Depoimento: Maiári Iási

Priscila_CARLA RAITER projeto 1em4 4

Foto: Carla Raiter

“Aborto é considerado crime e a palavra pra quem não provoca um é exatamente a mesma: aborto”

Priscila Ribeiro dos Santos Jansen

Em 2015, a paulista Maiári Iási, de 30 anos, e seu companheiro decidiram que era o momento de ter um filho. Uma decisão difícil, mas muito feliz para os dois, que já tinham sete anos de relacionamento. No início da gestação, durante o Natal, o casal comunicou a novidade à família e ainda em dezembro Maiári já foi ao posto de saúde para fazer o pré-natal. Lá, ela foi informada de que teria que esperar por uma consulta até fevereiro.

“A minha primeira consulta estava marcada para uma segunda-feira e domingo eu tive um sangramento pequeno. Procurei me informar e tudo o que eu lia é que era normal. O sangramento foi de noite e a consulta era de manhã, então fui ao médico já apreensiva. Chegando lá eles quiseram remarcar a consulta porque a enfermeira não tinha preenchido todos os meus dados. Eu já estava nervosa, com hormônios a mil, e estavam me falando para voltar em duas semanas. Chorei e tive que contar sobre o sangramento na recepção do posto de saúde, com um monte de gente olhando. Se compadeceram e me encaixaram”, conta.

A médica que atendeu Maiári fez um exame de toque e disse que era apenas um corrimento, mas que era importante fazer uma ultrassonografia para averiguar melhor. A fila para o exame era de mais de mês, então a gestante foi aconselhada a fazer em uma clínica particular. Se voltasse a sangrar era para procurar atendimento na Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo, que é o hospital de atendimento daquele posto de saúde.

“Fui para casa e marquei o exame na clínica particular para o dia seguinte, mas naquela tarde tive um sangramento um pouco maior. Já muito nervosa, liguei para o meu companheiro, que estava a caminho do trabalho, e ele voltou para ir comigo ao hospital. Lá, fui atendida rapidamente. Me mandaram para um ultrassom de emergência. E foi aí que o pesadelo começou”.

Eu estava completando os dois meses e sabia que já era para escutar os batimentos do bebê por um ultrassom e que o bebê deveria se mexer. No começo do ultrassom não dava para escutar nada. Ele não se mexia e, segundo o médico que estava realizando o exame, ele estava com o tamanho de seis semanas. Eu falei que era impossível, pois tinha feito o teste antes disso e tinha certeza de que estava grávida há mais tempo. Logo isso significava que o feto não tinha evoluído. O médico falou que não podia dar diagnóstico. Tinha que esperar o outro médico verificar. Antes disso, para ele falar qualquer coisa eu tive que implorar, porque estava um silêncio mortal na sala e ele não queria falar nada.

Entendi o que aconteceu, mas como o médico não quis confirmar sempre fica uma esperança. Então, aos prantos, aguardei mais algumas horas pelo outro médico que me atendeu sorrindo, dizendo que isso não significava um aborto, que era para eu ir para casa e esperar. Era com certeza uma gravidez de risco, então a recomendação era repouso absoluto.

Eu falei várias vezes que tinha certeza da idade de gestação, mas fui ignorada. E querendo muito acreditar no médico, fui para casa. Em casa senti muita dor e na manhã seguinte um sangramento assustador. Fui correndo para o banheiro porque pensei que o absorvente não ia segurar. Senti o sangue coagulado caindo e não tive coragem de olhar para ver se o feto tinha saído. Corremos para o hospital. Lá eu passei por cinco exames de toque. Médicos, médicas, muitos estudantes. Me mandaram para o ultrassom de novo. Eu escutava o sangue cair no chão durante o exame. Quando levantei vi a poça de sangue no chão. E continuavam repetindo que isso era normal”.

Maiári estava triste e assustada, mas isso não impediu que lhe fizessem mais três exames de toque, mesmo com os gritos de dor. Ninguém esclarecia o que estava acontecendo, até que os gritos de Maiári começaram a assustar as gestantes que estavam em volta. Foi aí que os médicos resolveram dar o diagnóstico: aborto em curso.

“Fui pra uma cadeira, pedi um absorvente para a enfermeira que estava passando enquanto eu me trocava. Não tinha absorvente. Ela me deu uma frauda geriátrica grande e eu coloquei em mim com uma mão só. A outra segurava a roupa com sangue. E meu pé descalço pisando na poça de sangue no chão.

Eu só conseguia pensar ‘o que eu fiz de errado? Por que os médicos continuam perguntando se eu fiz sexo ontem? Ninguém lê o prontuário?’ Para todo médico que chegava eu tinha que contar a história toda de novo. Depois, um questionário, várias perguntas enquanto a enfermeira preparava minha veia. Ela me informou que eu ia ficar internada. ‘O médico não te disse? É filha, vai ficar duas horas aqui’. Ela citou um remédio que não me recordo o nome e esse remédio seria injetado na minha veia por essas duas horas. Me colocaram numa cadeira de rodas e me levaram para o elevador. Só pude ver meu companheiro enquanto a porta do elevador abria, para ele entregar meus pertences. Como em uma prisão, sem celular e sem companhia, subi para a ala do lado da UTI. A enfermeira que me colocou nesse quarto com outras duas mulheres disse ‘que ia doer’. Me ofereceu um cobertor. Os contatos mais humanos foram com as enfermeiras, mas sem muita explicação também. Eu estava histérica a esse ponto. Tremia, chorava. Pensei que ia ficar doida naquelas duas horas.

Às 3h da manhã me mudaram de quarto porque precisaram dele. Eu e as outras duas mulheres fomos para o quarto ao lado. Uma delas também estava passando por aborto. A outra, com oito meses de gravidez, passava por complicações de pressão. Os médicos queriam fazer uma cesárea. Ela não queria. Ela, uma mulher negra com sobrepeso, era muito maltratada, culpada pelo seu peso, por sua condição, por seu quarto filho”.

Maiári ficou por quatro horas com o medicamento na veia e logo começaram novos exames de toque, sem nenhum aviso prévio. “Teve uma médica que veio na maca, abriu minha fralda e sem falar uma palavra enfiou a mão em mim. Saiu pingando sangue pelo quarto sem olhar para trás. Tive que gritar para a enfermeira trazer outra fralda. Estava cheia de sangue e diziam que era tudo normal, naquele tom displicente de quem diz ‘você não sabe o que acontece aqui todo dia’ “, desabafa.

Às 5h da manhã, Maiári questionou uma das enfermeiras que veio medir sua pressão sobre o que iria acontecer depois. A enfermeira informou que estavam aguardando o fim do turno para levá-la para a curetagem. O fim do turno era às 6h, mas Maiári só foi levada para o procedimento às 8h. Estava sem dormir e comer há dois dias, ainda sangrando muito e sozinha.

“Enquanto estava indo para anestesia eu escutei um médico dizer para o outro que a anestesia era local. O anestesista me confirmou isso e disse que a anestesia epidural ia doer. Não sei se doeu. Eu não me lembro de nada. Acho que desmaiei de medo de ter que ficar acordada durante a curetagem. Acordei na outra sala com uma médica perguntando se eu estava sentindo minhas pernas. Não estava. Ia demorar um pouco. Desci para outra sala. Me falaram que depois da curetagem, em cerca de quatro horas, eu poderia ir para casa. Passaram quatro horas, não pude ver meu companheiro, não era horário de visitas. Fiquei num quarto com mais cinco mulheres em recuperação ou no pré-operatório.

Uma assistente social veio conversar comigo. Depois de indagar por que eu estava ali, ela perguntou ‘Você acredita em Deus?’, eu disse que não, aí ela falou furiosa: ‘Então, se isso não foi um plano de Deus, foi de quem então? Seu?’. Eu sou a favor da descriminalização do aborto, sempre fui. Eu não queria ficar dizendo que eu não tinha feito um aborto porque eu não acho que seja errado fazê-lo, mas eu não fiz e estava muito triste, tentando fazer minha cabeça entender que eu não estava mais grávida, que todos aqueles planos não existiam mais dentro de mim. Eu desisti dela. Falei: ‘Sim, eu quis ficar grávida só para tirar e sofrer’. Terminei a entrevista de forma burocrática, respondendo com sim e não.

Os médicos não têm como saber quem provocou ou não o aborto, mas eles lhe julgam como se você tivesse provocado e isso fosse condenável. Li que muitas mulheres passam por isso. Mas é um tabu porque as mulheres precisam ser férteis sempre ou aparentar ser, porque aborto é considerado crime e a palavra para quem não provoca um é exatamente a mesma: aborto.

Foram mais de dois dias no hospital e ninguém sabe dizer o que aconteceu ou porque aconteceu o aborto. Eu fui à médica do posto depois e ela falou que era para eu voltar lá quando estivesse grávida de novo, mas era para esperar seis meses para tentar. Me recomendou pílula e eu disse que eu não tomava e usava camisinha. Perguntei se tinha algum exame que eu podia fazer antes de tentar ficar grávida porque eu não queria passar por isso de novo. Ela me falou que os exames eram caros, então pelo SUS eu preciso perder ‘uns quatro filhos’ antes de poder fazer esses exames.

Vai fazer dois meses que isso aconteceu. Eu ainda tenho pesadelos. Estou fazendo terapia, mas ainda choro quando meu companheiro me toca. Eu pensei muito em processar os médicos, mas eu não quis porque acho que eles estão sendo formados de um jeito torto. Dá pra ver que não é uma coisa de caráter. É um sistema. E como faz para processar um sistema?”.

Maiári afirma que tem medo de enfrentar um aborto novamente e que a violência obstétrica atrapalha o processo de luto. “Além de entender que eu não estou mais grávida tenho que entender que não foi culpa minha e que eu não merecia ser tratada assim. Ninguém merece. A gente é educada na base da culpa e é difícil se libertar dela”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s