A dor do nascimento

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Fotos: Ensaio Carla Raiter

Violência obstétrica:

Mulheres relatam casos de violência obstétrica em hospitais da rede pública. Práticas não recomendadas pela OMS ainda são frequentes

 – Priscila Ribeiro dos Santos – 

Nos últimos anos, centenas de casos de violência obstétrica vêm sendo denunciados em todo o Brasil. Em 2010, a Fundação Perseu Abramo, em parceria com o Sesc, divulgou a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado com dados alarmantes sobre violência contra mulheres em hospitais e maternidades. Uma em cada quatro mulheres sofre violência obstétrica, seja ela física ou psicológica. Em 2014, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma declaração apontando a vulnerabilidade de mulheres com baixo poder aquisitivo, solteiras e de minorias étnicas a estes abusos e afirmando que violência obstétrica é uma violação de direitos humanos fundamentais. A OMS destacou também medidas necessárias para garantir o respeito aos direitos das gestantes, como melhorias nos cuidados com a saúde materna e investimentos em ações contra os maus-tratos na gestação e no parto.

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Emídio Pedro – Agência Pública

Em 2014, a pesquisa Nascer no Brasil – Inquérito nacional sobre parto e nascimento, da Escola Nacional de Saúde Pública – Fiocruz, apontou que apenas 5% das mulheres entrevistadas tiveram partos naturais, sem qualquer intervenção no trabalho de parto e no parto. Entre algumas das práticas não recomendadas pela OMS, 36% das mulheres que tiveram partos naturais foram submetidas à manobra de Kristeller, 53% passaram por episiotomia, que é um corte feito no períneo, e 52% passaram por cesarianas.

“Fui submetida a manobra de Kristeller”.

Leia o depoimento de Débora Caroline Rodrigues, mãe do Moisés, clicando aqui.

Mesmo com dados tão expressivos, o que leva os números de violência obstétrica aumentarem a cada ano e por que o Brasil ultrapassa o limite de 15% de cesarianas estabelecido pela OMS?

Para a ginecologista obstetra Geane Garlet, os casos de violência obstétrica podem acontecer tanto pelo despreparo do profissional quanto pela estrutura oferecida no hospital. No caso de hospitais públicos, a situação se agrava pela demanda de partos que as instituições recebem todos os dias. “Alguns médicos optam por acelerar o parto aplicando a ocitocina sintética ou realizando uma episiotomia, que é o corte no períneo, sem necessidade, porque na sala de espera já tem outras mães esperando a hora do parto. É errado, mas a gente sabe que acontece. E por causa dessas atitudes e de casos de violência obstétrica que as mulheres estão fugindo dos hospitais. Tem que haver uma reeducação dos profissionais da saúde para o bem da gestante e do bebê, para poder oferecer um parto humanizado”, opina.

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Emídio Pedro – Agência Pública

“Aborto é considerado crime e a palavra para quem não provoca um é exatamente a mesma: aborto”

Leia aqui o depoimento de Maiári Iasi sobre a violência que sofreu com um aborto espontâneo em curso.

A doula Gabriela Zanella toca mais fundo na ferida da violência nas maternidades. Para ela, existe uma cultura que trata o parto como uma patologia. O parto, que deveria ser um momento de protagonismo da mulher, acaba se tornando um procedimento visto como arriscado. “Qualquer mulher tem que ter acompanhamento para detectar riscos, mas a gestação e o parto não são riscos por si só. A gente perdeu essa naturalidade. As mulheres de classe média e alta têm excesso de cesáreas e as mulheres de classe baixa tem partos violentos, cheios de intervenções. O que acontece é que toda mulher tem que se adaptar a um protocolo de uma instituição e isso já é violento porque a gestante é submetida a procedimentos sem que ela seja reconhecida como uma mulher com histórias, com sentimentos, com traumas”, avalia.

“Disse que estava sentindo dor durante a cesárea e ouvi do anestesista que eu não sabia o que era dor”

Depois de uma gestação considerada arriscada, Cleusa Regina da Purificação sofreu violência obstétrica antes da chegada da filha Maria Augusta. Leia o depoimento aqui.

Ricardo Maia Samways, diretor da Maternidade Carmela Dutra, em Florianópolis, afirma que o termo violência obstétrica é subjetivo e que nem todo procedimento é considerado invasivo. “Tem paciente que não concorda que se faça o exame físico. Algumas coisas ainda estão indo de encontro com uma boa assistência obstétrica. Quem sabe o que vai ser feito no parto é o médico obstetra formado para isso. Algumas situações podem ser consideradas violência obstétrica para algumas pacientes, para outras não. É tudo muito subjetivo. Está sendo confeccionada uma cartilha pelo Ministério Público de Santa Catarina para orientar as pacientes sobre o que é realmente violência obstétrica. Senão, daqui a pouco, qualquer coisa vai ser violência”, conclui Samways, recomendando que as mulheres denunciem os casos para que possam ser discutidos com as comissões de ética dos hospitais responsáveis.

“Eu chorava e pedia para não me amarrarem porque queria segurar minha filha quando ela nascesse. Não me deram ouvidos”.

Clique aqui e conheça a história de Aline Pina e da pequena Lara.

Segundo Gabriela, que se tornou doula há nove anos depois de passar por má experiência no parto, o empoderamento da mulher pode ajudar na luta pelo parto humanizado nos hospitais. Desmistificar a necessidade de cortes no períneo em situações diversas, de métodos artificiais para acelerar o nascimento e de práticas violentas, como a manobra de Kristeller pode diminuir a incidência dessas intervenções e conscientizar sobre a fisiologia do parto e o respeito à exposição da sexualidade das gestantes. Para isso, é preciso que os médicos acreditem no parto humanizado e que as mulheres sejam orientadas corretamente desde a primeira consulta de pré-natal para compreenderem seus corpos e saber identificar situações como sangramentos ou o trabalho de parto.

“Só fazendo isso acontecer já diminui o número de mulheres que ficam na frente da maternidade desesperadas porque querem ser internadas. Um médico é treinado para intervir em um processo que não está mais no natural, mas não é que acontece. No parto humanizado a mulher tem voz, ela vai escolher o acompanhante, a posição que ela quer, ela vai poder ir para o chuveiro, para a cama, se movimentar, comer algo leve quando ela quiser. E quando o profissional precisar intervir, se o bebê estiver em risco, por exemplo, ele vai intervir. Enquanto não houver risco algum, é a mulher que vai decidir o que é melhor para ela. As mulheres são violentadas há tantos anos que quando elas passam por algum processo inadequado, elas realmente acham que precisaram daquilo. E não são casos isolados. A maioria das mulheres está nessa situação. E quando a gente fala para estas mulheres o que elas sofreram, elas ficam arrasadas. Então, é muito difícil tocar no assunto da violência obstétrica. Aí elas vão passando essa cultura de violência para as próximas gerações”.

Priscila_Jesús Alejandro Sánchez, Franca Franchi y Jenniffer Oviedo Corrales

Termos específicos usados nesta reportagem:

Apgar ou Escola de Apgar: teste realizado no primeiro, no quinto e no décimo minuto após o parto para verificar sinais de saúde e bem-estar do recém-nascido. São avaliados a frequência cardíaca, respiração, tônus muscular, irritabilidade reflexa e aparência da pele. O somatório da pontuação de cada sinal avaliado pode ir 0 a 10 e recebe classificações. Se o somatório for de 8 a 10, não é constatado a asfixia, de 5 a 7 asfixia leve, de 3 a 4 asfixia moderada e de 0 a 2, é considerado o índice de asfixia grave.

Anestesia epidural ou peridural: anestesia local aplicada na medula espinhal da gestante por meio de um cateter e de uma agulha condutora.

Cardiotocografia: método de verificação do bem-estar do recém-nascido através da medição da frequência cardíaca.

Episiotomia: corte feito no períneo para ampliar o canal de parto.

Mecônio: primeira evacuação fecal do feto.

Ocitocina sintética: hormônio produzido em laboratório usado para acelerar o trabalho de parto, promovendo contrações no útero da gestante.

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