Vidas expostas

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Fernando Escarião mostrando por vídeo a piscina do novo prédio em que mora em São Paulo.

Youtubers compartilham suas vidas ao mundo

 – Luan Poffo – 

7 horas e 42 minutos de uma sexta-feira. A câmera ligada no escuro já está posicionada ao lado da cama que, para dar a impressão de desarrumada no vídeo, foi ainda mais desarrumada. O despertador tocou certeiro às 7 e meia, somado aos doze minutos para preparar a gravação e, finalmente, acordar de forma atuada para os milhares de fãs que logo assistirão o vídeo online. E até à noite segue nessa logística o processo de filmagem de um “daily vlog”, vídeo que mostra intensamente a rotina e a vida pessoal de um youtuber (produtor de conteúdo para o Youtube), seja ele de passeio por uma cidade, mostrando os cômodos e móveis da própria casa ou até discutindo histórias do passado com o namorado.

Os “vlogs” assemelham-se à proposta dos reality shows da televisão, os quais buscavam com muita produção transmitir o cotidiano humano, produzir “shows da realidade”. Entretanto, os vídeos podem ser feitos até com o celular e, ao serem compartilhados no Youtube, também ganham seu público. Tornou-se acessível ter sua vida assistida e admirada por outras pessoas, e essa janela sedutora pode oferecer riscos se a exposição transpassar os limites do que é psicologicamente saudável.

Conhecido pelo conteúdo polêmico que publica em seu canal, Felipe Mastrandéa, 28, está prestes a conquistar 300 mil inscritos em sua conta no Youtube através de vídeos que ensinam a beijar, tutoriais de depilação e temáticas sexuais. O youtuber diz que seu serviço é mostrar e falar abertamente de sua vida pessoal, mas que existe um limite. Em meio a gargalhadas, Felipe conta ter muitos “haters” (odiadores) na internet, pessoas que o criticam e que querem deixá-lo chateado. “Talvez esse seja o lado negativo, mas já aprendi a lidar. Em contrapartida, é muito legal que você acaba expondo aspectos da sua personalidade, quem você é e as histórias pessoais. Foi bom até financeiramente ”, ele conta orgulhoso.

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O youtuber Felipe Mastrandéa em seu vídeo “Aprenda a fazer a chuca”, o qual possui cerca de 700 mil visualizações.

O vídeo mais visto do paulista Felipe possui cerca de 20 milhões de visualizações e se chama “Tipos de Beijos”, o qual foi gravado com seu “affair” da época. Os fãs do casal os nomeavam de “Zeclipe”, junção dos nomes de Felipe e Zec – prática chamada de “shipp” na internet utilizada, inclusive, quando o público deseja que duas pessoas se tornem um casal. “Foi uma situação complicada, pois não estávamos namorando, mas as pessoas entenderam que sim. Tive que dar um fim no relacionamento por conta dessa situação. Quando você tem sua vida exposta publicamente, é inevitável que saibam com que você está se relacionando”.

Diferentemente de Felipe, o youtuber Fernando Escarião, que possui cerca de 125 mil inscritos , diz nunca ter divulgado as pessoas com quem ele se relacionava. O ex-viner (que produzia conteúdo para a rede social “Vine”, de vídeos até seis segundos) também conta que, apesar de publicar muito sobre sua vida pessoal, não tem coragem de fazer vídeos com assuntos sobre sua vida sexual. “Quando chego próximo a esse tema, trato de forma engraçada e descontraída. Mas o público pede muito que eu fale disso”, confessa Fernando de forma angustiada.

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Fernando Escarião mostrando por vídeo a piscina do novo prédio em que mora em São Paulo.

Atualmente Fernando Escarião reside em São Paulo e relata que, por trabalhar com vídeos na internet, já teve medo quanto a sua segurança. Ao lado de casa, é comum ouvir estudantes gritarem seu nome ao saírem da escola. “É até divertido, mas me assusta. Um seguidor já tocou o interfone aqui do apartamento para que eu descesse e tirássemos uma foto. Acabei o encontrando para pedir que ele não divulgasse meu endereço, mas não sei como ele conseguiu”, descreve. A psicóloga e jornalista Adriana Lemos adverte que é muito importante filtrar o que é publicado, a fim de que se preserve a intimidade e até mesmo a segurança. Ela complementa afirmando que “não é verdadeira a ideia de que a internet e a distância tornam relativo o perigo de se expor, pois o perigo é real”.

Apesar do susto, Fernando Escarião diz que a exposição de sua vida pessoal em seu trabalho dá a oportunidade de mais pessoas o conhecerem e saberem do seu ponto de vista quanto às coisas do mundo. Além disso, os fãs também escrevem sobre suas vidas pelos comentários, o que resulta numa troca de experiências. A universitária Vanessa Cunha, de Florianópolis, assiste “vlogs” no Youtube e diz que é interessante conhecer a vida de quem ela acompanha virtualmente por meio dos vídeos. Esses conteúdos criam uma proximidade entre o youtuber e seu público, o qual envia comentários com sugestões para o canal, segundo Vanessa.

O que motiva as pessoas a abrirem mão de sua privacidade pode ser determinado por fatores emocionais , segundo a psicóloga Maria Silvia Ambrósio. Ela explica que o vazio pessoal, a solidão e o desejo de pertencer a um grupo podem levar à exposição pessoal excessiva na internet. “A psicologia junguiana defende que se sentir parte de algo é terapêutico”, explica a psicóloga.

O limite saudável para a exposição pessoal, segundo Maria Silvia, seria o compartilhamento de informações válidas para contribuição com o coletivo, de coisas que podem ser contadas em qualquer reunião social e que não sejam de sua profunda intimidade.

23:45. Hora de dormir? Deitado na cama, apagam-se as luzes. Segundos depois elas se acedem de novo para que a câmera seja desligada e, agora sim, é verdadeiramente hora de descansar.

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