O Sujeito da 346 no Maciço do Morro da Cruz

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A casa 346 no Maciço do Morro da Cruz.

 – Luan Poffo de Oliveira – 

 

“Os bombeiros e a polícia não atendem aos moradores do alto da escadaria”. Pelo menos foi essa a informação que motivou o repórter de primeira viagem a subir num domingo cinzento o Maciço do Morro da Cruz, localizado na Rua José Boiteux – região central de Florianópolis. À beira das escadas que são caule das casas ali não tão seguramente enraizadas, três crianças jogavam bola e, desconfiadas, já anteciparam ao desconhecido de bloquinho nas mãos que “na comunidade não é todo mundo que dá informações”. Entretanto, foram necessários apenas alguns degraus para que duas moradoras trouxessem a realidade inesperada: “Os bombeiros e a polícia sobem, sim, o Maciço. Volta e meia até prestam apoio a um senhor cadeirante que mora na casa aqui embaixo”. Pápum! Caiu por terra a manchete idealizada.

Agradecido pela generosidade das mulheres e em desespero pela informação “non grata”, o repórter subiu até o meio do morro a pé – única possibilidade – e se sentou num degrau à frente de uma casa alaranjada buscando uma alternativa digna para o imprevisto. Com os olhos frustrados, porém privilegiados que miravam o imponente centro da cidade, era imprescindível achar uma saída: a única pista que o levaria a fazer uma reportagem sobre aquele lugar era ilusória e ele não possuía um plano B.

Passaram-se cinco minutos e o jornalista se forçava para perceber nos arredores uma matéria em potencial. Dez minutos e o frio já atrapalhava o pensamento. Quinze e ouvia apenas o barulho dos carros que passavam na Av. Mauro Ramos e algo semelhante a um chocalho e as pessoas desconfiadas iam e vinham e iam e vinham e a esperança diminuía que alguma ideia salvasse até, que à esquerda, o olhar fixo de um homem sentado fitava o repórter, que o descobria à beira da porta daquela casa alaranjada. Era de aspecto magro com os cabelos raspados e que, vestindo apenas uma ceroula branca, fumava seu cigarro e olhava o repórter intensamente com uma expressão de calma. Aos 35 anos, tinha cara de Cleiton ou quem sabe de Jeferson, mas seu nome real ele não revelou. Daqui em diante, o chamaremos de “o Sujeito da 346”.

Após ouvir as lamentações do homem do bloquinho de notas sobre seu trabalho frustrado, começou a discursar sobre a vida naquele lugar. “Pode anotar aí, os bombeiros recolhem o lixo segunda, quarta e sexta; arrastam as sacolas do meio do morro até lá embaixo com lonas que parecem de piscina. Anota aí que eles sobem, sim. Só o ‘lanche ou o gás’ que não vem depois das dez. Eles têm medo”, explicava ele de forma solícita, o qual não se intimidava pelas páginas e páginas que rodavam escritas no pacato bloquinho. Enquanto a câmera de vigilância da casa nos observava, ele esclarecia que, a residência tinha uma escritura formalizada em nome de seu pai, situação atípica em comunidades que se abrigam nos morros da periferia. Ali moravam cinco – o Sujeito, mãe, pai, irmã e cunhado -, mas, com dois andares bem conservados, a casa destoava das vizinhas mais humildes.

Olhar do repórter: o Sujeito da 346 falava sentado de cócoras à beira da porta branca.

Olhar do repórter: o Sujeito da 346 falava sentado de cócoras à beira da porta branca.

Seu carro fica estacionado por R$ 80 numa residência próxima ao início da escadaria, no limite de onde sobe a estrada, o que dificulta pois não é em qualquer horário que ele consegue tirá-lo do estacionamento improvisado. “E por que não deixar na rua mais próxima?”, indagou ingenuamente o repórter, e a resposta veio ilustrada: Recentemente o carro do tenente que mora logo à frente foi roubado. “Para cima da escadaria é bastante seguro, você pode subir às quatro da manhã que não vai acontecer nada. A região já foi muito pior, mas, hoje em dia, só lá na rua que não dá para deixar o carro. Levam às vezes apenas a gasolina. Eles roubam com certeza. E, se eu pegar roubando, morre”, ameaçou ele em contraste com a tranquilidade que se vestia – insuficiente ao frio soprado pelo vento sul. Apesar disso, a calmaria do morro era algo que fazia o Sujeito gostar da vida que leva, sonorizado volta e meia pelo barulho da brisa, da avenida distante ou do sino de vento de sua casa alaranjada. Não gostava era dos dias de chuva, os quais a água desce com força arrasando até as canelas dos transeuntes da escadaria. Nela, naquele momento, passavam garotos à direita do repórter, os quais chutavam uma bola de futebol entre si, feita nem de PVC, nem de couro, mas de garrafa pet.

As crianças do Maciço não têm um espaço para brincar próximo às residências. À frente de suas casas está uma escadaria miúda, a qual o Sujeito da 346 relembra que era de barro antes das obras do PAC em 2010 – inacabadas até hoje. Em sua infância, soltava “pipa”, brincava com bolinhas de gude, andava de bicicleta ou se dirigia ao Parque da Luz com pedaços de cano que utilizava como trave para jogar futebol. O terreno em que atualmente se aloja o imponente prédio da Igreja Universal, na Av. Mauro Ramos, era um espaço baldio que também servia como quadra de esportes – hoje em dia, local frequentado pela sua mãe evangélica. Da sua janela, lembra que era possível ver não apenas a Ponte Hercílio Luz por conta de uma vista com menos prédios, mas também o terreiro de Candomblé ao lado de sua casa, o qual com tambores fazia barulho até a meia noite. “Reviravam os olhos e jogavam as pernas para o alto”, comentava rindo de suas espionagens.

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Sua educação se deu através da Escola Silveira de Sousa, que desde 2009 foi doada pelo Estado à Secretaria Municipal de Educação. Após o Ensino Médio, fez um curso técnico para se tornar vigilante, mas não se interessou em buscar seu diploma. Ele confessa que se sentia decepcionado por trabalhar arriscadamente como segurança da Irmandade do Divino Espírito Santo ganhando um salário de apenas mil e duzentos reais. E batidas de funk quebraram o monólogo. Era um garoto que descia as escadas ouvindo música em volume alto no seu celular. “Aqui no morro tem baile funk, mas é mais perigoso. E, pelo amor de Deus, funk não me entra…”, revelou o protagonista da história, o qual começava a mirar suas falas nas festas eletrônicas que frequentava, nas drogas que utilizava e em seus hábitos de lazer.

Poderíamos citar que ele se informava diariamente através do Jornal do Meio Dia com o apresentador Hélio Costa, ou que quando solteiro trazia “os amigos a sua casa para um churrasquinho com as ‘pepequinhas’”, como ele cita, mas não é disso que o leitor se instigou a conhecer. O Sujeito da 346 revelou gostar de ir às baladas estilo “rave” no final de semana e se embriagar com a cápsula de êxtase verde nomeada “Louis Vuitton” que ingere com sua namorada. Seja em Jurerê ou na Lagoa da Conceição, o destino vai de acordo com a festa em que seus nomes estão na lista que a entrada é de graça. “Os bagulho lota, só os nego fritando e as gata top todas fritando”, comentava antes de admitir que esta é a mais barata alternativa quando o destino é a curtição. Com apenas uma “bala” e uma garrafa, a qual será reabastecida várias vezes durante a noite com água da torneira do banheiro a noite custam cerca de vinte reais. “Agora eu vou entrar, cara. Valeu”… e o repórter imerso na história, de repente, não entendeu a frase que inesperadamente causou uma ruptura à conexão constituída. O sujeito da 346 não se referia mais às baladas: era hora de ir embora.

Se aquela conversa durou cerca de uma hora, o repórter não conseguia estimar. Anotou rapidamente suas últimas memórias e desceu as escadas anestesiado pelo bombardeio de histórias, imagens e confissões. À beira do morro, os três garotos ainda jogavam bola. O repórter fez um gesto de adeus aos meninos e pensou consigo mesmo que se as pessoas do Maciço não costumam dar informações, ah… O sujeito da 346 foi uma inesperada e maravilhosa exceção.

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