Comunidade em risco

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Por ser muito estreita, Rua José Boiteux dificulta atuação do Corpo de Bombeiros em caso de acidentes.

Estrutura do Morro da Cruz inviabiliza a atuação do Corpo de Bombeiros

 – Pedro Cureau – 

O Maciço do Morro da Cruz não pode ser incluído no já conhecido e amplamente divulgado cenário de Florianópolis, caracterizado pelas belezas naturais e os altos índices de qualidade de vida. Mesmo localizado na porção central da capital catarinense, o Maciço ainda assim é considerado como região periférica, a mais populosa da ilha, e acaba quase invisível à sociedade. Sua ocupação desordenada começou a partir da libertação de escravos e a expulsão da população mais pobre das áreas nobres do centro, se intensificou no século passado, e até hoje traz consequências para os moradores das mais de 18 comunidades que o compõem. Entre estas consequências, está a dificuldade do Corpo de Bombeiros para atender os chamados que vêm do morro.

Para o tenente Gilvan Amorim, do Corpo de Bombeiros, a maior dificuldade da organização nessas ocorrências é a entrada do caminhão nas comunidades, que em sua grande maioria só têm acesso através de escadarias. Nesses casos, o veículo consegue chegar até uma parte da rua, e o resto do trajeto precisa ser feito a pé pelos bombeiros. Além de terem que carregar emendas da mangueira nas costas, eles sobem correndo centenas de degraus utilizando roupas e equipamentos de proteção que somados pesam aproximadamente 20kg. “Nós já chegamos lá em cima com a língua de fora.”

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Escadaria da Rua José Boiteux possui cerca de 350 degraus; bombeiros reclamam que já chegam cansados ao local da ocorrência.

Há cerca de um ano, um incêndio atingiu uma Casa de Umbanda no alto da Rua José Boiteux e evidenciou ainda mais as dificuldades enfrentadas pelos moradores e pelos bombeiros. Por volta das duas horas da madrugada, dona Rosarita Costa acordou com os gritos do filho avisando que o terreiro que ela administrava, em frente a sua casa, estava pegando fogo. Dona Rosarita sofreu um infarto e precisou ser levada ao hospital, mas soube mais tarde que quando os bombeiros conseguiram chegar ao local, a situação já tinha sido quase toda controlada pelos próprios moradores da comunidade, que quebraram os canos de água de suas casas para apagar o fogo. Mesmo assim, o terreiro e tudo que estava dentro foi perdido. “Não sobrou nada. Eu perdi fogão, geladeira, instrumentos, tudo.”

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Orgulhosa, dona Rosarita posa dentro do terreiro reconstruído e que há pouco tempo voltou a receber celebrações religiosas.

O tenente Gilvan Amorim estava em uma das últimas viaturas do Corpo de Bombeiros a chegar até o terreiro de dona Rosarita, e confirma que neste momento já não havia mais perigo de o incêndio se espalhar para as outras casas do morro. Contudo, as causas do incêndio até hoje não são foram esclarecidas. A mãe de santo afirma que, através de suas crenças, descobriu que o acidente começou com um cigarro descartado de maneira inadequada, mas quando questionado sobre isso, o oficial afirmou que é quase impossível um incêndio daquelas proporções começar dessa forma.

Diversas soluções para esses problemas já foram pensadas, sobretudo depois que o Maciço do Morro da Cruz passou a integrar o território do PAC-Florianópolis em 2012. Logo na primeira reunião do Programa de Aceleração do Crescimento na Rua José Boiteux, foi discutida a colocação de um hidrante em determinada altura do morro, que facilitasse o trabalho dos bombeiros, dispensando o uso do caminhão e das emendas da mangueira. Mas os moradores, como é o caso da estudante de Ciências Sociais Luciana Silveira, que mora no morro há mais de 20 anos, reclamam que não só esta mas inúmeras outras questões foram esquecidas conforme a realização das obras. “É trabalho do Estado se aproximar da comunidade para saber o que ela precisa, mas não há humanização das políticas públicas. É um processo apenas administrativo, mecanicista.” Quanto ao hidrante, o tenente Gilvan Amorim ainda se mostrou pessimista sobre a possibilidade, pois afirma que a água que viria do reservatório mais próximo precisaria subir para chegar até o morro. “Mesmo que tivesse, talvez seria útil apenas para abastecer o caminhão, porque não sei se teria pressão suficiente para apagar o fogo.”

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Experiência do repórter

Com a ideia da reportagem em mente, e já sabendo do caso de incêndio que ocorreu ano passado na Rua José Boiteux, peguei o ônibus para voltar ao Morro da Cruz e enfim entrevistar dona Rosarita. Não podia esperar recepção melhor daquela mãe de santo que, com muito custo e a ajuda do marido e do cunhado, conseguiu reconstruir em poucos meses o terreiro que administrava com tanto empenho e viu ser engolido pelo fogo em uma noite. Orgulhosa, dona Rosarita abriu as portas da casa que havia pouco tinha voltado a funcionar, e foi mostrando uma por uma as esculturas, os ornatos e os instrumentos que recebeu como doação desde que resolveu recomeçar seu trabalho na religião.

De palavra fácil, dona Rosarita mal me deixava terminar as perguntas que precisava fazer. Mas com o tempo eu não pude deixar de notar que aquilo era mais do que apenas simpatia: era um desabafo. Era a oportunidade que uma moradora de periferia e mais tarde outros três ou quatro vizinhos tinham para ser ouvidos, mesmo que fosse por alguém que por enquanto só estuda Jornalismo. Para a grande imprensa da capital, para os órgãos públicos, e principalmente para a sociedade em geral que passa em frente à moradia dessas pessoas todos os dias, elas são invisíveis. Mesmo eu, quando desci o morro ao fim do trabalho, não conseguia acreditar em certas coisas que aquelas pessoas me contaram, sobre experiências que tiveram ao tentar usar inúmeros serviços, sobretudo aqueles que deveriam ser garantia de qualquer cidadão. Não acreditei até subir no ônibus da volta e despretensiosamente ouvir a conversa de dois adolescentes sentados a minha frente. Um deles, ao ser perguntado se já havia subido o morro alguma vez na vida, respondeu que nem fazia questão pois “não queria levar um tiro”, e então caiu na gargalhada.

Subi os mais de 300 degraus da Rua José Boiteux com uma ideia de pauta, e procurando saber apenas quais eram os empecilhos que os bombeiros encontravam para atender àquela e outras comunidades. Desci mais de meia hora depois incrédulo, tentando digerir o que aquelas pessoas são obrigadas a enfrentar no dia a dia por uma complexa questão social, e imaginando o quão melhor seria a vida delas se essas dificuldades fossem somente as questões geográficas, como a maioria pensa.

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