Armário dos sonhos

Roupas para pessoas com deficiência facilitam no dia a dia, mas  o preço afasta os principais interessados

Lojas de roupas raramente possuem seção para pessoas com deficiência e nos provadores falta acessibilidade - Foto: freeimage.com

Lojas de roupas raramente possuem seção para pessoas com deficiência e nos provadores falta acessibilidade – Foto: freeimage.com

Por Ana Carolina Prieto

Passear por uma loja de roupas pode tomar tempo suficiente para irritar ou encantar algumas pessoas pela quantidade de itens oferecidos, mas uma grande parcela da população é esquecida quando o quesito é moda e praticidade. “A calça machuca na parte do botão, gruda no corpo, desliza pela cadeira. Se a calça está apertada, é ruim, mas, se está larga, é pior ainda, porque engancha na roda. As blusas atrapalham o movimento do braço e escorregam pelos ombros.” Essas declarações resumem as reclamações de 38 pessoas com deficiência física que participaram de uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sobre a necessidade de roupas inclusivas.

A calça jeans foi a grande vencedora das queixas na dissertação “Gestão de Design para Moda Inclusiva: diretrizes de projeto para experiência do usuário com deficiência motora”, desenvolvida pela pesquisadora Bruna Brogin no Programa de Pós-Graduação em Design Gráfico. Isso ocorre porque essa vestimenta é considerada um “objeto” de transferência entre uma superfície (possivelmente da cadeira) e outra. Assim, 71% julgaram a calça jeans como um problema por não ter espaço para bolsas de coletas, o cós da frente embola e machuca e a maioria dos modelos é skinny (justo ao corpo), o que leva ao inchaço e ao incomodo nas pernas.

Os aviamentos – como botões e zíperes – também receberam um grande número de reclamações. “Eu evito comprar calças que tenham muitos botões, inclusive na barra, principalmente para não enganchar na cadeira ou dificultar a transferência”, explica Elias Maltez, mestrando em Engenharia Mecânica, que sofreu um acidente de moto em 2009.  Na pesquisa de Bruna Brogin, os botões tiveram 60% de rejeição e os zíperes, 50%, devido à dificuldade de se abrir e fechar quando a pessoa tem movimento reduzido dos membros. Para isso, foram desenvolvidas roupas que abrem e fecham com o uso de velcro, que, além de facilitar, machuca menos o usuário.

Um outro problema que ocorre, muitas vezes, é a falta de circulação sanguínea nas pernas de pessoas que precisam da cadeira de rodas. Assim, uma calça térmica foi elaborada a fim de atingir a temperatura corpórea necessária para manter a circulação natural. Porém, um produto deste só pode ser adquirido no Brasil através de importação e a um custo aproximado de 300 reais.

A solução tecnológica e econômica pode vir de boas ideias. A fisioterapeuta Dariene Rodrigues trabalhou por 15 anos cuidando de pessoas com deficiências e idosos e decidiu criar a primeira loja online de vestimentas inclusivas do Brasil, a Lado B da Moda. “A inclusão total depende de um conjunto de ações que permita a integração com a sociedade. Precisamos de rampas, órteses e próteses, mas significa também dar a opção de escolha: de onde ir e, claro, do que se vestir”, justifica a motivação para ter desenvolvido a loja virtual.

No site, é possível encontrar os mais variados produtos, como acessórios (bolsas, chinelos, etiquetas em braile), linhas ortopédicas (andadores e barras de apoio), além das vestimentas para homens e mulheres, com calças, bermudas e camisetas disponíveis. Um dos pontos mais importantes é o preço um pouco mais acessível: a maioria das roupas custa a metade das importadas.

Quando se pensa em tecnologia, logo vem a cabeça tablets, smartphones e outros, porém os pequenos itens acabam sendo esquecidos ou tirados dessa “prateleira” tecnológica. Mas Dariene lembra que são esses pontos, como inserção do velcro nas roupas, uso de tecidos diferenciados e calças/bermudas com aberturas laterais que ajudam o dia a dia de uma pessoa com deficiência. “Temos sempre que realizar pesquisas, confeccionar e adaptar as modelagens, testar os tecidos e suas lavagens. A nossa preocupação é associar a função, tecnologia, conforto e beleza das peças.”

A pesquisadora Bruna Brogin explica que a maior dificuldade das pessoas com deficiência é encontrar roupas que agreguem beleza e funcionalidade. “Eles não querem uma vestimenta que todos os identifiquem como pessoas com deficiência, isso acaba sendo uma forma de exclusão também.”

Para Bruna, as lojas e indústrias precisam analisar qual seria o seu público específico. Antes de iniciar uma produção, o melhor seria fazer uma pesquisa de mercado e um mapeamento com os consumidores para saberem suas maiores necessidades. Para Elias, a calça que não aperte o cós já seria uma grande evolução no seu conforto.

Já para Roberta Oliveira, que tem a deficiência congênita Artrogripose – síndrome que causa contraturas de várias articulações -, roupas de tecidos mais maleáveis e moles seriam o ideal, além de casacos com zíper, ao invés dos blusões geralmente vendidos. A desenhista conta que prefere comprar roupas sozinha, mas, às vezes, necessita de ajuda de algum vendedor, já que os provadores raramente são acessíveis.

Nova geração

Os jovens também vêm encontrando maneiras de ajudar essa parte da população não contemplada pela moda. Em Santa Catarina, o Prêmio Brasil Sul Moda Inclusiva  atingiu sua terceira edição e foi realizado no dia 10 de dezembro, no Centro Sul, em Florianópolis. Lá, os estudantes e egressos dos cursos de Moda e Design do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul puderam apresentar as novas tendências nesse setor e estimular uma moda mais abrangente.

Foi o caso do designer Diego Luis Sauer, vencedor da edição passada do Prêmio e finalista em 2015, que utiliza o princípio do “design universal” para atender a todos os tipos de deficiência e levando em consideração a questão da moda: “Pessoas com deficiência física frequentam baladas, pubs e shows e não gostam de ser tratadas como diferentes. Como moda inclusiva, ela tem de abranger a todos”.

Designer Diego Luis Sauer exibe sua vitoriosa coleção de roupas inclusivas durante o desfile na edição passada do Prêmio Brasil Sul Moda Inclusiva. Foto: Carlos Alberto Alves

Designer Diego Luis Sauer exibe sua vitoriosa coleção de roupas inclusivas durante desfile na edição passada do Prêmio Brasil Sul Moda Inclusiva. Foto: Carlos Alberto Alves

Durante a realização do Prêmio, os finalistas apresentaram seus croquis em um desfile. Diego esclarece que o seu foi baseado no glamour de uma festa noturna. Já Fernanda Oliveira, estudante de Desenho Industrial – Design da Moda, da PUC do Paraná, decidiu voltar sua coleção para um vestuário casual, específico para pessoas que tenham nanismo. De acordo com Fernanda, ao contrário do que muitos pensam, estes consumidores não conseguem usar roupas infantis, porque, apesar da baixa estatura, a estrutura física do corpo é de um adulto, com quadris e troncos largos.

“Para mim, a moda é uma forma de comunicação. Acredito que ela pode mudar a qualidade de vida das pessoas com deficiência, além disso, eles não devem se adaptar as roupas e sim elas se adaptarem a nós”, observa Fernanda, que garante que a participação no concurso é uma grande gratificação e um incentivo para que a moda inclusiva continue crescendo.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s