Depoimento: Cleusa Regina da Purificação

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“Disse que estava sentindo dor durante a cesárea e ouvi do anestesista que eu não sabia o que era dor” 

Priscila Ribeiro dos Santos Jansen

Cleusa Regina da Purificação estava em casa quando percebeu que a bolsa tinha estourado, no dia 27 de janeiro de 2009. Era a hora de Maria Augusta nascer, então, foi levada pelo marido Rogério até o Hospital Regional Dr. Homero de Miranda Gomes, em São José. Cleusa estava com 42 anos e sua gravidez era considerada arriscada, mas a gestação foi tranquila até o último dia. Chegando ao hospital, foi constatado que Cleusa não estava com o colo do útero dilatado o suficiente. O bebê já havia evacuado mecônio – primeiras fezes de um recém-nascido – dentro da placenta, mas o médico obstetra afirmou não ser possível realizar uma cesárea porque Cleusa tinha se alimentado algumas horas antes. O exame de toque foi repetido até 1h do dia 28 e a dilatação continuava quase nula. Para Cleusa, até então nada de errado tinha acontecido, até que a gestante foi encaminhada para a sala de parto onde, segundo ela, começou um verdadeiro inferno.

“Quando eu sentei na mesa de cirurgia, foi chamado o anestesista. Ele pediu para que eu ficasse na posição para levar anestesia. Pediu para que eu me curvasse bem, mas eu não conseguia por estar acima do peso. O anestesista perguntou se eu estava sentindo as pernas. Eu disse que sim, só não estava conseguindo levantar. A enfermeira perguntou a ele se não era o caso de dar mais anestesia e ele respondeu que não era o caso e que não estava dando certo por eu estar muito gorda, muito obesa e, por isso, eu estava reclamando. Quando começaram o procedimento de abrir o abdômen, eu disse ‘eu estou sentindo dor’. O médico disse: ‘não, ela não sabe o que é isso, não está sentindo dor’. Quando tiraram o bebê da minha barriga, eu disse: ‘eu vou vomitar, eu não aguento mais. A obstetra disse para a equipe que nunca perdeu e que não perderia uma paciente na mesa de parto. Aplicaram a anestesia geral e depois disso eu dormi e não vi mais nada”, relata Cleusa.

O marido de Cleusa contou depois do parto que a equipe brigava entre si e que estavam todos nervosos. A situação estava saindo do controle. “As obstetras tiveram total atenção, profissionais boas mesmo. O que me chateou foi o anestesista. Eu sei que eu não estava magra, mas isso não justifica. Só porque a pessoa é gorda ela tem que sentir dor, tem que morrer? Isso é inadmissível. As obstetras entraram em conflito com ele, acharam que ele estava errado e ficaram tão nervosas que meu intestino veio para fora com o corte no abdômen, me machucaram a barriga, ficou uma cicatriz feia”.

Maria Augusta nasceu às 2h20 da manhã e Cleusa só acordou às 7h30. Foi para casa sem nenhuma receita de medicação para tratar do corte da cesárea. Depois de uma semana, Cleusa percebeu que os pontos não cicatrizavam. “Quando estava aplicando insulina na mãe [avó de Maria Augusta], percebi que algo estava escorrendo pelas pernas, uma água com pus. Fomos para o hospital. A médica de plantão da maternidade me colocou na maca e perguntou se eu era a gestante que tinha passado por um parto difícil uma semana atrás. Ela disse para a enfermeira: ‘trata essa mãe muito bem porque o parto dela foi um verdadeiro terror’. Eu estava com infecção hospitalar. A doutora perguntou se eu gostaria de escrever uma carta para o diretor do hospital sobre o anestesista e os ocorridos no parto. Acabei não escrevendo a carta, mas todos na maternidade sabiam o que tinha acontecido comigo”.

Hoje, Cleusa diz que faria a denúncia ao diretor do Hospital Regional de São José se soubesse que poderia ajudar outras mulheres a não sofrer este tipo de abuso. “É triste porque em um momento desses a pessoa já está abalada, a gravidez já te deixa totalmente diferente, é um momento único na vida de uma mulher. Foi uma falta de ética e de respeito do profissional que está sendo pago para fazer o melhor que pode, para salvar vidas e não para causar um problema desse”.

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