Por trás da insegurança instaurada nas comunidades pobres

Ana Thome_trafico

 – Ana Carolina Thomé – 

Sexta-feira, nove e meia da noite, um dos últimos dias das férias de verão de um grupo de jovens que estava em um apartamento de luxo na praia dos Ingleses, Florianópolis. Para o churrasco que eles estavam preparando ficar mais saboroso, faltava um ingrediente: maconha.

Às dez horas da noite o cenário mudou. Uma rua aparentemente calma, sem iluminação, próxima à entrada de um dos muitos morros das praias do norte. Os adolescentes, conforme recomendação do responsável pela droga, abaixaram o farol quando estavam chegando em compulsória cumplicidade. Eles agora não queriam ser vistos. Queriam a proteção da noite que havia chegado.

Quando o relógio marcava dez e meia vemos um menino de 20 anos, correndo pela calçada, olhando para frente e para trás, aparentando nervosismo, o corpo alto e magro. Era Hugo, que nos conta: “Na última curva para chegarmos, o BOPE, uma divisão especial da polícia nos parou de forma bem intensa, com armas de grande porte e com muitos homens, e aos berros nos mandaram sair do carro e pôr as mãos em cima dele para procederem a revista, que foi feita de forma bem minuciosa, bem diferente das feitas em estádios, por exemplo”.

A polícia passou os próximos vinte minutos interrogando os suspeitos, conferindo o carro, mochilas e fichas criminais. Sem quaisquer provas de um possível crime, os jovens foram liberados. “Acredito que por perceberem que tínhamos apenas ido buscar a droga, nos respeitaram na medida do possível, forma com a qual não trataram outras pessoas que passaram ali do nosso lado”, disse Hugo.

O garoto faz parte da classe A de renda brasileira, que representa 4% da população do país, segundo o IBGE. Ainda assim, teve a percepção de que as circunstâncias e o processo que ali passou foram muito diferentes do que os outros moradores da comunidade passam.

A alguns quilômetros dali, na região central da cidade, mais precisamente no Morro da Cruz, mora Luciana Freitas, estudante de Ciências Sociais. Ela relata que a Polícia Militar já esteve na sua casa sem nenhum mandado judicial, falou com seu filho de oito anos e revistou as coisas do seu filho mais velho. Os policiais saíram dizendo que estava tudo bem. “Eu realmente tive vontade de avançar nesses caras! Ainda vi da minha varanda eles fazendo revista em um menino de 12 anos, fiquei enlouquecida: os policiais super grossos com o menino. Eu queria ir lá ajudar, mas meu marido não deixou, aquela cena me abalou muito!” O código penal aponta como ilícita a invasão de domicílio visando a busca de provas sem mandado judicial pela polícia militar.

Sobre o jovem de classe média alta que sobe o morro para comprar drogas, Luciana destaca os efeitos desse comportamento. “O jovem branco traz consequências para sociedade quando ele não pensa. Na sua grande maioria, tem acesso, deveria saber que além de fomentar o tráfico, fomenta o genocídio da população jovem negra periférica”. Ela afirma que o papel desse jovem é discutir a questão do uso das drogas, tomar consciência do seu lugar de privilegiado e pensar como podemos juntos criar o mecanismo de equidade.

O policial T., que preferiu não ser identificado, responsabiliza a guerra às drogas por esse quadro. “Muitas pessoas não têm ideia de que o tráfico de drogas é o responsável por 90% dos crimes na sociedade. O maconheiro que acha que seus cinco reais não alimenta o crime, mal sabe que é exatamente esse dinheiro que um dia financiará uma arma que vitimará a ele mesmo ou um familiar seu”, explica.

No Brasil, os dados são alarmantes. Segundo a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas do Ministério da Justiça (Senad/MJ), estima-se que a idade do primeiro uso de drogas ilícitas é em torno de 14 anos. Quase 18,7% dos universitários usaram três ou mais drogas nos últimos 12 meses e 43% relataram já ter feito uso múltiplo e simultâneo de drogas na vida. Enquanto a droga circula nas grandes festas, apartamentos e mansões, a violência se instaura em comunidades pobres. O relato de Luciana destaca que a política de segurança passa por um desgaste, com a violência crescendo e a instauração de um clima de insegurança entre os moradores da comunidade. Luciana ressalta que tem medo da PM. “Há um projeto de sociedade nesse país, e nossos jovens negros estão morrendo e não é a toa, pois esse projeto é para os brancos”, diz ela.

A maior prova disso é que o próprio policial T. revela que quando há a incursão nas comunidades a procura de suspeitos o confronto é quase sempre inevitável, sendo necessário o policial revidar tiros disparados contra eles – versão que nem sempre é confirmada pelos moradores.

Quando perguntada sobre os motivos da aproximação de adolescentes pobres ao tráfico de drogas, Luciana diz que não é uma escolha entrar nesse caminho. “Quando não há implementação de políticas públicas efetivas, os jovens não têm outra saída”.

O policial segue uma linha de raciocínio. “Quando a criança cresce assistindo violência acaba achando normal. Na fase que uma pessoa aprende valores sociais e firma seu caráter, faltou tudo. Pobres, sem caráter formado e sem opção escolhem o mais fácil: o crime”. Assim, enquanto a política de combate à droga estiver, exclusivamente, centrada no combate ao crime e não no investimento na melhoria da qualidade de vida com opções reais de investimentos sociais, será impossível controlar a violência nas comunidades.

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