O que acontece atrás da faixa de gaza?

Linda_FOTO DE CAPA DA REPORTAGEM

Foto: Júlia Orige.

 – Linda Inês Pereira Lima –

No alto da escadaria da rua José Boiteux, no complexo Morro da Cruz, a moradora há 20 anos, Luciana Freitas observa a avenida abaixo. “A gente aqui em cima costuma chamar a Mauro Ramos de Faixa de Gaza. Porque para nós é como se fosse uma linha dividindo o morro e o resto da cidade.” Ela afirma que nunca viu mudança de infraestrutura e saneamento básico no local.

Logo no início da comunidade José Boiteux se encontra a Creche do Duduco, com paredes coloridas e alegres que se destaca como cartão postal da cidade de Florianópolis. A escada que começa logo ao lado da creche é estreita feita com cimento batido, o corrimão fino de 70 cm de altura muda de acordo com cada degrau.

Quem sobe os 365 degraus da escadaria da José Boiteux encontra algumas mudanças no espaço físico. Na transposição com o Mont Serrat, um dos pontos mais íngremes do morro, é possível se apoiar no corrimão amarelo feito pela prefeitura no carnaval de 2015. “Foi até bom o trabalho que eles fizeram aqui ano passado.” Segundo Luciana, o topo do morro antes era coberto por mato alto e não havia degraus naquela parte, apenas uma trilha de terra batida por onde as pessoas passavam. “Esse caminho é muito usado para quem vai pegar ônibus, e mora mais em cima no morro.”

Outra característica cotidiana da José Boiteux é o caminhão de lixo. Para recolher o entulho, o veículo da Comcap se aproxima do início da escadaria e recolhe os sacos próximos na rua de baixo. “Para jogar o lixo quem mora lá em cima, desce tudo ou sobe para deixar o lixo no Mont Serrat.”

Linda_FOTO DO CORPO DO TEXTO

Foto: Júlia Orige.

Projeto Maciço Morro da Cruz

O Morro da Cruz no centro de Florianópolis é formado por 16 comunidades, a rua José Boiteux que faz divisa com Santa Clara e Mont Serrat está no projeto da prefeitura para melhorias na infraestrutura e saneamento básico. Iniciada a discussão e pesquisas há mais de dez anos, em 2005, o projeto está vinculado ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) de Santa Catarina que pretende abranger a população no projeto Maciço Morro da Cruz.

No plano estão listadas modificações no espaço físico das comunidades e suportes que podem melhorar a mobilidade no local, como o transporte funicular. De acordo com a prefeitura, a ideia inicial em 2011 no governo de Dário Berger era construir um sistema de bondinho sobre trilhos que facilitasse a mobilidade dos moradores da rua José Boiteux. Luciana comenta que o projeto não consta mais no programa de mobilidade do Maciço Morro da Cruz. Depois de cinco anos e com a mudança de governos, a proposta não foi levada adiante, a única melhoria no dia a dia do morador na comunidade foi a reforma feita na escadaria em 2015, que está ali há mais de 40 anos. Outros aspectos como saneamento básico segundo relatos de Luciana ainda não foram providos pela prefeitura aos moradores.

Acesso à cidade

Em 20 anos como moradora da comunidade, a estudante de Ciências Sociais e membro do Coletivo Negro 4P (Poder Para o Povo Preto), Luciana Freitas viu uma cidade que se recolhe às suas tradições e reserva pouco às comunidades. “Quando eu era mais nova a gente descia o morro, ia aos bailes que aconteciam no centro, que era frequentado pela comunidade negra de Florianópolis.” Ela conta das festas da Associação da Embaixada Copa Lorde e do Clube 15 que eram frequentadas pela comunidade negra e que não existem mais no centro. “O mercado público nos anos 1990 era um local extremamente negro. Todas as sextas-feiras aquele lugar ficava lotado de gente. Tanto que você nem conseguia andar ali a noite.” Ao comparar o espaço do mercado público hoje ao que ele era nos anos 90, ela usa os termos da moda como ‘gourmet’. “Hoje em dia não, ele está totalmente elitizado, gourmetizado.

Ela ainda cita outros locais que eram referência para a comunidade no centro de Florianópolis onde havia samba de gafieira e outros encontros no espaço público. “Até uns anos atrás acontecia roda de capoeira no vão do Mercado Público, as batalhas de rap também. Hoje não acontece mais.” Em 2014, com o início das obras de restauração da ala sul e norte do mercado público, os acontecimentos culturais característicos do Largo da Alfândega foram suprimidos por proibições e cerceamento da polícia militar que prezava pela infraestrutura.

(Assista documentário Batalha da Alfândega )

Luciana conta que atualmente já se negou várias vezes a descer o morro para participar de atividades culturais como idas à praia ou um evento no Sesc, por causa da locomoção entre a comunidade e o centro da cidade. “A mobilidade se torna um entrave na vida do cidadão periférico, um obstáculo a mais para ter uma vida social.”

Com novos espaços em 2015 e 2016, a Alfândega se mostra para a comunidade um lugar que, de acordo com Luciana, “é cheio de coca-cola”. Ela diz fazendo referência às diversas cadeiras da marca de refrigerante que agora ocupam o vão do Mercado Público. Esse espaço entre uma ala e outra servia de calçadão antes da reforma, durante o dia era ocupada por clientes das lojas e turistas, a noite era o ponto de encontro para festas e música para a comunidade da periferia. “A reforma do Mercado é uma forma de você pensar uma nova higienização da cidade, sabe? Eles tornaram uma cidade histórica em algo cult.” afirma Luciana. Segundo o site do Mercado Público, agora ele é um novo espaço com hora para abrir e fechar. As lojas funcionam das 7h da manhã ás 19h, com os bares abertos até às 22h.

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