O popular e o acadêmico

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Projeto Rondon quebra os muros e coloca a Universidade além da sala de aula

 – Luiz Fernando Platt Carreirão – 

 “Ninguém sabe explicar exatamente, dizem que é cansativo, mas maravilhoso.” Assim define Sabrina Teixeira, estudante de Pedagogia e rondonista da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). No último mês de março, ela e mais 231 acadêmicos de todo o Brasil aceitaram o desafio de deixarem suas casas por 12 dias para imergirem num mundo que até então era distante e completamente desconhecido. Eles fizeram parte da 11ª operação, nomeada Operação Alto Vale, do Núcleo Extensionista Rondon (NER-Udesc).

São nos campus universitários que estão, em grande número, grupos de discussões, coletivos, movimentos estudantis, projetos de extensão, que praticam ações visando o bem-estar social. Em meio a preconceitos, questionamentos e polêmicas está o Projeto Rondon. Criado em 1967, por professores de graduação da Universidade do Estado da Guanabara (UEG), que decidiram levar seus alunos para a Amazônia, a fim de promover a integração e o conhecimento das diversas realidades nacionais. A partir disso, através de operações, passou-se a levar grupos de estudantes, apelidados de rondonistas, a municípios em situações de pobreza extrema ou dificuldades sociais.

L_Fernando_rondon - 1978

Durante as décadas de 1970 e 1980, período da ditadura, o Projeto era de responsabilidade do Ministério da Guerra.  Isso fazia com que surgissem dúvidas sobre sua real finalidade e sua possível função apaziguadora e de cortina para que os jovens não prestassem atenção nos abusos do governo. Toda essa crise ideológica culminou com que no final dos anos 1980 o Projeto deixasse de receber prioridade no Governo Federal, sendo extinto em 1989.

Tentando lutar contra os entraves do passado e reescrever a história, o Projeto Rondon voltou a ser pauta dos programas governamentais em 2005, sob coordenação do Ministério da Defesa e auxílio de outros ministérios. Desde então, são realizadas operações de aproximadamente dez dias em janeiro e julho de cada ano, durante o período de férias escolares. A instituição de ensino superior que tiver interesse em participar, inscreve suas ações e, caso for selecionada, pode levar uma equipe de oito alunos e dois professores responsáveis.

L_Fernando_logo rondon nacional

Cinco anos depois, em 2010, a partir da necessidade de levar mais pessoas e dar atenção, em especial, mas não unicamente, ao estado de Santa Catarina, surgiu na Universidade do Estado de Santa Catarina, o Núcleo Extensionista Rondon (NER-Udesc). Totalmente independente financeiramente do Ministério da Defesa, o núcleo recebe verba da Universidade e apoios dos municípios sede das operações.  Também são realizadas duas expedições anuais e mantém-se como um projeto de extensão da instituição.

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Tanto o Rondon Nacional quanto o núcleo da Udesc colocam como meta enterrar uma herança trazida dos tempos da ditadura: a fama do papel assistencialista. São muitos os estudiosos, grupo de professores e estudantis que se mostram contrários e críticos às atividades exercidas durante as expedições. Entre eles está o Movimento por uma Universidade Popular (MUP) que aponta uma ineficácia e a necessidade de uma reformulação total do Projeto. “Ele permanece com esse caráter assistencialista porque, na maioria dos casos, não revisita uma comunidade e os dias de vivência são poucos para criar um vínculo com a comunidade e instrumentalizá-la para superar possíveis dificuldades”, afirma Michele de Mello, membro do MUP-SC. Ela vê no Rondon uma vivência unilateral em que apenas os estudantes tiram proveito do aprendizado.

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Ciente da descrença e dos receios, Alfredo Balduino, coordenador do NER-Udesc, vê de forma positiva a retomada do Projeto Rondon e na criação do núcleo uma esperança de que se está fazendo valer o objetivo principal de auxiliar no desenvolvimento e propor mudanças efetivas. Para ele, a universidade tem um compromisso social com aqueles que não podem estar dentro dela. “Perde o assistencialismo, muda-se a ideia de vamos lá fazer por para ser substituída por vamos lá fazer com a comunidade. Não se trata de ir fazer um favor, é um compromisso da universidade com o desenvolvimento do Estado e da sociedade”. Balduíno aponta que poucos têm real conhecimento do termo assistencialista. “No período da ditadura tinha-se dificuldade de médicos, então muitos estudantes de Medicina iam nas operações. Quando um acadêmico de quarta/quinta fase faz uma cesariana com o que tiver na mão, isso é assistencialismo? Podemos interpretar como assistencialismo, mas também foi um bem que ele fez àquela mãe e àquela comunidade”. Conclui enfatizando que ouviu esse relato durante uma palestra em Ribeirão Preto, SP, de um médico, ex-rondonista.

No caminho para sua 12ª operação, o Núcleo Extensionista Rondon já esteve em 108 cidades de Santa Catarina, em mais cinco municípios de Goiás, três no Paraná e um na Argentina e proporcionou o intercâmbio de mais de 2,1 mil acadêmicos. De sua primeira operação para cá, foram realizadas oficinas e ações em diferentes campos: na Saúde, com orientações sobre prevenções de doenças ou campanhas de conscientização; na Educação, com visitas a centro educacionais e aplicação de conteúdos sobre assuntos interdisciplinares; no meio ambiente, com contato direto com agricultores, auxiliando na melhoria do plantio; na gestão pública e administrativa, em conjunto com servidores e prefeituras, são estudadas as principais dificuldades para, a partir disso, planejar propostas.

A Udesc acolhe membros de outras Instituições de ensino nas operações, e também serve de inspiração para outras Universidades criarem seus próprios Núcleos Rondon, entre elas a Universidade Estadual de Ponta Grossa, que também realiza operações regionais.

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Entre os dias 1º a 12 de março, aconteceu a Operação Alto Vale, envolvendo os municípios das Agências de Desenvolvimento Regional (ADR) de Ibirama, Ituporanga, Rio do Sul e Taió. Com público envolvido em mais de 60 mil pessoas, foram promovidas por 232 acadêmicos, cerca de 1.480 atividades em diferentes áreas. Entre esses estudantes estavam Mariana Laporta, 20, acadêmica de Administração Pública, e Sabrina Teixeira, 22, aluna de Pedagogia, ambas da Udesc. Mariana faz parte do núcleo há um ano e já participou de duas operações. Já Sabrina, teve sua primeira experiência no último mês. As estudantes destacaram como principais ações um trabalho com o Corpo de Bombeiros, em que foi elaborada uma cartilha de prevenção de acidentes para estudantes do quinto ano de escolas públicas; e também a revitalização de um parque na Apae de Ibirama. Ainda, os estudantes deixaram planejado o projeto de montar uma horta e um jardim. “Conseguimos deixar um pouquinho de esperança em cada um. Além de ajudar com o físico, podemos ajudá-los a trabalhar a questão de meio ambiente com os alunos”, acrescentou a estudante de Pedadogia.

Como aluna de Administração Pública, Mariana destacou as reuniões e conversas que teve com o vice-prefeito de Ibirama, Francisco Lohn, em exercício durante a operação. “Constatamos que a cidade enfrentava problemas com relação a dengue e de sustentabilidade, então planejamos e colocamos em prática soluções permanentes”. O vice-prefeito, que também é ex-rondonista, vê no Rondon um intercâmbio e troca de experiências entre a população e os estudantes, e analisa ser um diferencial na vida do universitário. Além disso, deixa marcas por onde passa “o legado que ficou está sendo muito importante”, constata Lohn. Ele aponta mudanças na saúde, educação e, principalmente, nas áreas da gestão pública. “Aqui na prefeitura, o pessoal fez um trabalho na área de controle administrativo e de estoque da alimentação escolar, o que fez com que sejam evitadom gastos e perdas do material de consumo”.

Se existe algo que, tanto o Balduíno, a Mariana, a Sabrina do NER-Udesc, a Michele do MUP-SC e o vice-prefeito de Ibirama concordam é a importância e a necessidade de se investir em projetos de extensão, movimentos e coletivos estudantis como renovadores vitais da sociedade. “É difícil avaliá-los de maneira homogênea, mas de maneira geral, acreditamos que essa pluralidade de experiências que é composta a universidade é muito importante para ampliar o leque de possibilidades e de aprendizado da universidade para além da sala de aula”, conclui a membro do MUP-SC.

Se Liga:­­

Próxima operação do NER-Udesc já tem possível data marcada: 6 a 16 ou 13 a 23 de Julho. Ela irá ocorrer na região do Meio Oeste, nas ADRs de Seara, Concórdia, Xanxerê, abrangendo mais de 25 municípios. As inscrições poderão ser feitas através do site http://www.udesc.br/?id=1447. Para concorrer, o estudante deve planejar duas oficinas na área de estudo do acadêmico.

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