QUANDO OLHAR NOS OLHOS VIRA NOTÍCIA

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Experiência de troca de olhares acontece em Floripa

 – Gabriel Volinguer – 

Os carros silenciaram em pleno sábado de sol na Lagoa da Conceição. Uma energia diferente se instaurou na Ponta do Pitoco, a poucos metros do centro congestionado do local. Pela grama, às margens da lagoa, se espalhavam cangas, pessoas sentadas frente a frente e uma música calma que enchia os ouvidos. Os que se aproximavam respeitavam o experimento com o próprio silêncio. Quem passava pelo local sem saber do que estava acontecendo assistia admirado uma experiência inédita. Não envolvia números, entrevistas, pesquisas, nem dados. Somente os olhos que se encaravam fixamente frente a frente, dois a dois.  A iniciativa simples do Coletivo Amor em Movimento, composto por pessoas da ilha, aconteceu no sábado, 7 de maio, e logo virou notícia.

“Senti algo muito forte, mas eu simplesmente não consigo explicar”, definiu uma das participantes do evento. Ela era uma das pessoas que seguia a dinâmica. Percorria o lugar para encontrar alguém que não havia ainda achado uma dupla, sentava-se de frente para a outra pessoa e a olhava fixamente nos olhos. Palavras não foram trocadas, nomes não foram ditos, mas quem participou garante que histórias foram contadas com riqueza de detalhes. “Quando alguém te fere na pele, mesmo que fique a cicatriz, ela jamais por si só expressará a dor que o ferimento causou. O olho tudo conta, tudo expressa e comunica, não esconde o que se sentiu”, contou outra participante.

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A iniciativa não é de hoje, nem surgiu na ilha, mas demonstra uma tendência que é global. A ideia já foi concretizada em outubro do ano passado, proposta pelo The Liberators Intenational, movimento em favor da paz, que surgiu na Austrália há pouco mais de dois anos e que conta com apenas 25 participantes. Não foi a falta de membros que impediu que a iniciativa se espalhasse. A experiência foi mundial, acontecendo em cidades com culturas distintas, de Tel Aviv a Hong Kong, de Vienna ao Rio de Janeiro. Como justificativa para a realização, as perguntas: O que um olhar diz sobre você? O que o olhar de alguém tem a dizer sobre este alguém? O que significa, nos dias de hoje, erguer os olhos da tela do celular para olhar fixamente nos olhos de um estranho? Para o coletivo Amor em Movimento, “nossos alarmes internos estão disparados e quase nunca estamos presentes por inteiro em nossas relações cotidianas, é pensando nisso que trazemos a iniciativa para Florianópolis”.

O Coletivo, na ilha, tem levantado questionamentos sobre o contato e o amor em uma sociedade que não pensa sobre essas questões. Cursos, oficinas e workshops, jogos cooperativos, dinâmicas de grupo, danças, expressão de afeto e amorosidade, exercícios de sensibilização e consciência corporal se espalharam pela ilha desde o surgimento do grupo, em 2014.

Fabiano, um dos membros do Amor em Movimento, diz que olhar nos olhos é “encarar a parte do corpo que menos te distrai”. Celso Braida, doutor em Filosofia da Linguagem e professor do departamento de Filosofia da UFSC, argumenta que “hoje, o olhar deixou de ser interativo, da troca biológica de olhares, para se tornar um ver sem ser visto e ainda assim estar se comunicando. Na troca tradicional, o olhar do outro me faz ver como sou visto de imediato”.

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Mas nem todos veem a falta de conexão entre olhares como algo de todo negativo. Braida constata que “desde o celular, a internet, e a portabilidade de sons e imagens, somos seres sociais diferentes. Já não precisamos estar face a face para interagir. Isso nos põe em situações nas quais o tradicional e o biológico não nos ajudam. Precisamos nos reinventar”. Mas o pesquisador também alerta que “a dificuldade está em criar e estabilizar essas formas de sociabilidade”.

De maneira mais prática, no campo linguístico, o olhar é um elemento importante de comunicação. Um exemplo de grupo que necessita das comunicações não verbais são os surdos que utilizam a LIBRAS para se comunicar. Ronice Quadros, professora no departamento de Letras – LIBRAS da UFSC e especialista em Psicolinguística, relata que “os olhos servem para compor os atos de fala em sinais. Os sinalizantes estabelecem o olhar com os seus interlocutores e retomam ele ao longo do discurso”. Mas é também ele o elemento que desconecta as ligações comunicativas, como Ronice constata. “Os surdos quando não querem mais conversar desconectam o olhar e encerram a conversa”.

No ano passado, o canal do Youtube SoulPancake reuniu seis casais para testar uma teoria científica que propõe que um casal que se olha durante quatro minutos ininterruptos tem chances de se apaixonar ainda mais. Não se tratavam de desconhecidos que se encontraram em um evento qualquer, mas de pessoas que se faziam companhia por certo tempo. “Em 55 anos de casamento, nós nunca realmente olhamos nos olhos um do outro dessa forma”, comentou uma mulher ao fim dos quatro minutos. “Quando eu olho para você de perto, percebo o quanto preciso de você”, respondeu seu marido.

A experiência Entre Olhares, porém, não se restringiu a comunicação por si só. As reações dos participantes foram diversas. Lágrimas correram pelas faces felizes e surpresas, abraços foram trocados, desconhecidos se tocaram ternamente com as mãos e gargalhadas se espalharam no ar. A quem via de fora, todos pareciam íntimos, pessoas que, por algum motivo, conheciam muito uns dos outros.

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“Pude perceber que tem um pedacinho do outro em cada um, quando olhei nos seus olhos percebi que havia algo de mim nele”, disse uma participante, dona dos olhos verdes da primeira foto. Ela diz, com lágrimas nos olhos e entre um sorriso: “Senti uma esperança no mundo, que seria um lugar melhor se as pessoas conhecessem este amor”. Depois desses 15 minutos encarando os meus olhos, deixando derramar lágrimas, expondo sua história, alegrias, dores e um abraço de sentimento real, ela levantou e foi embora. Não soube seu nome, mas tenho a impressão de que a conheço como jamais conheci alguém.

Ver vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=JPxBTPosgR4

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