Depoimento: Aline Pina

 

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Foto: Carla Raiter

“Eu chorava e pedia para não me amarrarem porque queria segurar minha filha quando ela nascesse. Não me deram ouvidos” (Aline Pina)

Priscila Ribeiro dos Santos Jansen

Por falta de dinheiro, Aline Pina escolheu um hospital público para o nascimento de sua filha Lara. Fez o pré-natal com uma obstetra e professora da UFSC, em consultas particulares, mas teve que optar pelo Hospital Universitário para realizar o parto, que já estava todo planejado: Aline queria parir de cócoras, com o mínimo de intervenções possível, escolha apoiada pela obstetra que a acompanhou durante toda a gestação. Ao dar entrada no HU, os médicos quiseram aplicar a ocitocina na gestante. “Eu não queria porque sabia que não tinha necessidade, eu estava tranquila, estava evoluindo bem, mas eles me falaram que não era uma decisão minha, que eu era uma paciente e se eu me recusasse a tomar ocitocina, era para eu assinar um termo de responsabilidade e sair do hospital. Eu estava sem condições de pagar o parto que eu queria, então eu fiquei”.

Aline relata que uma médica plantonista aproveitou o exame de toque para “acelerar” o processo para o parto e estourou a bolsa propositalmente. Por estar na 41ª semana de gravidez, o bebê havia evacuado mecônio dentro do ventre, o que preocupou a mãe. “Na hora que ela viu o mecônio, ela não me explicou direito, me colocou para fazer a cardiotocografia, deitada, de barriga para cima, com 7cm de dilatação, contrações fortes. Eu estava apavorada. Foi naquele momento que eles pediram para eu parar de gritar porque eu estava gritando demais. O anestesista não vinha me perguntar se eu queria a epidural entre as contrações, ele vinha na hora do desespero. Por volta das 19h eu não aguentei e pedi a epidural, mas eu ainda estava disposta, eu queria o parto que tinha planejado para mim e para minha filha”.

A gestante foi vítima de violência obstétrica psicológica para que tivesse um parto rápido. As intervenções médicas continuaram e outro médico verificou os batimentos cardíacos de Lara, constatando sofrimento fetal. Aline foi persuadida a fazer uma cesárea para evitar a morte da criança, mas para a sua surpresa, Lara, hoje com seis anos, nasceu saudável e sem complicações. “Minha filha nasceu e o Apgar [teste feito para medir a saúde do recém-nascido] foi nove no primeiro momento e dez no segundo, então ficou claro que não houve sofrimento fetal. Eles só queriam se livrar de mim o quanto antes.”, relata a mãe, que foi amarrada contra a sua vontade durante a cirurgia. “Eu chorava e pedia para não me amarrarem porque queria segurar minha filha quando ela nascesse. Não me deram ouvidos”.

Hoje, Aline incentiva outras mulheres a exigirem um parto humanizado e a questionarem os procedimentos feitos por obstetras, mas ainda carrega o trauma da violência. “Eu não posso ver uma cena de parto na televisão que eu começo a chorar. Se eu tivesse o apoio que eu esperava no HU, o meu plano de parto seria seguido, mas lá eles estavam mais preocupados em acabar logo com a história e passar para próxima parturiente, se livrar de mim logo”, desabafa.

Além da violência obstétrica, Aline Pina relata a falta de sensibilidade e planejamento do hospital na hora de acomodar as mulheres em alojamentos da maternidade. “O que mais me chocou nos quartos conjuntos foi que eles colocavam mulheres que haviam sofrido aborto espontâneo, do nosso lado. Em uma cama na minha frente, havia uma mulher que tinha sofrido um aborto espontâneo, com mais de 20 semanas de gestação, e ela estava cercada de mães e bebês. Aquilo me marcou muito. O jeito dela, o olhar dela, a inquietude dela. Eu só queria sair de lá o quanto antes”.

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