Eles têm autismo…

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…e isso não muda quase nada

 – Isadora Vicente – 

Assim que acorda, Miguel*, 6, liga a televisão do quarto onde dorme para assistir desenho animado. Ele olha o irmão mais novo na cama idêntica a sua ao lado e decide pular para a cama dos pais, atitude frequente na rotina do menino. Enquanto a televisão transmite o desenho de uma galinha famosa e seus amigos, o menino segura um cachorro de brinquedo com uma mão e toma café na mamadeira com a outra. Depois de algum tempo, seu irmão Eduardo*, de 4 anos, acorda e a semelhança entre os dois é impressionante – se Miguel não fosse mais alto, poderiam até mesmo passar por gêmeos. Os dois têm cabelos e olhos castanhos, pele clara e exibem o mesmo sorriso de dentes de leite.

Quando me aproximo, Miguel me oferece o boneco de cachorro e Eduardo ensaia uns passos de dança no tapete do quarto. Os meninos moram com os pais e com os avós em um bairro nobre de Florianópolis, onde passam a maior parte do dia. A rotina inclui três refeições principais, brincar, assistir desenho e dormir. Poderia ser o dia a dia de qualquer outra criança, exceto por um detalhe: Os dois meninos têm autismo. Esse não é um caso raro, nem mesmo único. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), estima-se que no Brasil 2 milhões de pessoas tenham autismo. Quando se fala na população mundial, esse número chega a 70 milhões.

A edição mais recente do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, divulgada em maio de 2013, reuniu autismo, síndrome de Asperger, síndrome de Heller e transtorno invasivo do desenvolvimento, no que classificou como transtorno do espectro autista. A incidência do autismo é quatro vezes maior em meninos e têm causas ainda desconhecidas, sendo melhor definida por uma combinação de fatores genéticos e ambientais. O autismo pode aparecer em três graus – leve, médio e grave.

Apesar de aparecer em três graus, o autismo é caracterizado por aspectos comuns como, por exemplo, comprometimento da comunicação e interação social, comportamentos repetitivos, áreas restritas de interesse e dificuldade de manter a atenção compartilhada, ou seja, se concentrar em uma atividade compartilhando o momento com outra pessoa. No entanto, a psicóloga Camilla de Amorim Ferreira, 29, explica que cada criança tem particularidades.  “É importante esclarecer que as crianças com autismo são muito diferentes entre si. Tem coisas gerais que podemos supor a partir do diagnóstico, mas algumas coisas só poderemos ter certeza com o convívio com as crianças”, enfatiza. Camilla trabalha no Núcleo de Desenvolvimento Infantil, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), instituição que atualmente atende quatro crianças com autismo.

O processo de ensino da escola é baseado na autonomia das crianças, com atividades que ensinam a se comunicar e se relacionar com os outros e a lidar com o próprio corpo e com os sentimentos. Era lá que a estudante de pedagogia, Beatriz Tenfen de Sousa, cuidava de Miguel e de Eduardo. Beatriz acompanhou o desenvolvimento das crianças durante um ano, primeiro na escola e depois em casa. Por não ter experiências anteriores com autismo, ela lembra que no início sentiu receio e não sabia como se relacionar com as crianças. “A gente tem muita impressão de que o autista vive num mundo isolado dele e não é nada disso. A partir do momento em que criamos um vínculo, os dois foram muito carinhosos, sempre vinham me abraçar, pedir beijo e colo”, afirma Beatriz. Até a adaptação, os meninos preferiam ficar sozinhos com as brincadeiras que gostavam, como na hora do parque, mas eram incluídos em todas as atividades porque, como relembra Camilla, a interação é necessária para o desenvolvimento de todas as crianças. “Não é só permitir que a criança esteja num espaço coletivo, é permitir que ela esteja incluída se desenvolvendo da melhor maneira possível, atendendo às especificidades dela e isso vale para todas as crianças”, frisa a psicóloga. Depois da adaptação, as crianças chamavam os meninos para brincar e se interessavam pelas atividades do grupo, ficavam curiosos e se aproximavam para participar, com a ajuda dos estagiários.

“As crianças autistas possuem um olhar muito específico do mundo e esse jeito reflete em como elas brincam”, explica Beatriz. A estudante relembra que quando as crianças com autismo gostam de uma determinada coisa, se concentram em tudo o que lembra aquela preferência, é o caso de Miguel com os animais. “Ele vê fotos dos animais, ouve e reproduz o som dos bichos, associa as letras dos nomes ao alfabeto. Partindo de algo de interesse das crianças, dá para estimular o desenvolvimento em diferentes meios”, destaca. Nomear o que está acontecendo, usar frases simples, trazer elementos visuais e priorizar comportamentos repetidos são outras técnicas que podem facilitar a aprendizagem das crianças. “Não precisa ter uma rotina só porque a criança é autista, às vezes isso é passado como uma regra. Para qualquer criança ajuda se você souber o que é esperado”, enfatiza Camilla.

Não há nenhum exame para detectar a condição, o diagnóstico é exclusivamente comportamental. No caso de Miguel, o avô materno notou que havia algo diferente porque ele não reagia a alguns estímulos e não emitia sons quando era bebê. Enquanto a família investigava o comportamento do menino, a psicóloga que o acompanhava notou semelhanças em Eduardo. Camilla conta que é importante realizar o diagnóstico mais de uma vez, para excluir outras possibilidades. E lembra que essa constatação não deve rotular a criança e justificar suas atitudes. “O diagnóstico não pode servir como uma camisa de força, como algo que vai determinar o que a criança vai ser, tem que ser algo que vai ajudar a procurar os caminhos para promover um melhor desenvolvimento”, explica.

Para Miguel e Eduardo o caminho inclui atividades extras, como aulas de natação e de surf e andar a cavalo, além de consultas com psicólogos e fonoaudiólogos. Os dois meninos não falam, mas gostam muito de abraço e de contato. O interesse por animais de Miguel é substituído por texturas em Eduardo: o menino adora tocar. Eduardo também é sensível à luz e prefere ambientes mais escuros. Tirando essas particularidades, os dois participam de todas as atividades da família, como passear no shopping, fazer compras no supermercado e escolher os alimentos que gostam. “É uma pessoa igual a qualquer outra, é uma criança que tem características além do autismo. Não se pode esconder ou supervalorizar e resumir a pessoa àquela condição”, observa Camilla.

A psicóloga acredita que o caminho para as crianças com autismo ou quaisquer outras diferenças é inclui-las em todos os espaços, sem esperar condições ideais para a inclusão. Ela relembra que as gerações anteriores não tinham contato com as diferenças e isso causava estranhamento. Para Camilla, a geração atual terá uma relação com a deficiência muito diferente, melhor. “Quanto mais a gente dá espaço para as pessoas autistas ou com deficiências participarem, mais os outros vão ter contato com isso e desenvolver uma postura mais positiva em relação às diferenças”.

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