Lugar de trans

Karla Camuratti: "Desde pequena fui tratada como eu era, uma mulher".

Karla Camuratti: “Desde pequena fui tratada como eu era, uma mulher”.

Educação é aposta para destino alternativo à prostituição

Daniel Bonfim –

Karla Camuratti tem 58 anos e é cabeleireira desde os 18.  A partir de 2000 passou a atender em seu próprio salão de beleza no segundo andar de um sobrado histórico no centro de Florianópolis. Um lugar modesto e aconchegante. Camuratti costuma trabalhar bem a vontade: uma rasteirinha básica, um vestido solto e um coque de girassol, passeando entre clientes, sua cachorrinha Sabrina, discussões com o irmão e as perguntas do jornalista.

A cabeleireira conta que, mesmo quando ainda era uma adolescente começando a se reconhecer como uma menina trans, na década de 1970, recebeu todo o apoio familiar. “Meus pais sempre me aceitaram, desde quando eu era bem pequena já fui tratada como eu era, como mulher”. Hoje, Camuratti é orgulhosa de suas conquistas nos últimos 40 anos de profissão. “Agora eu estou bem, consigo viver tranquila, tenho meu carro, estou pagando as prestações do Minha Casa Minha Vida, já viajei, coloquei silicone, fiz cirurgia no nariz…”. Antes de entrar na área de beleza, trabalhou como empregada doméstica e ajudante de cozinha. Com 17 anos pegou um serviço de manicure em um salão de beleza e fez amizade com uma cabeleireira, com quem começou a aprender a profissão. Em 1976, ela foi a primeira mulher trans de Florianópolis a entrar em um curso de cabeleireira promovido pelo Senac. Entretanto, ela reconhece que sua história é muito diferente da grande maioria das histórias envolvendo transsexuais e travestis: “Eu lutei muito, fui muito persistente, não queria cair na prostituição”.

Para a pesquisadora Berenice Bento, doutora em Sociologia pela UnB, o processo de exclusão e violência de pessoas trans é sistemático e começa dentro de casa, quando a criança começa a expressar o seu gênero de uma maneira que não corresponde ao comportamento esperado para o seu sexo biológico, a incompreensão dos pais é praticamente absoluta. Eles não conseguem entender como uma pessoa que nasce com um pênis pode se sentir mais à vontade usando vestidos ou brincando de boneca. Sem aceitação familiar ou suporte psicológico/afetivo, as pessoas trans fogem ou são expulsas de casa, geralmente entre os 13 e 16 anos, encontrando apenas na prostituição um espaço para sua sobrevivência social e financeira.

Segundo a ONG Internacional Transgender Europe, o Brasil é o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo. Entre janeiro de 2008 e abril de 2013, foram 486 mortes, quatro vezes a mais que no México, segundo país com mais casos registrados. Em 2013, foram 121 casos de travestis e transexuais assassinados em todo o Brasil.

Sabendo das dificuldades enfrentadas por esse público, a Associação  em Defesa dos Direitos Humanos com enfoque em sexualidade (Adeh) fundou o projeto Economia Solidária, que busca criar alternativas de geração de renda para a população trans de Florianópolis e região através de cursos de capacitação profissional. Depois de algumas ações bem-sucedidas na área de corte e costura, a ideia agora é ampliar as atividades para a área de beleza através do subprojeto “Emponderamento contra a transfobia”. Serão ministrados três cursos profissionalizantes: depilação com linha, design de sobrancelhas, maquiagem e uma oficina complementar de voz. “É maravilhosa essa ideia, é a base para ter um reinício”, considera Camuratti. Ela tem planos de fazer uma viagem para frequentar um curso para cabeleireiras em Paris em outubro: “Quero me atualizar”, afirma.

Ocupar lugares

Maria Zanela tem 21 anos, é travesti e nasceu em Curitibanos, interior de SC. Quando tinha um ano seus pais se separaram. O pai ficou em Curitibanos, enquanto ela e a mãe vieram morar em Balneário Camboriú, na casa de seus avós. Sem muitas perspectivas, mas com muita vontade de dar uma vida melhor para a filha, a mãe de Maria, na época com 22 anos, começou a se prostituir. Hoje, aos 38, Rosane Ramos ainda exerce a mesma profissão.

Se por “vida melhor” considerarmos “boa educação” pode-se dizer que o esforço de sua mãe valeu a pena: a estudante passou em cinco vestibulares assim que terminou o ensino médio, todos em universidades públicas. Escolheu Biblioteconomia em Florianópolis e atualmente diz estar “ficando louca” na reta final do curso, terminando o TCC e cursando mais sete disciplinas: “Quero me formar logo”, justifica agitada enquanto seus brincos dourados tintilam em baixo de seus ouvidos.

Entre mãe e filha, a travestilidade nunca chegou a ser um problema, Zanela tinha uns 14 anos quando conversou com a mãe sobre o assunto pela primeira vez: “Ela sempre me aceitou muito bem, sempre me deu apoio. Acima de tudo somos muito amigas, ela é a minha referência, sempre me bancou, me deu do bom e do melhor, e muito afeto”. Começou a namorar sério com um homem heterossexual aos 17 anos: “eu ia na casa da família dele, ele ia na minha”, relembra. O namoro acabou em 2015. Precisando de dinheiro para continuar em Florianópolis e terminar a faculdade, Zanela começou a se prostituir aos finais de semana em Balneário Camboriú, quando costumava voltar para casa para reencontrar sua família. “O trabalho sexual foi uma maneira que eu encontrei de ganhar dinheiro. É claro que eu me sinto explorada quando eu me prostituo, mas acredito que dentro do sistema capitalista em que vivemos, eu me sentiria explorada em qualquer outra profissão”, defende.

Assim como Karla Camuratti,  Maria Zanela também considera que a iniciativa da ADEH é fundamental para a transformação do cenário de transsexuais e travestis no Brasil. Para ela, um curso profissionalizante não garante apenas empregabilidade dessa população, aumenta também a autoestima, o valor pessoal e o senso de inserção em sociedade. Entretanto, a estudante faz questão de ressaltar que esse não pode ser o único caminho: “O destino das pessoas trans precisa ser mais abrangente, nós temos que ser capazes de ocupar todos os lugares”.

Daniel_maria zanela

 

Fotos: Acervo pessoal das entrevistadas.

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