ar… E, no momento seguinte, no chão.

Agora, risadas e o skate do professor são os únicos sons da Praça do Canto, no bairro da Coloninha. É lá que acontecem algumas das aulas do Projeto Fênix, iniciativa que traz esportes radicais para adolescentes das comunidades que formam o bairro do Monte Cristo, periferia pobre de Florianópolis. A iniciativa é oferecida pelo Centro de Educação e Evangelização Popular (CEDEP), organização que atua ali.

“O quê que o moleque quer? Adrenalina”, pergunta e responde Claudio de Souza Sonhador, idealizador, diretor, e o único professor do Projeto Fênix. Ele me recebe em uma sala de dança do CEDEP, bem iluminada por quatro janelas com vista para a comunidade. Claudio gesticula para fora: “Mas aqui você não vê pista de skate. Você vê outras coisas”. A frustração no rosto do carioca de 30 anos não deixa espaço para ambiguidades: “O moleque tá vidrado naquilo. No risco, na adrenalina de pegar no fuzil. Aí a gente bota ele pra descer o morro de skate, e a gente dá essa adrenalina”. Além do skate, a iniciativa oferece outros esportes, como surfe e tirolesa. Mas como essas atividades precisam ser realizadas fora do Monte Cristo, elas acabam acontecendo só uma vez por mês, por falta de verba de realizar as saídas.

Educação através dos esportes

O Projeto Fênix começou quando Claudio chegou a Florianópolis, em agosto de 2013. Ele veio para acompanhar a mulher, que faz Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Aqui, ele começou sua graduação em Educação Física pela Univale, faculdade que paga com o salário do CEDEP. “Eu me sustento com isso aqui. A gente precisa mostrar pra eles que existem alternativas, que dá pra ganhar dinheiro trabalhando com isso”. Já tendo trabalhado como educador social em projetos de Vitória (ES), ele propôs a iniciativa à coordenadora do CEDEP, Maria Marlene da Silva, que concordou em tentar. “É difícil, porque é um projeto caro”, ressalta ela. “Tem que comprar skates, pranchas [de surfe], tem que organizar excursões. Por isso, estamos inscrevendo [o Projeto Fênix] em editais, buscando doações”.

Publicidade não falta: em junho, o projeto foi tema de uma matéria do Jornal do Almoço, e em agosto ganhou um prêmio do Instituto Guga Kuerten. Com mais doações, tanto Claudio quanto Maria Marlene esperam poder realizar mais saídas: “As saídas mexem muito com o jovem”, conta a coordenadora. “Ele se sente parte de algo. A partir daí a gente pode trabalhar, mostrar que ele também pode ir pra uma universidade, por exemplo”. Claudio se alegra quando fala dessas experiências: “Tem moleque que morou aqui a vida toda, mas nunca foi pra Lagoa. Nunca surfou. A gente tem que trazer isso pra eles”.

 

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Os adolescentes são atraídos pela promessa de adrenalina e aprender esportes radicais – Foto: Claudio de Souza Sonhador/Projeto Fênix

O professor se lembra de quando começou a divulgar o projeto. “A gente saiu de porta em porta, convidando a galera pra oficina de skate, slack line, até grafite. Começou meio devagar, a galera tem receio de vir pro CEDEP”. Quando pergunto como é o movimento hoje, Sonhador abre um sorriso. “Hoje o Fênix tá massa, dá muito orgulho. O projeto é referência na comunidade e em Floripa. A gente faz a parada com amor”.

Maria Marlene também fala desse receio da juventude de participar de projetos sociais como o CEDEP: “O Fênix começou com essa preocupação, trazer o menino que tá na rua. Muitos deles não se interessam pelas atividades que o CEDEP oferece, ou achavam que frequentar o centro era um mico. Com o Fênix, a gente usa a adrenalina pra mostrar que eles podem pertencer, podem se empoderar”.

Disputa pelo espaço

Claudio também trabalha a reflexão nas suas aulas de skate, em especial a respeito de questões urbanas de espaço e direito à cidade. “O skate tem a ver com cultura urbana. Nossa sala de aula é a rua e, quando acontece alguma coisa, a gente tenta refletir sobre isso. Uma vez a gente tava lá, e fomos parados pela polícia. Eles ameaçaram a gente, disseram que  iam pegar os skates e levar na delegacia. Depois levamos isso pra roda: Por que isso aconteceu? Será que a gente não pode andar de skate na rua? Por quê não?”.

Essa não é a única história de violência policial que o professor tem pra contar. O CEDEP fica em uma rua que faz esquina com o 22º Batalhão de Polícia Militar, e Claudio se lembra de uma vez em que um dos meninos do projeto “foi mexer” com a polícia. Minutos depois, uma viatura apareceu no centro, e dois policiais desceram com pistolas armadas e apontadas para o educador. “Essa é a abordagem que eles fazem na comunidade”. Também não foi a primeira vez que Claudio ficou sob a mira da PM enquanto trabalhava: em outra ocasião, a polícia o abordou no meio de uma das aulas de skate, em uma praça pública, porque moradores ligaram para reclamar dos adolescentes. “Eles chegaram com o fuzil apontado pra mim. Eu tava com a camiseta do projeto, tava dizendo pra eles ‘abaixa isso aí’”.

Correndo o risco de tomar tiro

Depois de quase uma hora de prática de skate, o grupo se senta pra comer o lanche que trouxeram do CEDEP. Nescau, banana e biscoitos de água e sal são divididos enquanto os meninos descansam. Nessa manhã nublada de segunda-feira, são quatro, movimento normal para manhãs, diz Sonhador. “A tarde é que bomba. Vem vinte, trinta guris.” O Projeto Fênix conta com 50 estudantes regulares, que tem aula pelo CEDEP. Mas através de parcerias com escolas públicas e outros projetos, Claudio calcula que são oferecidas aulas para, no mínimo, 150 adolescentes por semana.

Luís Henrique Bernardes é um desses estudantes. Ele tem 14 anos e mora no Monte Cristo, e conta que começou a fazer aulas por causa de amigos. “Eu venho pra andar de skate, senão eu fico em casa e dá ruim”, conta. Pergunto se ele já foi expulso de algum lugar por causa do skate. Ele faz que sim: “Eles falam que o skate vai estragar a tinta da quadra. A gente diz que não, diz que não quer ir embora, mas eles iam chama os cara pra cima da gente. Aí a gente tem que sair”, diz Luís Henrique, se referindo à polícia.

Claudio abre um sorriso triste. “Estragar a tinta. Essa é a mais velha que tem. Eles [os moradores] vêem skate como coisa de marginal, sabe?”. O professor tenta manter um equilíbrio quando discute esses assuntos com os alunos, procurando ensinar uma forma de evitar conflitos sem abaixar a cabeça. “A gente tem que tentar entender. É a calçada de alguém? Tudo bem, tem que sair. Mas na praça?”. Claudio hesita. “Eu corro risco de tomar um tiro. Sei disso. Mas não consigo não fazer. Não consigo ficar sentado”.

No final da aula, quando o grupo começa a subida de volta para o CEDEP, o educador é abordado de novo. Mas dessa vez quem o aborda é um menino, de sete ou oito anos, que quer saber como fazer pra participar das aulas.

Sonhador abre um sorriso esperançoso.

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