Lutar para permanecer na Universidade

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Quando estudantes precisam dormir na rua para lutar pelos seus direitos

 – Linda Inês Pereira Lima – 

“Ocupar para Permanecer”, “Se a UFSC Fosse Nossa”, “Comitê Estudantil de Luta Pela Permanência”, “Bloco de Lutas: Nenhum Direito a Menos”. Esses são alguns dos movimentos sociais criados na UFSC por estudantes com uma visão política e social que procuram garantir a permanência dos alunos na Universidade. Um dos objetivos é dar voz a estudantes que não podem ou não conseguem ser ouvidos pelas vias institucionais. Seja essa voz dada no grito em protestos e através de cartazes na reitoria ou da ocupação dos espaços.

Em 2016 o vestibular da UFSC ofereceu 50% das vagas para estudantes cotistas entre negros, pardos, indígenas, do ensino público, sendo de baixa renda ou não. Porém, os recursos para auxílios e outras formas de apoio institucional aos estudantes tende a se manter estagnada, e não crescer na mesma proporção que a entrada de alunos cotistas.

A Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) lida com os principais meios assistenciais para o estudante na universidade. Um deles é a Bolsa Permanência no valor de R$ 550,00 por mês. Todos os anos é liberado um número de vagas para os matriculados na UFSC que necessitam dessa ajuda. A bolsa é destinada somente a estudantes de baixa renda e/ou cotistas, mas para terem acesso a ela é necessário se inscrever e fazer o Cadastro Socioeconômico online. Logo após, é feita uma avaliação na Prae para atestar se o aluno receberá ou não o auxílio.

No primeiro semestre de 2016 foram liberadas 250 vagas no dia 28 de fevereiro, que foram preenchidas em duas horas. Para conseguir atendimento, alunos como Camila Costa, 19, e Dilciomar Junior Baldin, 20, precisaram passar a noite em frente a Biblioteca Universitária.

A aluna de Engenharia Química, Camila, estuda na UFSC há um semestre e neste ano foi a primeira vez que tentou o auxílio na Prae. Ela conta que não conseguiu agendar o atendimento pelo site por causa do horário. “Como eu estava em aula não pude me inscrever, então tentei esperar por alguma desistência na fila, para uma vaga.” Após oito dias, acordando cedo, perdendo aula e sono, ela conseguiu uma entrevista no penúltimo dia de agendamento, dia 14 de abril. “E esse foi o dia que eu dormi na frente da Biblioteca Universitária (BU) com os meus outros colegas. Fui atendida só as dez horas da manhã.”

O mesmo aconteceu com Dilciomar. Ele afirma que sempre precisou do auxílio, mas nunca tinha pedido antes, pois seus pais podiam ajudá-lo. Dilciomar só se deu conta que precisaria dormir em frente a Prae quando chegou a última semana para avaliação dos estudantes e não tinha conseguido uma vaga. “Quando eu vi que tinha pessoas dormindo na fila para chegar no horário, eu percebi que ia ter que fazer o mesmo para conseguir a minha.”

Sobre dormir na rua, Dilciomar afirma que se sentiu humilhado. Em várias vezes durante a noite acordou assustado com barulhos, mesmo não estando sozinho nesse primeiro dia, a segurança não era garantida. “Eu e mais seis colegas dormimos ali, mas no segundo dia a galera ajudou a gente. Foi só no segundo dia que me senti mais seguro”. A ‘galera’ que ajudou Dilciomar e seus amigos fazem parte do movimento “Resistir para Permanecer” da UFSC, um grupo de estudantes que se uniu para lutar a favor de direitos a permanência estudantil na Universidade.

“Se não tivesse os meninos para ficar aquela noite ali, eu e nenhuma das outras meninas teriam dormido na frente da BU.” Camila admite que não foi fácil dormir na frente da Biblioteca Universitária. Apesar do desconforto, se sentiu incomodada pela presença de diferentes homens pela UFSC a noite. “Teve um momento que tinha um cara olhando para a gente. Meio que se acariciando, não sei. Mas aquilo deixou a gente com muito medo.” Além do medo de serem roubados, “eu me senti bem mal, fiquei com medo que aquele cara fizesse alguma coisa enquanto estivéssemos dormindo.” Assim, decidiram ir até a Deseg, departamento que faz a segurança ao patrimônio da UFSC, como garantia de uma noite segura.

Por situações como essa, Camila descreve outro momento em que foi atacada na rua por um homem que se aproveitou do local deserto. “Eu estava indo para o estágio as sete da manhã, e não tinha ninguém passando naquela rua. De repente ele me agarrou. Eu consegui me defender, mas o cara agiu como se nada tivesse acontecido e foi embora.” Além da violência sofrida e dos abusos cotidianos, como assovios na rua e convites discriminatórios, Camila percebe que a diferença social e de gênero não está restrita a esses locais. Dentro da Universidade situações de desigualdade também acontecem. “No meu curso de Engenharia Química, tem 27 alunos e sete são mulheres. Sem contar que ninguém imagina uma mulher no papel de engenheira, né (?).”

Apesar de nunca ter participado de movimentos sociais, Camila compreende sua importância para a vivência e a luta por direitos na Universidade. “Eu quero participar. Não quero que ano que vem tudo isso que aconteceu comigo se repita com outra pessoa, que tenham que dormir na rua para conseguir entrar na fila”. Mas para Dilciomar, que apesar de ter passado por situações de homofobia em sua vida, não se vê participante desses movimentos. “Olha, eu participei para me ajudar, sei que existe uma parcela de egoísmo meu nisso tudo. E acho que não conseguiria acompanhar ou me colocar a frente da causa de outra pessoa.”

Apesar de afirmar não querer participar, Dilciomar foi um dos responsáveis por organizar o abaixo-assinado. Esse documento foi um dos principais motivos de pressão à reitoria para a abertura de novas vagas e prorrogação das inscrições. “Como eu trabalho de estagiário no prédio da reitoria, tive tempo de ir lá e conversar com os responsáveis.” O abaixo-assinado teve 51 assinaturas que foram suficientes para chamar a atenção da Prae. No dia 15 de abril foi estabelecido que o prazo de inscrição seria estendido, além da abertura de 50 novas vagas, para agendamento de estudantes.

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