Morte na tela

JuliaZ_Lexa+Clarke cena logo antes da morte

Morte de personagem lésbica na série “The 100” levanta discussão sobre representatividade na televisão

 – Júlia Zen Dariva –  

Química, segundo o dicionário, é a ciência que estuda a ação dos corpos simples uns sobre os outros, e as combinações entre eles. Para quem é fã, química se encontra em toda parte – entre a mocinha e o vilão, entre melhores amigos de infância, entre o escritor e sua musa. No caso da série The 100, entre sua personagem principal, Clarke Griffin, e a antagonista, Lexa.

A série distópica, produzida pela emissora de TV americana CW, tem como cenário os resquícios da Terra após uma guerra nuclear, e é protagonizada por um grupo de jovens que são enviados de volta ao planeta para descobrir se há condições de habitá-lo. Em sua segunda temporada, transmitida durante o final de 2014 e o início de 2015, The 100 ousou ao transformar a aliança entre duas de suas personagens femininas em romance. A escolha feita pelos roteiristas causou surpresa para as fãs da série — o beijo trocado por Clarke e Lexa na reta final da temporada foi recebido de braços abertos por quem apenas sonhava em assistir ao desenvolvimento de um romance entre mulheres em uma série destinada ao público jovem.

“Parecia que elas iam ficar juntas… Mas eu não acreditava que fossem mesmo, nunca fazem um casal com duas mulheres ser cânone, comenta Giorgia Monteiro, 20, fã da série, ao ser questionada sobre a dinâmica entre as duas personagens durante a segunda temporada.

JuliaZ_Lexa+Clarke Beijo

A surpresa vem da impressão refletida nos resultados da pesquisa “Where are we on TV” (em português: “Onde estamos na TV”), realizada anualmente pelo GLAAD, sigla em inglês para a Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação. Segundo essa pesquisa, em 2015, somente 70 dos 881 personagens a aparecerem em séries de TV aberta não eram heterossexuais – esse número corresponde a aproximadamente 8%  deles. Dentro desses 70, apenas 23 eram lésbicas.

De acordo com Jo Garfein, analista de TV e co-apresentadora de um podcast produzido por fãs de The 100, antes mesmo do início do romance entre as personagens, Lexa já havia sido estabelecida como homossexual dentro do cânone da série. Jo, que se identifica como lésbica, conta que quando ela estava descobrindo sua orientação sexual, não havia personagens lésbicas fortes como Lexa na televisão.

Kelsey, 20, administradora de um Tumblr dedicado à The 100, admite que “no momento em que a Lexa apareceu na tela eu vi partes de mim nela, só aí eu percebi que o jeito como ela olhava para Clarke é como eu tenho olhado para meninas minha vida toda”.

Os dez meses de intervalo na transmissão de The 100 entre o fim da segunda temporada e o início da terceira trouxeram ansiedade e um aumento nas expectativas dos fãs, que tiveram quase um ano para se dedicar a atividades relacionadas à produção de conteúdo com fins não lucrativos e teorizar sobre quais rumos a relação entre Clarke e Lexa seguiria no futuro da série.

Maria Helena, 19, acompanha a série desde seu lançamento, em 2014, e afirma que não se lembra de ter visto em outra série para público jovem uma protagonista lésbica e uma bissexual. Segundo matérias publicadas em sites dedicados ao entretenimento como o The Wrap, o Entertainment Weekly, o Just Jared e o MTV News, a série trouxe uma “mudança corajosa” na televisão. Mas, na metade de sua terceira temporada no ar, The 100 acabou por cair no lugar comum quando, com um tiro no estômago, Lexa morre.

JuliaZ_Lexa Morte

O infográfico publicado pelo site Autostraddle em março desse ano destaca que somente 11% das séries de televisão trazem personagens femininas homo ou bissexuais. Baseado nesse levantamento, a organização “Fãs LGBT Merecem Mais” (em inglês: “LGBT Fans deserve better”) concluiu que 10% das personagens lésbicas ou bissexuais nessas séries têm um final feliz. Pouco mais de ⅔ acabam mortas ou são tiradas da série sem explicação ou fechamento.

Existe até um tropo literário – como são chamados as ferramentas usadas repetidamente na escrita de uma história – que dá nome a esse fenômeno: “Bury your gays”, ou, em português, “Enterre os gays”. De acordo com o site colaborativo TV Tropes, nesse clichê, utilizado em histórias desde os primórdios da literatura e início das narrativas televisivas, personagens homossexuais não tem direito a finais felizes – mesmo que eles tenham algum tipo de relacionamento amoroso com outro personagem, pelo menos um deles acaba morrendo no final.

Em décadas passadas, esse tropo era usado para reafirmar os preconceitos da época: ser homossexual não traz um final feliz. Segundo a organização do site “Nós merecemos mais” (em inglês, “We deserve better”), ramificação do site mencionado anteriormente, mas dessa vez dedicado unicamente à The 100, a utilização desse clichê reafirma preconceitos que já não deveriam fazer parte do imaginário da sociedade atual.

“A morte da Lexa se junta com todas as outras personagens lésbicas que morreram mostrando que não se tem um final feliz”, enfatiza Maria Helena. Ela observa, ainda, que a morte de Lexa ocorreu apenas para empurrar outras histórias para frente. A organização do site “Nós merecemos mais” lembra também que quando se pretende interagir e representar uma minoria, é preciso entender a responsabilidade e compreender a influência que suas escolhas narrativas têm sobre esses grupos.

De acordo com o site “Fãs LGBT merecem mais”, até agora, em 2016, 11 personagens lésbicas ou bissexuais morreram por causas variadas em suas respectivas séries.

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