2 + 3 = 2,5 A conta positiva dos empreendedores sociais

Empresas buscam promover transformação social e ao mesmo tempo obter retorno financeiro, usando a tecnologia e as novas mídias

Aliando o espirito empreendedor com o social, novos negócios são criados como forma de resolver um problema da sociedade e ganhar dinheiro - Imagem: Alphaspirit Fotolia.com

Aliando o espirito empreendedor com o social, novos negócios são criados como forma de resolver um problema da sociedade e também ganhar dinheiro – Imagem: Alphaspirit Fotolia.com

Por Joelson Cruz Cardoso

Com o desenvolvimento da tecnologia, muitos empreendedores passaram a criar novos modelos de negócios. Por outro lado, também surgiram aqueles que se utilizam da inovação para agirem socialmente. Em meio a isso, há os que resolveram aliar esses dois pontos e se tornarem inovadores sociais. São empreendimentos que causam impactos transformadores com a missão de resolver problemas da sociedade ao mesmo tempo em que geram resultados financeiros. Esse modelo crescente no Brasil também é chamado de Setor 2,5 (leia-se dois e meio), uma referência ao que seria uma união entre as características do segundo setor, o privado, voltado ao lucro, e do terceiro setor, de organizações sem fins lucrativos marcados pela atuação social.

“Um projeto inovador social é aquele que ajuda a resolver uma demanda da sociedade nas mais diferentes áreas, como educação, saúde, mobilidade, meio ambiente. E que tenha uma proposta diferenciada, atingindo mais pessoas, usando uma tecnologia para chegar até mais gente e feito de uma forma diferente”, explica a coordenadora da organização Social Good Brasil (SGB), Bárbara Bastos. São pessoas que querem ter seu próprio negócio, mas simultaneamente se dedicar para resolver problemas que os inquietam, buscando a inclusão de pessoas com maior dificuldade de acesso a certas estruturas e serviços, a sustentabilidade ambiental e a transformação social. Um perfil traçado pelo SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), aponta que a maioria desses empreendedores são jovens, mas isso vem mudando. Outra característica importante é o uso das mídias digitais para promover e difundir seus projetos.

Empoderamento dos pacientes

Depois de um trabalho voluntário em um asilo, onde ajudava os idosos a mexer na internet e no computador, Morris Litvak, de São Paulo (SP), passou a se sensibilizar com a questão. Após deixar o emprego, resolveu fazer do seu ativismo um negócio social. Ele tem se dedicado atualmente ao desenvolvimento do MaturiJobs, uma plataforma que visa ajudar pessoas acima de 50 anos a se recolocarem no mercado. “Vejo essa necessidade como um enorme desafio e ao mesmo tempo uma grande oportunidade, mas sempre com o propósito de levar qualidade de vida às pessoas através do envelhecimento ativo. Essa é uma premissa importante do negócio”, diz o empreendedor. O projeto está sendo testado em diferentes maneiras. A ideia é fazer a ponte entre os cadastrados que oferecem um serviço pelo site com quem queira contratar, fornecendo toda a estrutura tecnológica e também ajudando na divulgação. O interesse já pode ser percebido nas mais de 1700 pessoas cadastradas na plataforma.

Recém-formado em Medicina, Rogério Malveira, de Fortaleza (CE), via durante a faculdade que muitos pacientes não entendiam o que o médico falava ou escrevia, seja pelos termos técnicos, letra pouco legível ou mesmo pelos muitos medicamentos prescritos. Incomodado com o problema, convidou sua amiga, a publicitária Carla Tenecy, para desenvolver o projeto Letras de Médico, um software que gera uma receita médica inovadora com um design de informação e imagens, organizadas em horários e pictogramas. Possui ainda uma linguagem acessível, como usar “tomar pela boca” ao invés de “uso oral”, por exemplo. “Ele tem como objetivo empoderar pacientes por meio de informação médica adaptada, respeitando as limitações de cada um”, conta a sócia Carla. O produto ainda está funcionando em caráter de teste. Depois dessa fase, estará disponível para compra por meio de plano de assinatura, podendo ser comercializado para clínicas, hospitais e principalmente para o SUS (Sistema Único de Saúde). “Nosso objetivo é proporcionar a todos os pacientes uma comunicação em saúde prática e efetiva”, acrescenta Carla. Os dois amigos acreditam ainda que os benefícios não se restringirão aos pacientes. “A longo prazo, esperamos impactar nos gastos em saúde, pois haverá maior adesão ao tratamento, levando a menor taxa de retorno e menor índice de complicação. Então, ganha o médico, por ter seu trabalho otimizado, o paciente, por se empoderar do seu tratamento e o Estado por realocar os gastos desnecessários em saúde”.

Aplicativo utiliza pictogramas para auxiliar na compreensão das receitas médicas - Imagem: Divulgação Letras de Médico

Aplicativo utiliza pictogramas para auxiliar na compreensão das receitas médicas – Imagem: Divulgação Letras de Médico

Outro exemplo interessante é o PlayTable, criado em Blumenau (SC). É uma mesa digital com jogos educativos e aplicativos tecnológicos, baseados nas diretrizes curriculares do MEC (Ministério da Educação), projetado por professores e especialistas das diferentes áreas do ensino, junto com uma equipe de artistas alinhados com a ludopedagogia. A ideia surgiu em um restaurante, quando o idealizador do produto, Marlon Souza, observou uma criança mexendo em um tablet, enquanto outras saíram de suas mesas para vê-la brincar no objeto. Então pensou em algo parecido que pudesse ser de uso coletivo e no formato de uma mesa. A PlayTable é projetada para ser usada nas salas de aula com crianças de três a 10 anos de idade. “O professor ganha uma moderna ferramenta, dentro da linguagem das crianças e com análise de desempenho, e proporciona aos seus alunos momentos ricos de aprendizagem através de atividades e jogos divertidos, priorizando o uso em grupos, onde várias crianças podem brincar ao mesmo tempo”, descreve Souza. O produto é comercializado para redes de ensino, tanto do setor público quanto do privado e não necessita de conexão com a internet para funcionar.

Projetada para ser usada nas salas de aula com crianças de três a 10 anos de idade, o PlayTable é uma mesa infantil touch screen com jogos e aplicativos tecnológicos educativos, com conteúdos como Português, Matemática e Ciências - Foto: Divulgação Play Table

Projetada para ser usada nas salas de aula com crianças de três a 10 anos de idade, o PlayTable é uma mesa infantil touch screen com jogos e aplicativos tecnológicos educativos, com conteúdos como Português, Matemática e Ciências – Foto: Divulgação Play Table

Ecossistema de apoio

Nessa cadeia de investidores sociais, surgiram nos últimos anos organizações e associações dispostas a ajudar, proporcionando suporte e um time de mentores para apoiar no desenvolvimento dos projetos. Elas oferecem capacitação, treinamento, orientações, pontes com potenciais investidores, clientes e parceiros. “Tem todo um ecossistema de apoio aos empreendedores sociais. A gente procura estar sempre em contato com eles, mas cada um faz o seu papel”, comenta Bárbara Bastos. Essas entidades se sustentam através de doações, patrocínios de grandes empresas, apoio de fundações e pela prestação de serviços.

A Social Good Brasil, que opera no país desde 2013, por exemplo, atua no início dos projetos. Ela oferece o SGB Lab, um espaço para o desenvolvimento e aprimoramento das ideias. Durante quatro meses os empreendedores recebem orientações de como aplicar o seu negócio, a viabilidade, modelos de atuação, fazem testes e criam os protótipos. Para participar é preciso ter impacto social, fazer uso da tecnologia e passar pelos desafios propostos. Em 2015, foram 401 inscritos. Desses, 50 foram selecionados e 35 chegaram ao final do programa. “O nosso objetivo não é apoiar todo o projeto. A gente atua nesse momento da ideia, que sabemos que é difícil, a tirar do papel e botar realmente para rodar”, esclarece Bárbara. Os interessados pagam um valor de inscrição que vai para um fundo e retorna em forma de premiação de um investimento semente para os três projetos escolhidos por uma comissão julgadora e pelo público no seminário realizado anualmente pela SGB. O Letras de Médico foi um desses vencedores deste ano, ao lado do Cientista Que Virou Mãe, de Florianópolis, e Praças, de São Paulo.

Já os projetos em funcionamento podem contar com o apoio das Aceleradoras. São organizações que ajudam no crescimento do negócio, preparando para melhorar e alcançar resultados econômicos e sociais em larga escala e atrair investidores. Esse acompanhamento acontece em reuniões, orientações e ajuda de mentores. O tempo de duração varia de três meses a dois anos, dependendo da rede. O PlayTable participou do programa de aceleração pela Artemisia, de São Paulo, no segundo semestre deste ano e sentiu as mudanças na sua atuação. “Serviu para nos prepararmos melhor em processos e também para ajustarmos nosso foco cada vez mais para o impacto social que causamos com nosso produto”, avalia Marlon Souza.

Com um modelo de negócio consolidado e sua importância reconhecida, os projetos podem ganhar o apoio dos Investidores. São empresas ou fundações que injetam dinheiro no negócio. Elas podem querer obter retorno com lucro na parceria ou ser apenas um empréstimo ou doação, depende da natureza de atuação do empreendimento.

O Instituto Quintessa, que atua nos programas de aceleração, lançou recentemente o Guia 2,5, um documento que reúne uma série de informações sobre as organizações, análises comparativas, detalhes sobre o funcionamento de cada uma e os tipos de suporte que oferecem. “Acredito que a tecnologia está permeando todas as esferas da sociedade atual. Empresas inovadoras, como é o caso de projetos sociais, utilizam esse recurso para conseguir aumentar suas operações e também obter eficiência, além de gerar modelos de negócios inovadores”, destaca a representante da rede, Luisa Coutinho. Mas, nessa cadeia, o maior beneficiado, sem dúvida, são as pessoas que veem suas vidas transformadas, seja fazendo o bem ou se beneficiando dessas ideias.

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