Prefeitura ou Prefs?

Redes sociais de instituições públicas geram debate sobre incorporar ou não a linguagem da internet

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Por Victor Lacombe

São sete da manhã. O expediente começa as oito, mas o post já está pronto: na montagem, o personagem Goku, do popular anime DragonBall Z, aparece gerando luz em um ponto de ônibus. A legenda diz: “Nova iluminação nos pontos de ônibus, que é pra você ficar mais seguro”.

O meme (piada viral que se espalha pela internet) foi publicado pela página da Prefeitura de Curitiba no Facebook, e representa uma tendência: são várias as instituições que optam por uma linguagem descontraída na gestão de suas redes sociais, entre elas a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para alguns, os posts sobre assuntos importantes, quando trazidos de forma leve e através de referências da cultura da internet, facilitam o acesso do cidadão. Para outros, a prática dispersa, e abre espaço para desrespeito e falta de cidadania.

“Perfumaria virtual”

Mais de 700 mil curtidas. Essa é a quantidade de pessoas que acompanham a página oficial da Prefeitura de Curitiba no Facebook. Páginas das outras capitais do sul não chegam nem perto: Florianópolis tem 80 mil; Porto Alegre, 23 mil. Até São Paulo, a maior cidade da América Latina, só consegue 152 mil curtidas.  Se todos os fãs morassem na capital paranaense, seriam 40% da população.

Victor Lacombe

Por Victor Lacombe

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Mas, para alguns, o problema é justamente esse: apenas um terço das curtidas são de moradores de Curitiba, de acordo com dados oficiais da página. Em outubro, as prefeituras de São Paulo e Curitiba chegaram a entrar em conflito a respeito dessas maneiras diferentes de gestão. Respondendo a um comentário de uma estudante a respeito do tema, a equipe de comunicação da capital paulista escreveu que “acreditamos que administração pública não é entretenimento (…) temos certeza que grande parte das pessoas que curtem a página de Curitiba não moram lá, portanto não se interessam se aqueles memes representam alguma mudança real na vida delas ou se são apenas perfumaria virtual”.

Quando solicitada uma entrevista, a equipe de São Paulo respondeu, pela página do Facebook, que “a política em São Paulo é jogo duro, e uma entrevista dessas poderia causar problemas pra gente”. Esse argumento também foi utilizado em outubro: “São Paulo é uma cidade um tanto mal-humorada e tem uma imprensa que não curte nada essa gestão, portanto, qualquer piada pode virar uma polêmica gigantesca”.

Curitiba, capital da internet

Janaína Santos, analista de mídias da Prefeitura de Curitiba (ou prefs, como foi carinhosamente apelidada) discorda da posição de São Paulo: para ela, o entretenimento pode vir como forma de informação. Graduada em publicidade, Santos trabalha com mídias sociais desde 2006, e na Prefeitura de Curitiba há um ano. Para ela, a política de utilizar a linguagem da internet trouxe bons resultados: “Temos repercussão nacional. Gerimos a página com a ideia de que o cidadão não tem que se aproximar da prefeitura; a prefeitura é que precisa se aproximar do cidadão”, conta ela por Skype.

Quanto às críticas de que a maior parte dos fãs não mora em Curitiba, Janaína não considera isso um problema. “A maior parte dos curitibanos não nasceu em Curitiba. Quando nos comunicamos com o cidadão, nos comunicamos também com outras pessoas que tem interesse em se mudar pra cá, além de estimular o turismo e a troca de informações entre instituições públicas de todo o Brasil”. Para ela, essa troca de informações é essencial: “Poucas instituições apostam nas mídias sociais como ferramenta, principalmente porque é difícil lidar com as críticas nos comentários”, afirma. “Aqui em Curitiba, temos uma equipe de atendimento que é maior que a equipe de conteúdo. Perguntamos se a pessoa já foi atendida antes, se houve resposta. Depois, direcionamos as reclamações e pedidos para as secretarias municipais responsáveis”.

“Piada tem hora e lugar”

A decisão da Prefeitura de Curitiba, entretanto, não é unânime. Algumas instituições buscam manter a distância e a  formalidade, como a Prefeitura de Florianópolis. Marcos Zanfra, 59 anos, é diretor de apoio e mídias da capital catarinense. Jornalista formado pela Cásper Líbero em 1977, Zanfra trabalhou por vinte e cinco anos como repórter: sua parede é salpicada de recortes de antigas reportagens policiais da Folha de S. Paulo, escritas por ele próprio. Segundo o assessor, piada não tem vez em comunicação institucional: “Somos um órgão público, o que acarreta uma formalidade. Sem formalidade, não há respeito”. Quando perguntado se havia uma preocupação com a mídia, como em São Paulo, Zanfra é categórico: “Precisamos ter a melhor repercussão possível. Utilizar memes seria dar mais combustível para a imprensa, jogar lenha na fogueira”. Na opinião do jornalista, “ninguém te critica por ser sério demais. Mas todos te criticam por ser engraçado demais”.

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