Quando a casa vira prisão

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Rua José Boiteaux onde mora Djalmila Leite. Foto: Luiz Fernando Platt.

Retratos de quem não tem o direito de ir e vir por falta de acessibilidade no Morro da Cruz

 – Clara Comandolli de Souza – 

Depois de uma subida íngreme são mais noventa degraus até a casa da dona Djalmila Leite, noventa degraus que há quatro anos ela não vê. Desde que teve uma das pernas amputada, em 2012, por causa de um ferimento com prego agravado pela diabetes, a empregada doméstica aposentada só sai de casa pela porta dos fundos, onde o caminho é menos complicado. Ela mora com o marido e um neto na rua José Boiteaux, no Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis. Aos 68 anos, só sai de lá para ir ao médico e com a ajuda de um parente.

O Maciço do Morro da Cruz se localiza na região central de Florianópolis, é uma área de ocupação formada por 16 comunidades onde moram cerca de 23.500 pessoas. Apesar do tamanho, o Morro é um espaço invisível em muitos aspectos. Falta de saneamento básico, infraestrutura e segurança são alguns dos problemas que afetam os moradores dessas comunidades diariamente. E a dificuldade de acesso também entra nessa lista. Subir com compras de mercado, descer com o lixo, quando um morador passa mal ele precisa ser levado até o pé do morro em uma cadeira ou no colo. Os supermercados e deliverys não entregam nessas comunidades, o carro da ambulância e entrega de móveis só sobem até certo ponto. Situações que dificultam o dia a dia dos moradores e que poderiam ser evitadas.

Em 2007, a Prefeitura de Florianópolis anunciou o Projeto de Revitalização do Maciço do Morro da Cruz, pela Secretaria de Habitação e Saneamento Ambiental, com recursos do Governo Federal, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ao todo devem ser investidos cerca de R$ 80 milhões no Projeto, dos quais R$ 40,5 milhões já haviam sido investidos até fevereiro de 2014. Na proposta estavam obras de saneamento básico, habitação, terraplanagem e pavimentação, e beneficiaria 5.677 famílias. Entre as obras anunciadas algumas foram ou estão sendo executadas, outras ainda não saíram do papel e há aquelas que foram engavetadas e não deverão ser feitas. É o caso do tão necessário transporte vertical.

Para o transporte vertical a proposta incluía a construção de ascensores funiculares, um tipo de transporte coletivo sobre trilhos e puxado por cabos de aço. Eles servem especialmente para percursos com grande desnível e já são utilizados em alguns morros do Rio de Janeiro. A rua José Boiteaux estava na lista entre as que seriam beneficiadas com o transporte, o que permitiria a dona Djalmila visitar as vizinhas do alto do morro outra vez. O Morro do Mocotó também receberia a obra, facilitando a vida de Vanessa Mafra, que também só sai de casa para ir ao médico ou fisioterapeuta.

Vanessa Mafra mora na Servidão Siqueira, no Mocotó. Foto Clara C. de Souza.

Vanessa Mafra mora na Servidão Siqueira, no Mocotó. Foto Clara C. de Souza.

Em 2006, Vanessa, 39 anos, sofreu um acidente que a deixou paraplégica. A condição de cadeirante não seria tão difícil se a Servidão Siqueira, onde mora com a família, fosse mais acessível. Até 2010, para chegar em casa ela precisava subir 20 degraus carregada no colo. Depois de fazer muita pressão, a prefeitura cedeu material para a construção de uma rampa, o que facilitou um pouco as idas ao fisioterapeuta. Mesmo assim, é impossível para ela descer até a rua principal sem a ajuda de pelo menos duas pessoas.

Vanessa Mafra. Foto do arquivo pessoal da entrevistada.

Vanessa Mafra. Foto do arquivo pessoal da entrevistada.

Por isso, hoje, ela não consegue voltar a estudar ou trabalhar fora de casa e se limita a fazer artesanato e ajudar o irmão no negócio de ar condicionado. Com os exames que precisam ser feitos regularmente, depender apenas da aposentadoria é uma dificuldade. Mas o problema maior é não poder estar em outros ambientes. “A minha vida social eu já não tenho mais. Cada um tem as suas ocupações e querendo ou não as amizades vão fazendo as suas coisas e vão te deixando de lado”, conta Vanessa. A família já tentou vender a casa para morar em um lugar acessível, mas a própria falta de estrutura do local dificulta a venda.

A inacessibilidade do morro atrapalha até mesmo o subida de materiais de construção e a circulação dos pedreiros que trabalham nas obras do PAC, mas o problema não tem previsão para ser resolvido. Segundo informações do engenheiro fiscal de obras da Prefeitura, Renato Pagani, a proposta de transporte vertical foi retirada do projeto por inviabilidade técnica, mas não soube informar se estão sendo consideradas alternativas para o problema.

Em contato com a prefeitura dá para perceber a falta de organização dos envolvidos com o Projeto. Paulina Korc da Secretaria de Habitação e o engenheiro Rogério Miranda, dois dos representantes da prefeitura no Comitê Gestor, também não souberam informar quais medidas deverão ser tomadas para contornar o problema. Eles se reúnem pelo menos uma vez por mês com instituições e lideranças comunitárias para discutir o andamento das obras.

Rampa construída pela prefeitura depois de muita pressão da família. A rampa vai até sua casa, depois é escadaria. Foto Clara C. de Souza.

Rampa construída pela prefeitura depois de muita pressão da família. A rampa vai até sua casa, depois é escadaria. Foto Clara C. de Souza.

Enquanto o poder público não der atenção ao problema da falta de acessibilidade no Morro e não esclarecer e dar uma perspectiva aos moradores, pessoas como Djalmila Leite e Vanessa Mafra vão continuar vivendo presas dentro da própria casa.

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