Quadrinhos refletem empoderamento feminino

 – Sarah Soares Motta – 

Há 20 anos a Marvel submetia o par romântico de seu super herói mais popular, o Homem Aranha, a fazer um aborto. Porque heróis não podiam ter filhos. Isso aconteceu na série clone, que também mostrou Peter Parker dando um soco na mulher progenitora. Vinte anos depois a capa da primeira edição da Mulher Aranha traz a heroína exibindo um barrigão de grávida enquanto ergue o braço, mostrando os músculos, como quem diz, Yes, we can!

Alguma coisa está mudando nas redações das grandes editoras, principalmente dentro da Marvel. Thor, o deus do trovão, virou uma mulher. Um time inteiro de super  heroínas foi criado, The A-Force. Miss Marvel, a história de G. Willow Wilson sobre uma menina muçulmana que ganhou super poderes, é considerada a HQ mais importante do ano pela ComicsAlliance.

Existiu por muito tempo a falsa ideia que meninas não consomem quadrinhos. Na verdade, mulheres representam 47% das vendas de revistas, um número significativo de consumidores que não se via ativamente representado em nenhuma história. Apesar dos dados, o mercado foi reconhecido e está sendo explorado apenas recentemente. Essa postura tem como um dos objetivos alavancar a venda de revistas, que havia caído nos últimos anos.

Em uma edição especial da Mulher Aranha, há uma capa desenhada por Milo Manara. A ilustração da revista foi muito mal recebida pelo público, gerou até um pedido de desculpas aberto da Marvel devido à sexualidade como a Mulher Aranha foi retratada. Manara é um artista italiano que se consagrou em desenhar quadrinhos que beiram ao erótico. Com mulheres magras e elegantes, totalmente empoderadas de seu corpo, eram damas insaciáveis. Apesar da repercussão negativa da capa, Manara foi um dos principais autores a trabalhar questões femininas desde o começo de seu trabalho, nos anos 1970 até a atualidade. Com uma carreira firme e já consagrada entre fãs e veículos especializados, o artista serviu de inspiração para muitas meninas.

Sarah_mulheraranha_sexy

A inspiração se alinhou à arte e se juntou com a vontade de ter voz própria e de ver mais representatividade feminina nos quadrinhos, na voz de mulheres. Assim, aos poucos, as meninas foram se apropriando do formato zine para encontrar voz de maneira independente.

 

Zines, o primeiro passo das publicações femininas

Zines, ou fanzines, são revistas de cunho autoral que podem tratar de diversos assuntos e mostrar todo tipo de arte. O que vai ser um zine depende do que deseja seu autor. A cultura de fazer zines começou na Inglaterra, há mais de 40 anos, dentro da cena punk. Nos anos 1980 e 1990, os zines se espalharam pelo mundo, mostrando sempre cenas urbanas independentes. Aqui no Brasil alguns autores consideram que o inicio da produção de zines foi durante a ditadura militar, com a poesia marginal.

Durante os anos 2000, com a popularização da internet no Brasil, a cultura de criar zines foi quase esquecida. A internet mudou o formato de se divulgar informação e isso atingiu também as publicações independentes.

A partir de 2010 acontece uma reviravolta. Alguns autores começam a publicar em formato digital e o zine volta a pipocar entre os cenários artísticos e o estilo se firma. Em pouco tempo várias meninas fazem uso do formato zine e começam a se auto publicar, com ilustrações, fotografia e, é claro, quadrinhos.

Os quadrinhos das minas possuem em muitos casos pegada feminista e tratam muitas vezes de temas como experiências do dia a dia, relacionamentos e sentimentos. Muitos desses saem da esfera zine e se transformam em publicações mais intensas e de maior volume.

A Garota Sirica é um exemplo disso. A personagem e a história foram idealizadas pela Lovelove6, artista de Brasília. O quadrinho mostra a vida de uma menina lésbica que é viciada em masturbação. A autora diz que sentiu a necessidade de criar a personagem devido ao fato de que a maioria de suas amigas e ela mesma só tiveram a primeira experiência com masturbação depois dos 20 anos, enquanto os meninos começam a partir dos oito.

Sarah_garotasirica

Ela começou a fazer zines e quadrinhos por estar inserida em um meio em que vários amigos faziam suas próprias publicações. Hoje, Lovelove6 já lançou livro, publica periodicamente na revista Samba e no portal Nébula, além de já ter feito zines e tirinhas.

A cena autoral em Brasília é forte e, às vezes, até mesmo divulgada pela grande mídia local. O mesmo acontece no Rio Grande do Sul, em São Paulo e alguns outros estados do país, como Minas Gerais. Porém, em alguns lugares a produção ainda é muito reduzida.

Em uma conversa com Sabrina Gevaerd sobre a produção de zines em Santa Catarina, a artista comentou como ainda era baixa a quantidade de quadrinhos no estado. Sabrina é artista e mora em Brusque, interior do estado, há pouco mais de um ano. Além de ter publicado a zine Nem Todo Mundo Gosta de Viver, ela está envolvida com a organização da feira Surto, que reúne artistas locais e que acontece em Balneário Camboriú. Sua arte também envolve mulheres, sexualidade e feminismo. A artista retrata meninas em meio a flores. A intenção é mostrar como a sexualidade pode ser algo natural, tão natural quanto a natureza.

Sabrina é design e atua em Brusque/SC.

Sabrina é design e atua em Brusque/SC.

Mas a situação no estado está mudando. A feira Parque Gráfico veio a Florianópolis, e reuniu diversas publicações independentes do estado. Quadrinhos, zines e prints podem ser encontrados no local, além de oficinas sobre a fabricação de quadrinhos e como publicar de forma independente. Quem está esperando uma mãozinha para se aventurar nesse mundo, talvez essa seja a hora.

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