Peladas de futebol, a brincadeira levada a sério

Fernando_futsal-pelada

 – Fernando do Espírito Santo – 

A chuteira, a caneleira, o meião, nada disso é necessário, o uniforme remete a regras padronizadas, mas basta a bola e o peladeiro para marcar o gol. E quem é o peladeiro? Segundo o funcionário público Fred Eric Silveira,eu sou apenas uma pessoa que gosta de confraternizar com os amigos, que vive tentando imitar os jogadores profissionais na hora de lazer”. Já para Vitor Mozzatto, “ser peladeiro é ser jogador de futebol antes de mais nada, só que em outro nível, acho que somos aqueles jogadores de verdade que faz por gostar de jogar”. As definições dos entrevistados aparentemente demonstram que todos escolheram a prática do jogo pela diversão. Fred Eric surfa e tem 30 anos, Vitor 53 anos é empresário.

O que essas pessoas têm em comum além de buscar diversão? Elas representam o perfil acolhedor e democrático da partida informal, onde todos participam e todos fazem as regras. Diferente da partida burocrática, quem manda são os jogadores, são ao mesmo tempo juízes, espectadores e competidores. No jogo oficial não.

Ainda é pequeno o número de crianças e mulheres nos estádios se comparado aos homens adultos devido à violência das torcidas organizadas, conforme retrata a mídia. O que é divulgado sobre o ambiente nos estádios são hostilidades e rivalidades. Já na pelada o clima é acolhedor e amigável. O que vale além da diversão e da fuga cotidiana, é o momento de confraternização que acontece nas partidas.

Esses momentos ocorrem em todos os períodos do dia. Segundo Giovane Moraes, “aqui já tivemos campeonatos na madrugada”. Todo dia é dia de jogar. Anahí Martinez Gallego tem 22 anos e é estudante de educação física. Ele conta que sai da faculdade direto para o campo do Corinthians Catarinense jogar Rugby até às 22 h e, logo após o jogo, vai para as quadras da UFSC jogar futsal. O que interessa para mim é brincar, resgato meu momento de infância”, diz Anahí. Para ela, “pelada de futebol rouba toda a verdade do próprio esporte, não é um esporte com cobranças e regras, é um jogo, é feito para brincar”.

Mas o que significa pelada de futebol? A expressão virou sinônimo de jogo amador na década de 1920 nos campos de várzea, quando o futebol era apenas um esporte praticado na periferia. Os peladeiros da época jogavam descalços e, por isso, a expressão caiu no gosto popular. Outra versão está ligada ao verbo pelar que significa esquentar, e os pés dos jogadores ficavam vermelhos por jogarem descalços, então jogar bola virou sinônimo de pelar os pés. Mas, a versão mais aceita pelos historiadores é a do campo descoberto, os campos eram irregulares e não tinham gramados, daí o surgimento da expressão pelada de Futebol.

O jogo evoluiu e saiu do subúrbio, ocupou outros espaços urbanos com diversos praticantes, crianças e adultos, homens e mulheres de todas as esferas sociais. Segundo Geraldo José Gomes, vice-presidente do Paula Ramos Esporte Clube em Florianópolis, “a pelada é o esporte nacional e não o futebol. No futebol encontramos profissionais treinados que jogam bola para um espetáculo, mas não necessariamente por prazer de jogar, ou para confraternizar com os amigos. Já a pelada é diferente, todos os jogadores são pessoas comuns e independente da idade, gênero, raça ou religião. Ela tem o poder de abrigar todos os perfis do povo brasileiro, eles procuram os campos para fugir do cotidiano. Para eles talvez seja uma brincadeira, nós levamos a sério”. O aluguel dos campos rende ao clube 40% de toda a receita.

Fernando_ES_foto Geraldo Presidente do Paula Ramos

Geraldo José Gomes, do Paula Ramos Esporte Clube.

O Clube Paula Ramos, surgiu há 78 anos, e foi campeão catarinense de futebol em 1959. Em 2005 o clube se afundou em dívidas e encerrou suas atividades, atuando apenas na sede campestre da Avenida Madre Benvenuta, no Bairro Trindade, mas por causa das dificuldades financeiras os dirigentes negociaram o imóvel. Além dos edifícios previstos para o terreno, a empresa compradora se comprometeu em construir a nova sede do Clube com toda a estrutura esportiva que tem hoje no local. “No início os campos de futebol não estavam previstos, mas percebendo a movimentação do mercado e a busca das pessoas pelo lazer, por causa do crescimento econômico, nós resolvemos investir nisso. E hoje, o aluguel dos campos é a atividade que nos dá maior retorno”, diz Geraldo. Ele também relata que foi a tentativa de fuga da rotina, o crescimento da economia no período do governo Lula junto com a especulação imobiliária o que impulsionou esse novo modelo de negócio esportivo. Pesquisadores do Ipea e da Confederação Brasileira de Futebol calculam que existam no país cerca de 20 mil campos de futebol/futebol suíço, número bem maior que os 300 estádios oficiais. Esse crescimento foi bem aproveitado por pequenos clubes e empresários do mundo esportivo.

Fernando_ES_Foto Paula Ramos entrada

Não se tem custo alto para jogar, apenas pagar o aluguel da quadra que gira em torno de R$ 15,00 mensais por pessoa em oferta para grandes grupos. Não há gasto com preparação física, nutricionistas ou preocupação com a técnica e não se investe em treinamento. Portanto, o custo para praticar a pelada é baixo em relação ao padrão profissional e mesmo com a crise financeira, os clubes, quadras e campos de futebol não deixaram de lucrar. Segundo Giovane Moraes,“aqui no Amazônia todo o lucro vem disso, em relação do que entra é de 90 %, o restante vem do bar, não diminuiu com a crise, pelo contrário só tem crescido”. Giovane é administrador do Amazônia, empreendimento do Norte da Ilha.

Mas o que aconteceu com os campos de várzea? Aqueles campos que deram origem ao nome pelada? A várzea só mesmo nas periferias, onde o verdadeiro futebol nasceu, cresceu,  evoluiu, assumiu a identidade do país, e lá nunca morrerá. Na várzea nada se paga para jogar e continua uma brincadeira levada a sério por quem joga. Nos bairros de classe média é uma brincadeira levada a sério por quem joga e por quem lucra. É a força do capital subjugando nossas vidas mesmo em momentos de lazer.

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