Histórias por trás do sobrenome

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Mistura de ciência e arte, a genealogia reconstitui história por traz dos sobrenomes

Ana Luisa Nascentes –

Ao lado da sala de jantar da casa de Nelson Vieira Pamplona, duas portas de vidro dão acesso ao seu pequeno escritório. É lá que o senhor de 86 anos passa boa parte das suas tardes. Com uma lupa e o computador do lado, vai descobrindo nomes, datas, lugares e assim ligando pessoas aos seus familiares. Esse é o trabalho da genealogia. Para muitos, pode ser apenas um hobby, para outros a maneira de descobrir quem são. O crescente interesse das pessoas por sua história e origem é a base desse estudo no mundo todo.

Pamplona é formado em engenharia civil e mecânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalhou na indústria de reparos navais e fez sua carreira como dono de um estaleiro. Mas encontrou sua verdadeira paixão quando passou a buscar dados de seus parentes. Depois de cinco livros publicados e no final da sua sexta publicação, o blumenauense explica seu gosto pela área. “Eu me vi ocioso depois de me aposentar e procurei alguma coisa em que pudesse usar meu tempo livre. Minhas publicações não me dão dinheiro, mas receber um pedido de exemplar para alguém que está em algum dos meus livros é o maior reconhecimento que poderia ter”.

Assim como Pamplona, no Brasil, boa parte dos genealogistas – aqueles que se dedicam a estudar as famílias – compõem o Colégio Brasileiro de Genealogia (CBG), na cidade do Rio de Janeiro. A sociedade de estudos foi fundada em 1950 e permanece com o mesmo objetivo: “O estudo da genealogia não como investigação de concessões dos nobres,  da realeza, mas da sucessão da geração no tempo; da continuidade de cada família ao longo da história, sejam quais forem suas origens, raça ou cor”. Hoje, são ao todo 30 cadeiras titulares, uma das quais o aposentado ocupa, e outras centenas de colaboradores ao redor do país, que resgatam dados e memórias para estudo de famílias brasileiras ou imigrantes. O brasão da sociedade inclui a figura de uma abelha que, de acordo com os membros, é “o símbolo do trabalho e da inteligência, significa a atividade de estudo e investigação” reforçando os ideais do grupo. O CBG publica também trimestralmente a chamada “Carta Mensal”, em que os titulares fazem informes referentes aos associados, relatam suas novas descobertas e escrevem artigos sobre o assunto. Um dos responsáveis pela criação desse periódico foi Nelson.

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Pamplona também é membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC), criado em 1896. O Instituto publica anualmente uma revista com ensaios de seus associados, além de possuir uma biblioteca própria com diversos tipos de documentos, mapas e fotos sobre o estado. Em sua sede, em Florianópolis, situa-se também o Instituto Catarinense de Genealogia (Ingesc), fundado em 2006, primeiramente com o intuito de estudar a colonização açoriana em Santa Catarina, em especial em Florianópolis. Hoje conta com 85 membros e realiza reuniões mensalmente.

A genealogia foi, durante muitos séculos, uma ferramenta prática para indicar e reconhecer, por exemplo, a linha de sucessão de herdeiros de uma propriedade ou monarquia. Hoje, mais que isso, constitui uma forte linha de estudos em todo o mundo. A prática deu inclusive origem a um novo tipo de pesquisa, chamada genealogia molecular. Esta se baseia no estudo das características genéticas herdadas por um indivíduo em seu DNA. Essa nova área vem enriquecendo a genealogia mais tradicional – composta de números e datas – e aumentando a possibilidade de descobertas sobre a origem das pessoas.

Livros já publicados por Nelson Pamplona.

Livros já publicados por Nelson Pamplona.

Acervo mórmon

A maior fonte de pesquisa na área é a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conhecida como Igreja Mórmon, com sede em Salt Lake City, nos Estados Unidos da América. Lá está a Biblioteca de História da Família, a maior do mundo nesse campo de pesquisa, com cinco andares e centenas de computadores e máquinas para leitura de microfilmes. A Igreja possui cerca de 2,4 milhões de rolos desses microfilmes pelos quais são arquivados documentos como certidões de nascimento, de casamento e atestados de óbito, que mais tarde são também digitalizados. De acordo com Fábio Falcão Lucas, gerente da área brasileira de genealogia da Igreja, cerca de 4 mil novos rolos são adicionados todos os meses ao acervo. “Agora eles não são mais um número ou um nome em um gráfico. Eles são personagens que ajudaram a formar a sua história de vida”, comenta Falcão.

A biblioteca da Igreja foi criada em 1894 e hoje atende por volta de 2 mil visitantes diariamente em busca da sua história. A razão do acervo é explicada no site da Igreja: “Cremos que todos os membros da família — aqueles que vivem, que já se foram e que ainda virão — possuem um elo duradouro que une as gerações. Para nós, isso significa que as famílias são eternas, e parte importante para colocar em prática essa crença é fazer a história da família”. Não por acaso, o primeiro programa informático para estudos genealógicos foi criado pelos mórmons e tinha o nome de Personal Ancestors File (PAF). Esse sistema originou o site Family Search. Com essa ferramenta, qualquer pessoa, sendo membro da Igreja ou não, pode cadastrar os nomes de seus parentes e suas memórias, como fotos e relatos e assim criar a própria árvore genealógica. No site estão registrados mais de quatro bilhões de nomes e o serviço é gratuito para todos.

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