Debaixo dos dreads dos seus cabelos

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 – Daniel Bonfim –

A agulha em formato de gancho captura os fios de cabelo soltos, gira para lá, gira para cá, puxa para dentro, para fora, solta, prende e enrola de novo. Pergunto se dói. Johnattan Santos garante que não, “só quando faço aqui em cima, na raiz”. A ideia é ir emaranhando partes do cabelo natural do cliente com fios de cabelos soltos para criar mechas longas e robustas. Quanto mais firmes e consistentes melhor. O resultado final são dreadlocks, ou apenas dreads, um tipo de penteado que ficou mundialmente famoso a partir da década de 1970, muito procurado por jovens que buscam um visual que fuja do convencional.

De segunda à sexta, alguns deles se reúnem em volta de Johnattan Santos. Ele tem 18 anos e trabalha como cabeleireiro de dreads em uma das mesinhas da praça XV de Novembro, no centro de Florianópolis. No salão de beleza improvisado ao ar livre uma caixa de som portátil embala o bate-papo entre clientes e amigos com músicas de Justin Bieber, Drake, Sia e Calvin Harris, mas não são apenas os grandes ícones da música pop atual que estão fazendo a cabeça dessa galera.

Bob Marley in Concert at the Fox Theater in Atlanta - November 12, 1979

Catch a Fire é o quinto álbum da banda de reggae jamaicana The Wailers. A capa do vinil lançado em 13 de abril de 1973 é uma fotografia em close-up feita por Esher Anderson em que o vocalista do grupo, Bob Marley, aparece fumando um cigarro de maconha enquanto sustenta um olhar sonhador em algo distante. Para além de ter projetado Marley a fama internacional e deixado para sempre sua marca na história da música, Catch a Fire foi responsável por disseminar um estilo de vida fundamentado no Rastafari, um movimento religioso e de contracultura que hoje tem pelo menos 13 milhões de representantes espalhados pelo mundo todo. Os dreadlocks são provavelmente a mais conhecida expressão visual dos seguidores dessa religião.

Johnattan Santos nasceu em Florianópolis e mora na Cachoeira do Bom Jesus. Todo dia viaja uma hora de ônibus para chegar até a praça. Ali, desde os 14 anos, ele leva adiante o ofício que aprendeu com a sua mãe, Rita dos Santos, implantando ou fazendo a manutenção dos dreads de seus clientes. O penteado que se popularizou bastante entre os amantes do uso da maconha, encontra suas primeiras incidências históricas em múmias peruanas datadas de 200 a 800 dC. Além disso, há registros dos séculos XIV que atestam o uso de mechas emaranhadas por sacerdotes astecas. No movimento Rasta, os dreadlocks representam a força espiritual, as raízes que unem o homem à Mãe África, o que justifica seu aspecto vegetal. Alguns historiadores afirmam que o movimento surgiu por conta da exploração que o povo jamaicano sofria, o que favoreceu o surgimento de ideias religiosas e líderes messiânicos prometendo a libertação.

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Mas além de livres, os dreads de Johnattan são mutantes. Apesar de agora ter raspada toda a parte de trás da cabeça para deixá-los aparecer apenas na franja, dos 14  aos 16 anos tinha eles bem volumosos e cor-de-rosa, “bem menina mesmo”, se diverte. A intenção era deixar bem clara sua atração por homens e assim chamar a atenção dos rapazes enquanto dava suas voltas pelo bairro para “caçar”. “Sinto atração por meninas, mas prefiro ficar com os meninos, são mais difíceis, tem todo o negócio da conquista, aquele olhar que você troca, aquela tensão de não saber se o cara quer ou não quer me dá muito mais tesão”, revela.

Na Escola Básica Municipal Lauro Muller, onde cursa o terceiro ano do Ensino Médio, Johnattan diz não sofrer preconceito dos seus colegas em relação a sua sexualidade. Ele cursa uma turma noturna com apenas outros sete alunos. “O pessoal foi saindo aos poucos desde o primeiro ano, a maioria por que precisa trabalhar”, conta. Para ele, a maioria dos professores não são dedicados, um ou outro ainda explica a matéria e puxa um pouco a orelha, mas a maioria das vezes os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. A doutora em educação Célia Pezzolo de Carvalho, acredita que a proposta de se criar cursos noturnos no Brasil a partir da década de 1970 foi uma “farsa” institucionalizada. Em seu livro Ensino Noturno: Realidade e Ilusão, escrito a época, mas que encontra ressonâncias históricas até hoje,  a autora defende que a criação desses cursos ignora o fato de que eles mesmos provém da necessidade do trabalho infantil para a subsistência social das famílias das classes trabalhadoras. “Olha, para mim, eu só quero mesmo terminar o Ensino Médio para ter o diploma, não vejo muito futuro na escola, eu já ganho o meu dinheiro aqui fazendo os dreads, mas mesmo assim ano que vem quero tentar vestibular para Educação Física.” Este ano ele deixou a inscrição do vestibular passar, não falaram nada na escola e quando uma amiga veio comentar já era tarde demais.

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Porém, ser um educador físico não é o limite das ambições de Johnny para o futuro. Isso seria apenas para conseguir um emprego temporário e que pagasse o suficiente para sustentar a busca do seu verdadeiro sonho. Assim como Bob Marley, Johnny Beng quer ser cantor, só que de funk. Com versos como: “A vida é minha e eu faço o que eu quiser. Eu tô aqui, tu tá aí e daí, vamo vê?” e “Vamos curtir, vamos se unir, pra se divertir”, ele já descolou três apresentações em pequenos eventos em Florianópolis nos últimos meses. O plano agora é buscar mais possibilidades de apresentações e se dedicar à criação de novas músicas. “O que eu quero mesmo é ser famoso, ganhar dinheiro, mudar de vida.”

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