Ingressar na universidade é difícil. Permanecer é um desafio

Alunos se reúnem para discutir ações sobre a permanência estudantil.

Alunos se reúnem para discutir ações sobre a permanência estudantil.

Filas e demora no atendimento para cadastro socioeconômico revoltam estudantes na UFSC

 – Maria Fernanda Somenzi Salinet –

“A gente achava que era difícil entrar na UFSC, mas o difícil mesmo é permanecer, pelo menos para nós, cotistas”, lamenta Camila Costa, 19. Ela é estudante de Engenharia Química, durante o acampamento em frente ao prédio da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), no início de abril. Por quase duas semanas, alunos permaneceram em uma fila a fim de concorrer ao auxílio moradia de R$ 250 e à bolsa estudantil de R$ 615 para se manterem na universidade.

O agendamento online para a entrega de documentos exigidos pelo edital acabou em poucas horas devido ao alto número de estudantes que pleitearam o direito às bolsas estudantis. Em razão disso, dezenas de estudantes passaram dias e noites do lado de fora da Prae, apenas para concorrer aos editais. Camila conta que chegou dois dias às 5h e nos últimos dois decidiu dormir lá. “Faltei aula, fiquei perdida com o conteúdo e tudo isso sem a garantia de conseguir a vaga”, ressalta a estudante que precisou recorrer aos benefícios em função de sua renda familiar ter sido diminuída em 2016. Depois de oito dias, conseguiu ser atendida, no dia 14 de abril. “Todo mundo que passou por ali precisava demais. Eu fiquei bem triste, porque não é algo pelo qual os alunos necessitassem passar. Os atendimentos deveriam ser obrigatórios”, protesta.

Na UFSC, o programa de Ações Afirmativas foi criado em 2007, e em 2008 foi implementado o primeiro vestibular com cotas. Nele apenas 20% das vagas foram reservadas a estudantes que cursaram integralmente os ensinos fundamental e médio em escolas públicas, e 10% a estudantes negros, prioritariamente de escolas públicas. Em 2012, por meio da lei 12.711, tornou-se obrigatória a reserva de até 50% das vagas para estudantes do ensino médio público, com recorte étnico-racial e de renda, em todas as instituições superiores federais vinculadas ao Ministério da Educação (MEC).

Em contrapartida, a universidade acatou aos poucos essa decisão, com mudanças mais profundas a partir do vestibular de 2014, em que a UFSC reservou 35% das vagas de cada curso de graduação para as ações afirmativas. Apenas no processo seletivo de 2015 a universidade chegou perto de reservar o valor estipulado pelo MEC, com 47% das vagas para as cotas. Neste ano, o Conselho Universitário aprovou o novo programa, válido até 2022, em que 50% da oferta de vagas poderá ser ocupada por estudantes que cursaram o ensino médio em escola pública, sendo 32% dessas vagas reservadas aos alunos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas.

Segundo a Coordenadoria de Ações Afirmativas, ingressaram na UFSC 3.292 estudantes por cotas na modalidade de escola pública com renda inferior a 1,5 salário mínimo, entre 2013 e 2016. Hoje, são 2.875 alunos nesse regime, os quais recebem isenção automática do Restaurante Universitário (RU). A Pró-reitoria também passou a autorizar aos estudantes ingressos na modalidade de cotas étnico-raciais autodeclarados negros a isenção do RU sem cadastro socioeconômico concluído, durante os meses de abril e maio de 2016. Isso ocorreu em razão do tempo em que os cadastros levaram para serem avaliados.

Ao passo que o número de oferta de vagas do vestibular aumentou para 50% aos candidatos que cursaram o ensino médio em escola pública, o número de vagas oferecidas para cada tipo de auxílio diminuiu. Os cortes orçamentários que giraram em torno de 30% em 2015 afetaram o programa de permanência. O número que já era reduzido de 350 bolsas caiu para 250. Mas o movimento estudantil que fomenta as discussões na universidade não se calou. Foi criado o Comitê Estudantil de Luta pela Permanência, uma rede de apoio que deu voz aos alunos que não conseguiram ser atendidos. Em função dessa movimentação, foi elevado o número de bolsas de 250 para 300.

Para a estudante de Filosofia Simone Marques, 34, de Paulo Lopes – SC, a única maneira de continuar estudando é por meio do auxílio estudantil. A aluna também é professora de inclusão social no período da noite e logo que soube das bolsas procurou se inscrever. “Perdi o horário de início das inscrições e apenas me restou o encaixe. Foi aí que começou a dificuldade. Foram quatro dias tentando; madrugadas que não passavam mais. Tudo muito triste e frustrante”. De acordo com a professora do departamento de Serviço Social da UFSC, Samira Safadi Bastos, especialista em políticas sociais, as cotas têm importância em termos históricos por si só, além de permitir que o movimento estudantil e a comunidade universitária, juntamente com os cotistas, possam exigir os recursos destinados à universidade pública.

A Coordenadoria de Assuntos Estudantis (CoAEs) divulgou nota na manhã de quarta-feira (13 de abril) que “é solidária e entende como legítima a demanda dos estudantes” e considerou que esta é uma “situação humilhante”. Mas afirmou que a demanda para atendimento aumentou muito e a equipe de servidores assistentes, auxiliares administrativos e de assistentes sociais sofreu redução. Segundo Samira, a permanência estudantil deve ser priorizada ao exemplo da Universidade Federal de Alagoas, a qual recebe muito menos recursos do que a UFSC. “A reitora de lá fez transferência de recursos de um gasto menos importante para outro. Então não é só quantidade de recursos, mas como utilizá-los”, completa.

No dia 27 de abril, a CoAEs comunicou que os novos horários para atendimento no dia 26 foram todos preenchidos. Novos atendimentos foram disponibilizados apenas para o semestre 2016.2. Quanto ao futuro, a professora acredita que se o orçamento da UFSC fosse compartilhado desde o início, como foi no caso de Alagoas, os recursos seriam melhor administrados. “Audiências públicas seriam super interessantes com orçamento participativo. Apesar de duvidar, gostaria muito que o novo reitor o fizesse”, ressalta.

No dia 5 de maio, foi realizada uma audiência pública para discutir ações que viabilizassem a permanência na UFSC. Na mesa, dirigida por estudantes, estavam representantes da antiga gestão e da nova reitoria, que assumiu no último mês. Em pouco mais de duas horas, alunos denunciaram as péssimas condições de estrutura na moradia estudantil, além de questionarem a continuação de uma política que não é adequada ao número de alunos cotistas.

Mesmo com o aumento de vagas destinadas às ações afirmativas em 2015, o número de bolsas de auxílio e vagas na moradia estudantil permaneceu o mesmo. A universidade oferece 2.073 bolsas estudantis, 1.294 auxílios moradia, 167 vagas na moradia estudantil e 30 auxílios creche, em um universo de mais de 30 mil alunos. Pouco mais de duas horas de debate, no fim da audiência, o professor Pedro Barreto, atual pró-reitor de Assuntos Estudantis, garantiu que não haverá diminuição dos benefícios atuais, mas não se comprometeu com o aumento de auxílio.

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