Futuro que vem do passado

Futebol pode aprender com o rugby, seu esporte de origem, sobre o uso da tecnologia para auxiliar a arbitragem

O esquecido rugby pode ser o modelo de uso de imagens para auxiliar as decisões da arbitragem no futebol - Foto: David Davies/PA Wire

O esquecido rugby pode ser o modelo de uso de imagens para auxiliar as decisões polêmicas no futebol – Foto: David Davies/PA Wire

Por Rodrigo Silveira Rocha

Foi gol ou não foi? Será que o atacante estava impedido? A bola saiu inteira ou não saiu? Todos esses lances duvidosos são discussões que consomem horas da programação diária de um canal esportivo, duram toda a semana nas conversas de bar e, dependendo da proporção do jogo, podem ficar remoendo na memória de muitos torcedores por anos e anos. Porém, o intervalo de tempo para os profissionais que devem tomar essas decisões não se estende por anos, nem dias e nem horas. São frações de segundo para a arbitragem ver o lance, processar a imagem do acontecimento, analisar se houve infração e soar o apito ou levantar a bandeira. Mais rápida ainda é a reação das dezenas de milhares de torcedores que, se pudessem, invadiriam o campo para começar um episódio semelhante a uma Malhação de Judas.

Estar atento a todas as jogadas sem perder nenhum momento da ação é praticamente impossível para um árbitro de futebol, mesmo com seus dois auxiliares laterais. O juiz pode ser atrapalhado por um jogador bloqueando seu campo de visão e pelo seu mau posicionamento em campo para acompanhar o lance, estando longe da ação. Para ajudar a corrigir esses equívocos, o futebol poderia se aliar com uma das áreas que demonstra mais evolução no mundo: a tecnologia. O que os olhos do árbitro não percebem, as câmeras captam em diferentes ângulos e velocidades, e apontam onde estava o erro na decisão que ele havia tomado.

Quando se fala em tecnologia no esporte, os exemplos clássicos são os esportes americanos (beisebol, futebol americano e basquete), o tênis, o judô e o vôlei. Entretanto, as atenções nunca se voltam ao rugby, modalidade que originou o futebol e usa o recurso para revisão de decisões desde 2001 na Rugby Union, praticado com 15 jogadores, e desde 1996 na Rugby League, estilo com 13 jogadores. As partidas oficiais contam com um árbitro oficial de vídeo, e cabe ao juiz principal o pedido para revisar jogadas duvidosas que resultam em pontuação. Nenhum dos times tem o direito de “desafiar” as decisões tomadas em campo.

O exemplo está em casa

Diferentemente do futebol – onde apenas as competições organizadas pela FIFA fazem o uso, ainda que de forma restrita, da tecnologia -, o rugby consegue espalhar esse recurso para campeonatos além de sua Copa do Mundo. Em 2011, a final do Super 10, o Campeonato Brasileiro de Rugby, contou pela primeira vez com o quinto árbitro, que ficou em uma cabine de transmissão e teve as imagens do jogo disponíveis para corrigir possíveis indecisões. Além disso, o juiz usou um microfone aberto para a transmissão, permitindo que os espectadores ouvissem as informações e advertências passadas aos jogadores, e as consultas à mesa de arbitragem. “Acho que a implementação disso no Brasil foi um grande passo e mostrou como a tecnologia e a arbitragem podem caminhar juntas em prol do esporte e de decisões mais justas. O recurso da televisão é fundamental, porque existem várias situações de try que você não vê. Então, acredito que o recurso que a gente usou pela primeira vez no Brasil foi fundamental”, diz Xavier Vouga, diretor de arbitragem da Confederação Brasileira de Rugby (CBRu).

Algumas iniciativas ainda encontram resistências entre os mais poderosos dirigentes. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o ex-árbitro Leonardo Gaciba apresentaram propostas à FIFA, mas ambas foram recusadas. Em seu projeto deste ano, a CBF sugeria a utilização do recurso em situações que resultavam em gol ou pênalti, analisando se a bola havia saído ou não, impedimentos e após lances claros de falta ignorados pela arbitragem. No documento enviado em 2006 pelo então árbitro, os replays seriam usados em até quatro lances por jogo, seguindo o mesmo padrão da CBF. Cada treinador teria dois “desafios” e a cada erro, perderia uma de suas cinco (e não mais três) substituições.

Os recursos informatizados para ajudar a arbitragem no futebol começaram a ser usados em 2012, no Mundial de Clubes da FIFA. No entanto, o árbitro não tinha acesso as imagens para conseguir esclarecer a decisão, em caso de dúvidas. A organização utilizava um sistema com câmeras, chamado de Hawk-Eye, e um chip colocado na bola, denominado Goal-Ref, que trabalhava em conjunto e emitia um alerta para o relógio do juiz se a bola havia entrado ou não. Posteriormente, essa tecnologia foi usada na Copa das Confederações em 2013 e na Copa do Mundo de 2014.

O torneio da África do Sul em 2010 foi determinante para a aceitação do auxílio, que contou com erros grosseiros da arbitragem. “O Tévez fez um gol que o juiz validou, colocaram a imagem do lance no placar do estádio que mostrava o impedimento claro e, mesmo vendo o replay, ele não voltou atrás. Todo mundo que estava lá viu, ele, os atletas e os torcedores. Para mim, foi um momento bastante significativo para mostrar a utilidade da tecnologia do futebol”, afirma Miki Kisenvole, estudante de Jornalismo e árbitro das categorias de base do Campeonato Catalão durante sete anos.

Mudando sem perder o brilho

Durante a Copa do Mundo de Rugby deste ano, realizada na Inglaterra, a polêmica envolvendo as revisões de jogadas era sobre o tempo que elas tomavam da partida. No jogo entre Inglaterra e Fiji, o relógio ficou parado por 10 minutos até que o árbitro Jaco Peyper analisasse as seis infrações que deixaram dúvidas. Em uma nota de esclarecimento, John Jeffrey, presidente da comissão de arbitragem do evento, explicou que todas as pessoas envolvidas no processo, entre árbitros de campo e de vídeo, técnicos de imagem e produtores de televisão, estão trabalhando para evoluírem nesse quesito.

A perda da emoção e do calor da partida preocupa os aficionados tanto do rugby quanto do futebol, mas para os que participam efetivamente do jogo, as pausas para as revisões não atrapalharão o clima de ambos esportes. “Os recursos eletrônicos não tiram o ritmo. Não tem como brigar com a imagem. O objetivo do vídeo é fazer a justiça. No calor do jogo é difícil analisar uma jogada mais duvidosa. Com o replay, o árbitro pode analisar melhor a situação”, explica Antonio Martoni, comentarista de rugby dos canais ESPN e ex-presidente da CBRu. “Eles não vão fazer replay de tudo, é só ter um cara que fica com os replays e em caso de dúvida, o juiz pode perguntar ‘foi pênalti ou não?’. Não vejo porque atrapalharia”, completa o estudante e árbitro Miki Kisenvole.

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